É em meio a uma rotina comprometida com uma série de atividades em diferentes organizações, o que para alguns pode parecer extenuante, que Daniel Santoro encontra o estímulo e o equilíbrio necessários. O seu dia a dia é dividido entre as funções de sócio-diretor do Grupo Dado Bier, onde responde pela gestão, marketing e planejamento da empresa, de presidente da ADVB/RS, de vice-presidente voluntário da Parceiros Voluntários, onde atua na área de marketing e como conselheiro deliberativo, e de presidente da Japan Karate Association (JKA) do Rio Grande do Sul. Aos 42 anos, é formado em Engenharia Agrícola, possui especialização em marketing pela ESPM e em administração de negócios pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos.
Aos 23 anos, após concluir o ensino superior na Ulbra, Santoro foi para o interior de São Paulo, na cidade de São José do Rio Preto, onde trabalhou como representante comercial da antiga marca de tênis Regazone. Depois de três anos, voltou ao Rio Grande do Sul para trabalhar em uma empresa de calçados de Novo Hamburgo, desta vez como supervisor de vendas. Foi nessa ocasião que ele se interessou pelo marketing e ingressou no curso de pós-graduação da ESPM. “Na primeira aula, meu olho brilhou e eu pensei: ‘é aqui o meu chão’”. Encantado com o marketing estratégico, trabalhou na Parceiros Voluntários, como consultor.
Foi nesse período que conheceu o atual sócio, Dado Bier. “Nós nos conhecemos no Rio de Janeiro, em um encontro absolutamente inusitado. Começamos a conversar e, no dia 1º de outubro de 1998, comecei a trabalhar na Dado Bier como coordenador de marketing”, conta. Nos primeiros três meses na nova função, trabalhou em três turnos. “Para fazer a passagem de bastão, trabalhava pela manhã na Parceiros Voluntários e, à tarde e à noite, na Dado Bier”, lembra. A partir daí, a carreira deslanchou de forma natural – foi coordenador e gerente de marketing, diretor das unidades e também foi o responsável pelo projeto de joint venture da Dado Bier com a AmBev, desenvolvendo a implantação da cerveja da marca.
Em setembro de 2002, Santoro se desligou da empresa para cursar uma especialização em administração de negócios na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. “Em 2003, o Dado me convidou para retornar para o grupo, em uma condição de sócio, com a função de estruturar a gestão da organização”, conta. De lá para cá, é na Dado Bier que atua profissionalmente, fora as atividades paralelas e voluntárias, “que não são poucas”.
Arte marcial como filosofia de vida
Praticante de Caratê, estilos shotokan e tradicional, há 25 anos, Santoro alcançou a graduação de faixa preta 2º Dan. O primeiro contato com o esporte foi ainda no interior de São Paulo, onde conheceu Kazuo Nagamine, um nissei (filho de japoneses), que Santoro descreve como um amigo, um lutador fantástico, uma pessoa iluminada e um homem culto, que é médico e chefe do Departamento de Medicina da Universidade de São José do Rio Preto. “Por afinidade, ele se tornou meu sensei” (forma de tratamento do idioma japonês, empregada para referir-se a pessoas com alto nível de conhecimento), relata. E reconhece que, na sua formação profissional, entre especializações e outros diversos cursos, a sua principal influência e, hoje, seu diferencial, é a prática do Caratê.
“Trouxe a disciplina do Caratê para a minha vida”, afirma. Para ele, praticar a técnica é fácil. O desafio está em transformar os ensinamentos e os princípios da arte marcial em filosofia de vida. Para isso, Santoro lembra o Dojo kun, o código que fundamenta a prática do Caratê e é formado por cinco regras: esforçar-se para a formação do caráter, ser fiel para com o verdadeiro caminho da razão, criar o intuito do esforço, respeito acima de tudo, e conter o espírito de agressão. “O princípio de esforçar-se para a formação do caráter nunca acaba e precisa ser traduzido para os negócios, para as relações, para as metas a serem perseguidas”, ensina. “As formações técnicas e específicas são importantes, mas não têm o aspecto conceitual e humano, que são fundamentais para o sucesso em qualquer atividade que envolva pessoas”, explica.
