Perfil

Luis Giudice: No caminho certo

Publicitário conta como deixou para trás a vida em Montevidéu para hoje ser reconhecido por seus 30 anos de profissão

Por Patrícia Castro

Existem muitos caminhos a percorrer. Entre as várias direções, cada um deve escolher a sua. O importante mesmo é ter a certeza que se está no percurso correto. Há 27 anos, ao optar entre tantas alternativas, o uruguaio Luis Alberto Giudice, sócio-diretor de Criação da GlobalComm, seguiu seu coração e deixou para trás sua terra natal para arriscar uma nova vida no Brasil.

Da infância humilde vivida em Montevidéu até atingir os 30 anos de profissão, durante os quais conquistou troféus e reconhecimento, foi um longo caminho para Giudice. Sua história de vida começa dividindo momentos de brincadeiras e diversões de criança com as limitações que a vida simples lhe impunha. Foi a partir daí que começou a se formar um Giudice contestador, inconformado, sem vontade de ser pobre a vida inteira.

Mesmo sem ter dinheiro, ele garante que teve uma boa educação, tanto familiar como escolar, mas não concordava com um ditado que o pai, o pintor de paredes Rodolfo Miguel Angel Giudice, repetia: “Quem nasce para apito nunca chega a corneta”. O jovem acreditava que não seria um apito, mesmo que tivesse de correr atrás do que queria para mudar a sua história. “No Uruguai existe uma cultura geral do povo insatisfeito. Ao invés de cada um fazer algo por si, eles ficam culpando o governo, e eu não admitia isto. Por isso, resolvi me preparar e estudar, porque eu não queria ser pobre a minha vida toda”, revela. 

Desde criança Giudice se destacava por ser determinado, esforçado e competitivo, e mesmo nos momentos em que a timidez teimava em aparecer, era superada pelo esforço. No segundo grau era um bom aluno, mas não porque era inteligente ou tinha facilidade de aprender: “Eu estudava como um louco e era competitivo comigo mesmo, não me permitia tirar notas menores que as dos anos anteriores”. Para ele, o caminho para chegar onde queria estava no estudo. “Eu olhava para as pessoas e via que as que sofriam na minha volta eram pessoas que não tinham estudo, e por isto senti que por ali era o caminho”. Nas férias o menino ainda trabalhava como ajudante de pintor, com o pai. ”Aprendi desde pequeno que a vida é uma luta diária. E que todo dia é um desafio novo, é isto que a vida me prova”.

Publicitário por acaso 

Foi graças ao amigo de infância José Luis que Giudice despertou para Publicidade. O ano era 1979, época em que estudava para prestar vestibular para Medicina. Conversando com o “irmão de coração”, que estudava em uma Escola Técnica de Publicidade e Propaganda, já que naquele tempo não existia faculdade de comunicação no Uruguai, descobriu que, como gostava de desenhar, e desenhava muito bem, o caminho que deveria seguir era o da Publicidade. Ao comentar em família a descoberta de sua vocação, descobriu que o pai Rodolfo tinha um cliente dono de uma agência de publicidade. Daí, foi fácil conseguir uma hora para se apresentar. 

No entanto, fácil não foi. Para entrar na Nivél Publicidad, Giudice teve que desenvolver alguns trabalhos, com diversos desenhos. Entregou os testes para o diretor de arte Inácio González: este gostou tanto do que viu que na hora decidiu contratá-lo como estagiário. “Ele me olhou e disse que eu tinha talento, então abracei a oportunidade com as duas mãos”, recorda. Neste momento, aos 17 anos, Giudice trocou os pincéis de ajudante de pintor de paredes pelos de aspirante a diretor de arte. 

Após três anos, percebeu que permanecer no Uruguai não daria muitas chances de crescimento, pois na época o país estava vivendo mais uma de suas crises econômicas. “Em um primeiro momento, pensava que se eu não estudasse não seria ninguém na vida; depois, chegou a fase em que eu pensava que, se não fosse embora do Uruguai, iria quebrar minha cara naquele lugar”. 

Nesta época, o jovem começou a vir uma vez por mês para o Brasil com seu portfólio embaixo do braço, à procura de um emprego no Rio Grande do Sul. Falante, extrovertido, aos poucos foi fazendo amigos, conhecendo pessoas, fortalecendo relacionamentos. Não levou muito para abrir as portas de uma agência, a Exitus Publicidade. O então diretor Luiz Coronel logo encomendou uma série de trabalhos para um cliente, a Companhia Zaffari. 

