A bola sempre esteve presente na vida do jornalista e cronista esportivo Jorge Mário Bom Mendes. Quando criança, ela era sua “amiga” nas brincadeiras e peladas que aconteciam no bairro em que morava, Floresta. É que o filho mais velho do marinheiro Júlio Francisco Mendes e da doméstica Maria Amália Bom Mendes sempre gostou muito de praticar esportes. “Com sete anos eu morava na Câncio Gomes, e atravessava o morro para ir jogar futebol na Baixada”, recorda.
Na juventude, foi jogador de futebol e mais uma vez a fiel companheira marcava presença em sua vida. Entre a idolatria e a profissão, disputou campeonatos de várzea pelo Fluminense do Bom Fim, Bambas, Bambala e nos amadores do Internacional, seu clube do coração, e onde foi treinador da categoria juvenil, no período de 1948 a 1952. “Sou colorado, e vivi dentro do Internacional, quase toda a minha vida”, ele revela. “Mesmo como jornalista sempre fui setorista do Inter. Acredito que cronista esportivo tem que torcer para algum clube. Sei que muitos têm receio de dizer, mas eu não tenho medo nenhum, e sou muito bem tratado no Grêmio também, mesmo com as pessoas sabendo a minha opção.”
O início da carreira foi lá em 1939, na Rádio Farroupilha, onde, junto com o primo Ruy Vergara Correa, fazia coberturas esportivas. Ali se começou a criar a história do rádio esportivo, ainda de forma incipiente, como ele recorda: “Naquele tempo, o esporte não era como hoje, tínhamos só cinco minutos antes do meio-dia e cinco antes das 18h. Foi apenas na década de 50 que começou a crescer a imprensa esportiva”. Nesta época, Jorge foi trabalhar na Rádio Itaí e, de lá, foi convidado por Mendes Ribeiro para formar na equipe da Rádio Guaíba. Ficou ali até 1965, saindo somente para ingressar na Zero Hora, onde atuou por mais 10 anos. Foi o fim da jornada radiofônica, pois gostou tanto de jornal que não quis mais saber de rádio.
Um pouco de política também
A relação com a imprensa escrita deu tão certo que, quando deixou a redação de ZH, ingressou no Diário de Notícias, ficando até o seu fechamento, em 1979. A casa seguinte foi o Jornal do Comércio, local em que trabalhou por 25 anos, até se aposentar, em 2004.
Teve passagens também pelo Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, por 10 anos, de 1955 a 1965. Na década de 60, trabalhou na sucursal do O Globo e por mais de 10 anos no Jornal da Semana, do Grupo Sinos. Também foi secretário do diretório municipal da União Democrática Nacional (UDN), mas diz que nunca gostou de política. “Minha vida foi mesmo sempre voltada para o esporte. Pratiquei vôlei, basquete, futebol e participei de rústicas. Corri e joguei muito futebol pelo Fluminense do Bom Fim”.
Depois da aposentadoria, e com a morte da esposa, descobriu que não saberia ficar parado, mas também que o que tinha que fazer já tinha feito. “Eu sempre fui muito ‘Caxias’ e não queria terminar como rato de jornal, então, quando me aposentei, o José Aveline Neto me convidou para trabalhar na Revista Goool, e eu aceitei”. Só um derrame na retina o derrubou de vez, obrigando-o a deixar a revista, após três anos. E só parou por pura obrigação: “Já não conseguia enxergar muito bem, e estava correndo o risco de perder a visão. Fiz a cirurgia e resolvi parar de trabalhar”.
Histórias em Liverpool
Jorge acredita que sempre teve muita sorte e privilégios de trabalhar na imprensa. Cobriu três Copas do Mundo: em 1962, pela Rádio Guaíba; em 1966, pela Zero Hora; e em 1970, pelo Diário de Notícias. Agora acha que tudo mudou, para pior: “Eu só iria se fosse para assistir, pois está cada vez mais difícil para a imprensa trabalhar nos Mundiais. A única coisa que concordo são as entrevistas coletivas com os técnicos, que são muito mais organizadas que no passado”.
