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Pablo Fabián: Ode à loucura

Profissional conta como transformou alguns de seus prazeres em remuneração

Por Patrícia Castro

É final de tarde em Porto Alegre e a bela paisagem do sol se pondo no Rio Guaíba aponta o caminho para um sobrado estilo francês, no Bairro Assunção, zona sul da Capital. É nele que o publicitário, professor de Fotografia, Publicidade e Relações Públicas, Pablo Alejandro Fabián, mora há oito anos. Na casa branca com janelas azuis e móveis feitos pelas próprias mãos, com madeira de demolição e ferro, Pablo abre a porta e o coração para falar de sua “loucura oficial”, como gosta de chamar a forma como encara os desafios e da sua trajetória de vida. “Eu me criei com ferramentas, então acho que tudo o que preciso posso fazer”, diz.

Entre uma fatia e outra de bolo de rolo – uma massa de pão-de-ló enrolada com goiaba -, o professor mostra a casa decorada por ele, ao mesmo tempo em que dá atenção à filha Beatriz e lembra que herdou do pai, o arquiteto e artista plástico Roberto Júlio Fabián, o gosto pela marcenaria. Pablo nasceu em Buenos Aires, no dia 7 de setembro de 1953, e veio para o Brasil com a família aos dois anos. Neste tempo, seu pai foi convidado para ministrar aulas no curso de Pós-Graduação de Urbanismo para transformar a Faculdade de Arquitetura da Ufrgs em Arquitetura e Urbanismo. “Uma das coisas boas que aconteceu na minha vida foi eu não ter sido criado na Argentina. Sou brasileiro de coração. Tenho o mesmo ranço com os argentinos que os brasileiros têm. Acho eles prepotentes e um pouco chatos, mas como estigma, porque individualmente são pessoas como as outras”, acredita.

Constatada a herança do pai, com 15 anos o jovem já desenhava e criava móveis e, por isto, costuma se apresentar às vezes como marceneiro. Quando veio para o Brasil, a família não considerava adequado o mobiliário da casa nova. Para resolver a questão, o patriarca fabricou todos os móveis, enquanto a mãe produzia as roupas que usavam, já que também não gostavam dos modelos à venda aqui.

Para ele, a cosmetóloga Maria Del Carmem Isabel Bonaño Fabián foi o grande alicerce da família. “Minha mãe era uma mulher muito instruída e descolada. Ela foi o grande suporte de todo mundo lá em casa”, recorda, dizendo que ele e os irmãos mais velhos, a bióloga Marta e o médico Enrique, foram criados em uma cidade que era quase rural. Uma Porto Alegre que tinha muito terreno baldio, carroças na ruas e árvores com frutas. “Era outra qualidade de vida. Minha infância foi muito boa”, diz ele.

Por acaso

Formado em Relações Públicas e Publicidade e Propaganda pela Ufrgs, o profissional esteve vinculado à universidade até se aposentar em 2009. Ele lembra assim como tudo começou: “Não cabia nos paradigmas da minha família a possibilidade de ingressar em algum curso superior que não fosse a Ufrgs. Quando passei no vestibular, fui correndo contar ao meu pai, que me olhou por sobre os óculos e num tom de pouca surpresa perguntou: ‘Fizeste vestibular para rodar?’ Em outras palavras, me fez perceber que não havia feito nada mais que a minha obrigação”.

A escolha pela Comunicação aconteceu porque o jovem estava “a fim de uma guria” que fazia este curso na Ufrgs. Pensou que, se fizesse o mesmo curso que ela, teria alguma chance – algo que acabou nunca acontecendo. “Eu entrei na Universidade pelo coração e não pelo amor pela profissão. Apenas por uma gata que eu gostava”, brinca.

Como já trabalhava com fotografia, começou a se envolver com o curso e conheceu o publicitário Laerte Martins, que na época era professor na Ufrgs e fundador da Martins + Andrade. Foi convidado para trabalhar como fotógrafo na agência. A parceria deu certo até Pablo se formar e decidir que, como já tinha estagiado com Jornalismo na Zero Hora, e tinha trabalho com Publicidade por dois anos na Martins, deveria conhecer mais sobre a área de Relações Públicas.

Conseguiu uma vaga no Gabinete do então Reitor da Ufrgs, Homero Só Jobim, e, quando viu, já era funcionário da Universidade. Em menos de um ano foi convidado para dar aula no lugar de uma professora que se licenciou, depois para o Colégio Aplicação, e quando percebeu já era professor da Ufrgs. “Acredito que as coisas aconteceram porque eu estava no lugar certo, na hora certa, e topei a parada”, explica.