O rapaz voltou para o Uruguai e virou uma noite desenvolvendo o trabalho, que encaminhou no dia seguinte para o Brasil. Como passou mais de um mês e não teve retorno, pediu férias e foi para casa de um amigo em Porto Alegre. Surpresa boa: por ele soube que estavam à sua procura já há vários dias. “Quando ele falou que o pessoal da Exitus já tinha ligado diversas vezes me procurando, eu fui direto para agência me apresentar”. 

Foi contratado para trabalhar por quatro salários mínimos – uma pequena fortuna. Voltou para o Uruguai apenas para se despedir da família, pegar uma mala de roupas e alguns livros, para estar de volta ao Brasil, em definitivo, no dia 23 de janeiro de 1983, uma data por todos os motivos inequecível. “Decidi apostar na minha vida em Porto Alegre. Vim para o Brasil com meu segundo grau concluído, mas não cheguei a cursar uma faculdade. Me formei trabalhando, com os conhecimentos adquiridos no dia a dia das agências.”

Caminhos diferentes

Tinha um ano de solidão no Brasil e recém-completado 21 anos quando conheceu a nutricionista Marli. A união durou 12 anos e dela nasceram o estudante de Engenharia Civil, Matheus, 21, e a estudante Vitória, 16. 

Há 10 anos está casado com a dentista Juliane, com quem tem a filha Amanda, 6. O casal se conheceu em uma casa noturna em Porto Alegre. “Lá eu conheci aquela morena linda e fiquei encantado. Depois disso não nos largamos mais”, revela. 

Emociona-se ao detalhar a escolha do nome da filha mais nova, uma homenagem à mãe, a cozinheira Amanda Lúcia Sanches, que faleceu em um acidente de ônibus, em 1992. No dia 5 de junho, os pais estavam vindo de Montevidéu para Porto Alegre, para passar o aniversário com o filho, mas a comemoração foi interrompida pela tragédia. “Quando a Juliane engravidou, o médico marcou a cesariana de nascimento da minha filha para o dia do meu aniversário, então eu conversei com a minha esposa e resolvemos prestar uma homenagem à minha mãe. E acredito que era para ser, por mais que a Amanda não tenha nascido na data prevista”, explica. 

Nos momentos de folga, Giudice gosta de viajar, de ir para Florianópolis na companhia da esposa e dos filhos. Também é possível encontrar a prole reunida nos cinemas de Porto Alegre. A preferência é por filmes de suspense ou comédia. Já seu gosto por música varia muito. Gosta desde rock até samba. “Fui criado ouvindo tango, mas não gosto muito”, confessa. 

Um defeito que o profissional revela que está aprendendo a transformar em sua personalidade é o fato de ser muito exigente, tanto com ele, como com as outras pessoas. Como qualidade, confessa que é muito sincero. “Já encorajei muita gente e também já devo ter desmotivado alguém pela minha franqueza, mas sou assim, gosto de olhar no olho e dizer a verdade.”

Entre agências

Há 30 anos atuando na área de criação, perdeu as contas de quantas campanhas já criou, em passagens pelas agências Escala, em 1986; Standard Ogilvy & Mather, por três anos; Competence, por dois anos; e Matriz, em que foi diretor-associado. “A minha carreira cresceu muito depois de ter ido para a Escala, foi lá que eu comecei a ficar conhecido e conheci personalidades da propaganda, como o Roberto Philomena, o Cesar Paim e o Saul Duque, entre outros”. 

Quando saiu da Competence, em 1994, Giudice foi convidado a trabalhar na Upper, onde, segundo ele, sua vida deu um pulo salarial. “Eu ganhava mais dinheiro que os diretores da agência. Lembro que na época era muita grana”, recorda. Em 1998 participou da campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, na agência DM9DDB, e no mesmo ano foi indicado a Publicitário do Ano. De 1999 a 2001 participou da diretoria da Associação Riograndense de Propaganda. Foi três vezes diretor de Arte do Ano e em outras quatro oportunidades foi indicado. Em 2001, ganhou o prêmio de Designer do Ano. Também foi premiado no Festival Iberoamericano de Publicidade (FIAP), em cinco oportunidades no Clube de Criação de São Paulo (CCSP), três no Prêmio Abril, além de ter recebido vários Grand Prix, Ouros, Pratas  e Bronzes no Salão da Propaganda, Prêmio Colunistas e Festival de Publicidade de Gramado. 

Depois de ter percorrido um longo caminho para chegar onde está, sócio-diretor de Criação da GlobalComm, e ser eleito Profissional de Propaganda do Ano no Prêmio Colunistas 2010, Giudice confessa que quer aproveitar um pouco mais a vida. Entre os planos para a próxima década está o de ter uma casa em Florianópolis e outra em Montevidéu, para poder se divertir e descansar. “Não sonho em estar rico, mas estar vivendo, com 57 anos, uma vida plena”, desabafa.

Imagem

Autor

Patrícia Castro

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.