Perfil

Marco Schuster: Partidário da Comunicação

Editor fala da experiência de escrever sobre Publicidade, do amor pela política e como o Jornalismo ganhou espaço em sua vida

“Eu era um alienado”, dispara Marco Antonio Franzmann Schuster, editor da Press/Advertising, sobre sua adolescência. Aos 56 anos, 36 de carreira, o jornalista admite que só ouviu falar em Marx na faculdade, que desconfia do off, e que gosta mesmo é de entrevistar. “Mais do que escrever”. Sem meias-verdades, Schuster revela suas preferências e como acabou apaixonado pelo Jornalismo, sua terceira opção no vestibular.

O pai, o bancário Garter Schuster (falecido), adorava adquirir os lançamentos tecnológicos. Assim, no final dos anos 1950, quando chegou a televisão no Estado, sua família foi uma das primeiras a comprar um aparelho. O menino, encantado com a novidade, passava as tardes em frente à tela. “Fui alfabetizado mais pela TV do que pelos livros e jornais.” Antes de ser fisgado pela televisão, porém, gostava mesmo era de futebol. “Além de jogar bola, eu adorava jogar bola”, brinca.

Anos mais tarde, seria para escrever sobre futebol sua primeira oportunidade como jornalista. Mas, nessa época, já era maior a tendência para a política. O despertar para os acontecimentos do mundo ocorreu no cursinho pré-vestibular. Lá, ouvia frases definitivas: “Esse governo é uma merda. Estamos na ditadura”. As afirmações o levariam a ler com mais atenção as revistas Realidade e Veja, que o pai assinava no final dos anos 1970.

Profissão do futuro

Mesmo mais interessado nos fatos políticos, Schuster prestou vestibular para Engenharia Eletrônica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufgrs), “porque era a profissão do futuro”. A segunda alternativa foi a Engenharia Elétrica. Como só passou para a terceira opção, Jornalismo, decidiu cursar até que passasse em uma das engenharias.

Quando foi aprovado, desta vez para Engenharia Civil, foi preciso pouco para perceber que gostava mesmo era de Comunicação, abandonando de vez as exatas. A partir daí, foi uma luta para recuperar o tempo perdido. “Tinha que ler o que os outros já tinham lido e o que estavam lendo.”

O hábito de leitura, segundo ele, começou de uma forma muito lenta, “mas foi indo”. Quanto mais lia Karl Marx, maior era seu entusiasmo e logo passou a fazer parte do Diretório Acadêmico da Ufrgs. Já formado, viria a integrar a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul.

Dias difíceis

Voltando um pouco na história, como Schuster gosta de escrever suas reportagens. “Os leitores dizem que sentem a leitura como se fosse uma conversa, que vai e volta no tempo diversas vezes.” No segundo ano de faculdade, soube de uma vaga na editoria de esportes do extinto jornal Hoje, do Grupo RBS. Mas, ao contrário de muitos de seus colegas que dariam tudo para escrever sobre futebol, ele queria era produzir textos sobre política. “Aceitei porque tinha que começar de algum jeito”, diz. A experiência não durou muito. Em poucos meses, o jornal fechou, e Schuster ficou sem o emprego. Na sequência, foi trabalhar na Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), onde produzia matérias para o Jornal do Inter, do Sport Club Internacional.

Passaria ainda pelo Diário de Notícias, Folha da Tarde e Correio do Povo. Neste último, viveu momentos complicados, como a greve de 1983. “Aconteceu uma coisa engraçada nesta época. Eu tinha ido acompanhar o Grêmio, em Tóquio, na final do Mundial Interclubes. Quando voltei, o jornal estava em greve. Como era da direção do sindicato, tive que aderir também. Então, fui até o jornal, pedi licença para entregar a máquina de escrever que estava comigo, e saí”, recorda.

Após 51 dias de paralisação, os profissionais retomaram o trabalho, mas, conforme relembra Schuster, o clima era péssimo. “Assisti a um por um dos meus colegas serem demitidos. Foram tempos difíceis”, conta, para explicar que só não foi demitido também porque tinha imunidade sindical. Com o fechamento do Correio do Povo, em 1984, ele mudou de meio e começou a trabalhar como produtor de TV na RBS. Passaria também pela TV Pampa.