Em paralelo às aulas, Pablo trabalhou com a Weber e Fabian Consultoria Gráfica, que foi montada em sociedade com a professora Maria Helena Weber e durou 10 anos. “Quanto a Milena (apelido dado à amiga) migrou para a área acadêmica, eu comecei a entender tanto de qualidade que passei a dar consultoria na área e, com isto, comecei a viajar o Brasil inteiro”. Com a experiência adquirida, Pablo montou a consultoria que leva seu nome, Fabian&Fabian Produções Organizacionais, especializada em planejamento e gestão estratégica.

Culinária e marcenaria

Na adolescência, foi um aventureiro. Fez trilhas de moto e carro e praticou esportes – ginástica olímpica, esgrima e remo. “Eu era meio Indiana Jones e peguei pesado com a vida. Não ‘arreguei’ nunca”, orgulha-se. Para repor as energias, ao invés de tomar o “cafézão” que era preparado por sua mãe, preferia inventar novos pratos com o que tinha de alimentos na geladeira. Aos poucos foi se aperfeiçoando e aprendeu a cozinhar. A atividade tem lhe rendido, de uns tempos para cá, alguma remuneração: “Essa história de cozinha sempre foi um prazer e agora tem alguns grupos que me contratam para vir comer na minha casa. Eles fazem suas reuniões ou confraternizações aqui e me pagam por isto!”.

No fundo da casa também há uma marcenaria onde ele desenvolve móveis. “A minha aposentadoria me gerou muito mais liberdade para poder fazer isso que eu gosto e ainda ganho um dinheirinho, pois também estão me contratando para fazer alguns objetos”, revela.

Quando comprou o imóvel, Pablo fez um planejamento estratégico para sua vida e nela incluía a meta de “uma melhoria por dia” na residência. Nas horas vagas, é isto que faz. O projeto que foi idealizado para 10 anos tem agora mais três para ser concluído. Assim, o professor, consultor, marceneiro e cozinheiro, que acredita em três Cs – criar, construir e comemorar – poderá impor-se novas metas, “pois se tu cria, constrói e comemora, a próxima criação será um degrau acima”.

Pai coruja

Atualmente, Pablo está namorando a gourmet Carla. Já foi casado três vezes e acha isto “muito divertido”. A relação com a atual companheira é diferente, pois ela mora em São Paulo. “Antes eu vivia grudado e agora o nosso namoro é pela internet, ou quando eu vou para São Paulo ou ela vem para cá”, diz, explicando em seguida como começou o relacionamento: “Nos conhecemos há 30 anos, mas há dois nos achamos pela internet. Por meio do Laerte Martins acabamos nos reencontrando e engatamos o namoro”.

A ausência da namorada no dia a dia é recompensada pela companhia de seu “xodó”, a filha Beatriz, de 7 anos, fruto do casamento com Thaís. Pablo fez algumas mudanças em sua vida para que a menina pudesse ser criada de uma forma mais livre e para que passasse mais tempo com ele. “A Beatriz nasceu no fim do meu casamento e me trouxe muita alegria. Por causa dela eu comprei esta casa e hoje me sinto feliz por ela estar sempre aproveitando isto aqui”, diz.

De Carlos, 29 anos, filho do primeiro casamento, o pai coruja diz que morre de saudades. Há dois anos ele mora na Austrália, onde trabalha como professor de Webdesign. “Sinto uma falta enorme do meu ‘parceirão’, mas fico feliz que ele esteja se dando bem”, revela.

Loucura e lucidez

Atualmente, as leituras diárias são atualizadas pelo iPad e Pablo revela que as revistas que tem comprado são de culinária e marcenaria. Gosta muito de blues e de todos os estilos musicais, pois para ele, até pode existir alguma música ruim, mas não um estilo. “Sertanejo, por exemplo, pode ser muito bom na voz de Almir Sater”. Para aliviar a tensão, adora tocar clarinete.

Com a experiência de professor e consultor, explica que, partindo do princípio de que as pessoas têm características, “quando elas pilotam bem estas características, elas se transformam em virtudes. Já quando dominam mal, são defeitos”. E complementa dizendo que todas as suas virtudes já foram defeitos em algum momento: “Temos que medir as características para que possam ser vistas de forma boa ou ruim”.

Como dica para os jovens que estão começando a carreira profissional, Pablo deixa uma lição que chama de ‘Ode à Loucura’: “As pessoas vivem te enquadrando, pois elas não querem que tu sejas diferente, e se tu consegues isto, este é o teu diferencial competitivo. Então, valorize a loucura e não prostitua tua alma. Acredite e persiga o que tu queres, pois a loucura é apenas uma outra forma de lucidez”.

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Autor

Patrícia Castro

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