Com mais de 60 anos de profissão, histórias curiosas são o que não faltam. Uma delas foi quando cobriu a Copa da Inglaterra, em 1966. À noite, Jorge e outros jornalistas – todos nomes famosos na época, como João Saldanha, Jorge do Cury, Mário Viana, Waldir Amaral e Antônio Cordeiro –, saíram para jantar, em Liverpool, e foram surpreendidos por um ladrão. “O Antônio acabou ficando para trás, e sofreu uma tentativa de assalto, mas o Mário Viana, que era da Polícia Especial do Rio de Janeiro, e estava conosco, deu um carteiraço, e acomodou tudo”.
Lembra em detalhes da vez em que foram comemorar o cinquentenário do árbitro Aparício Viana e Silva, na mesma cidade. Quando o grupo de amigos estava no meio da comemoração em um restaurante, foram interrompidos porque o local precisava fechar. Um casal que também estava no restaurante os convidou para continuar a festa na casa deles. “Amanhecemos no apartamento do casal e fizemos a maior festa”, recorda.
Com tanta estrada rodada, cansou de viajar e prefere continuar quietinho aqui na terra natal, Porto Alegre. “Em 1966, quando fui para a Copa da Inglaterra, fiquei mais de 80 dias fora de casa. Quando voltei, as pessoas nem me reconheciam mais, pois estava magro pra ‘chuchu’. E eu já estava mesmo louco para voltar pra casa”.
Entre perdas e consolos
O terceiro presidente da Aceg (Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos), o jornalista Ruy Vergara Correa, e o colega Manoel Augusto de Godoy Bezerra são dois personagens que ele reverencia e cita como referências de vida. E explica: “O meu primo Ruy foi quem me introduziu no rádio e no jornalismo, e o Manoel foi mais que um amigo, um irmão que me ajudou muito”.
Jorge foi casado por 53 anos com Emília Roaro, falecida em 2000. Também aí, tinha o esporte de sempre na história: conheceu a esposa por meio do futebol, em 1940, quando jogava com os irmãos dela, no Bambas. Da relação, tiveram quatro filhos, três já falecidos. Apesar de ter passado por tantas perdas na vida pessoal, Jorge é um homem alegre. A simpatia e o bom humor são características marcantes de sua personalidade, e que se confirmam durante qualquer conversa com ele.
O conforto para tantas perdas ele encontra na filha, a arquiteta Rosângela, 43 anos, e nos quatro netos. “Estou sempre com eles. O Denis, por exemplo, apesar de ser gremista, me acompanha sempre nos jogos do Inter.”
Atualmente, sua rotina se divide entre passear pelas redações de jornais e de rádio, pelo Sindicato dos Jornalistas e pela Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg), onde foi presidente e vice-presidente entre 1968 e 1978. Tem como mania chegar em casa e ligar rádio e televisão, ao mesmo tempo, para se informar. Como vício, o hábito de comer doce. Chocólatra assumido, diz que não vive sem chocolate e doce de figo. Seu prato favorito é massa: “Gosto de todos os tipos, para mim não existe nenhuma ruim”.
Otimista incurável, aos 87 anos não se considera velho – e dá como prova o fato de não gostar de ficar em casa, e muito menos parado. Deixou de ir a cinema, assim como abandonou a leitura, pelo menos por enquanto. “Tenho uma porção de livros de esportes, mas como hoje não tenho muito tempo para ler, pois, já ‘entro em casa de costas’, acabo não lendo muito”, brinca, para logo em seguida dizer que se sente realizado com a vida que tem e com tudo que fez até aqui. “Querer morrer eu não quero, mas quando chegar minha hora eu vou, ninguém escapa disso. Sei que vou com a consciência tranquila, porque tudo o que fiz até aqui foi com alegria. Aliás, até hoje faço tudo com alegria”. E, entre risos, completa dizendo que não tem inimigos – e se tiver, o azar é deles.