Ócio criativo

Por causa de sua escolha pela Comunicação, acabou conhecendo Ana Lúcia, sua esposa há 33 anos. Schuster era colega de aula da Sílvia, que levou a irmã Ana Lúcia em um churrasco da turma em sua casa. Conheceram-se, começaram a namorar e casaram três anos depois. Da união, nasceram Mariana, 26, e Rodrigo, 24, ambos produtores de audiovisual.

O casal, quando não está trabalhando, gosta de ir até Gramado, onde tem uma casa. Também adoram reservar um tempo para ler. A biblioteca da casa revela os gostos. Na preferência de Schuster estão os policiais, mas, se ele tiver que citar algum livro, escolhe o Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes e Saavedra. “Esse clássico deveria ser lido por todo mundo”, aconselha.

Também cita Domenico de Masi, autor de O ócio criativo, para explicar sua fase atual. Acontece que, desde 2002, quando assumiu a função de editor da revista Advertising, hoje Press/Advertising, trabalha em casa. “Nos reunimos na última semana antes do fechamento, mas a maior parte do trabalho fazemos via internet”, diz. Com um pouco de esforço, tem conseguido organizar as tarefas e, ainda, reservar tempo, no início ou no fim da semana, para viajar com a esposa.

Ideologias

Em sua “terceira estreia”, como gosta de chamar seu momento atuando em uma revista segmentada, diz que entender a Publicidade não é algo fácil. Está sempre lendo e estudando sobre o ramo, mas, às vezes, se deixa enganar pelo discurso dos profissionais. Por outro lado, reconhece que “o ego dos publicitários não é pior do que o dos políticos ou o dos jornalistas”.

A experiência com política foi o que chamou de “segunda estreia” no Jornalismo. Trabalhou como assessor de imprensa do Partido dos Trabalhadores (PT), durante 13 anos. “Aceitei porque acreditava que o partido tinha a ver com minhas ideologias”, diz. Lá, produzia o Jornal dos Trabalhadores. Depois, migrou para a Comunicação da prefeitura de Porto Alegre, tendo passagem também pelo Sindicato dos Bancários.

Na política, aprendeu que o off pode ser muito perigoso. “Temos que desconfiar da versão oficial e da oficiosa”, acredita. Mesmo gostando mais de trabalhar com reportagem, reconhece que ter sido assessor de imprensa agregou muito para sua carreira.

Bom humor como estratégia

Se não fosse jornalista seria historiador, profissão escolhida por seu irmão Henrique, 51, que trabalha na Secretaria da Cultura de São Leopoldo. A cidade do Vale do Sinos também é onde reside sua mãe, Nair Franzmann Schuster. A família fixou residência em São Leopoldo quando o jornalista tinha seis anos. Antes, em virtude do trabalho do pai, mudou-se algumas vezes, fato que levou ao nascimento de Schuster em Joaçaba, em Santa Catarina.

Tinha 23 anos quando se mudou para Porto Alegre, logo após terminar a faculdade. As lembranças dos momentos em família no Vale do Sinos são “muito boas”. “Passeávamos bastante de carro. Meus pais se esforçaram muito para nos proporcionar uma boa infância”, diz. A mãe, dona de casa, produzia blusões de lã para os meninos. O exemplo dos pais foi seguido por Schuster ao educar seus filhos. “São 30 anos de diferença de uma geração para outra. Com algumas adaptações, procurei manter as diretrizes do meu pai.” Segundo ele, uma de suas estratégias é usar o bom humor com os filhos. “Em casa funciona, mas eu não tento fazer entre amigos.”

Satisfeito com a escolha profissional, destaca como sua reportagem predileta a entrevista realizada quando o Grêmio foi jogar com o Corinthians em 1982. “Entrevistei o Sócrates, o Casagrande e Adilson Monteiro Alves e redigi um texto sobre a ‘democracia corinthiana’ na época. Rendeu uma matéria grande na Folha da Tarde”, recorda. Na nova área de atuação, destaca a entrevista que realizou com Roberto Callage, sócio-diretor da DCS.

Hoje, o difícil mesmo é ter ideias inovadoras para a revista. “Em 10 anos, muita coisa legal já foi feita.” Segundo ele, quem faz Comunicação gosta de aparecer, o que facilita a abordagem. “Às vezes, tem jornalista que acha que não é notícia. Eu também não acho que eu sou, para falar a verdade, mas já faz mais de uma hora que estou falando.”

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Autor

Redação Coletiva

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