Um voluntário por essência
Envolvido com a Parceiros Voluntários desde a sua criação, Santoro é um voluntário ativo até hoje. E acredita que a prática do voluntariado deva ser disseminada e exercitada. “Aqui no Brasil, temos a ideia de que cidadania é direito. Na verdade, nós temos direitos e deveres. Quantas pessoas realmente assumem seus deveres? Quantos fazem a sua parte?”, questiona. Como Santoro acredita em um processo de liderança pelo exemplo, para ele, o primeiro passo é dar a sua contribuição. “A minha atividade como voluntário é no sentido de emprestar meu conhecimento e minha experiência como gestor, para o desenvolvimento dessas instituições”, explica.
E a atuação não é diferente na ADVB/RS. “Sou um aficionado por marketing e me identifico com a causa da ADVB. Acredito que o marketing pode e deve agregar valor ao nosso ambiente de negócios, ao primeiro, ao segundo e ao terceiro setores”, afirma. Para ele, é preciso incorporar o conceito de sustentabilidade de uma forma mais ampla (triple bottom line – people, planet, profit). “Se os nossos governos percebessem o cidadão como cliente, haveria mudanças na qualidade dos produtos oferecidos e dos serviços prestados, nos custos, na competitividade. Se eu passasse a olhar essa cadeia de valor do primeiro setor a partir do cidadão, será que não haveria mudanças relevantes?”, pergunta. Na interpretação da ADVB, o marketing pode ser um agregador de valor no primeiro setor, atendendo às demandas do cidadão, com o menor recurso possível. No segundo setor, o marketing pode buscar o lucro, de forma sustentável, em harmonia com todos os públicos, sem causar impacto social ou ambiental amanhã. E no terceiro setor, é definir qual é a missão dessas organizações ou como alcançá-la.
Rotina intensa
Santoro é casado há 11 anos com a advogada Valéria Santoro. “Além de me compreender, ela me apoia, me auxilia em várias frentes, está sempre comigo; temos uma parceria muito forte”, revela. Para ele, a mulher é o seu porto-seguro. Mas quando se sente realmente esgotado pela rotina intensa, ele busca a cura para o cansaço na prática do Caratê e na companhia da cadela Gaia, uma dog alemão de cinco anos – ele é um “cachorreiro” confesso. “Hoje pratico Caratê na medida do possível”, reclama, mas cada vez quer praticar mais. Quando dá tempo, vai para a academia comandada pelo sensei Alfredo Aires.
Os momentos livres são raros, mas ainda consegue equilibrar lazer e trabalho. Para isso, aprendeu a trabalhar de forma cirúrgica, identificando os pontos em que pode agregar valor nas organizações em que atua. “É um aprendizado como gestor. Aprendo a delegar poder, mas nunca a delegar responsabilidade”, ensina. “É um desafio estar presente em todas as frentes, ao mesmo tempo é uma oportunidade única que me encanta”, afirma.
Abaixa a cabeça e trabalha
Nascido em Montevidéu, no Uruguai, em 1969, Santoro veio para o Brasil com nove anos. Seus pais, Amália Santoro, 65 anos, e Edgardo Ferreira Ramos, já falecido, haviam se separado e a situação de imigrantes não foi fácil. Hoje, ele retorna ao Uruguai com bastante frequência, para passear. “Como minha história foi de luta e conquista, poder voltar para o ponto de origem e enxergar para onde estou me dirigindo é muito gratificante”, conta.
Apaixonado pelo que faz e obstinado em buscar o melhor naquilo que faz, Santoro deve seu desempenho ao trabalho. “Quando eu estava conhecendo a Valéria, a mãe dela, Maria Elena Johannpeter, me falou uma frase dita pelo doutor Jorge (Gerdau), que me marcou: ‘baixa a cabeça e trabalha, que o trabalho falará por ti’”, relata. “É o que eu procuro fazer até hoje”, afirma. Outro ensinamento que ajuda a definir o jeito de Santoro trabalhar vem de seu sensei. Quando ele voltou para o Rio Grande do Sul, com 27 anos, não estava satisfeito com o seu líder imediato e comentou a situação com Kazuo. “Ele falou: ´que bom, Daniel, assim você aprende o que não deve fazer quando chegar na posição dele’”. Hoje, Santoro lidera muitas pessoas em diferentes organizações. “Tenho a clara percepção de que eu já fui liderado e me esforço para ser o melhor líder possível”, resume.
O desafio da mudança
Em uma ocasião, Santoro ouviu de um sensei que ‘a tua melhor qualidade pode ser o teu pior defeito, depende da circunstância’. Com esse ensinamento em mente, o gestor se propôs a um novo desafio: “quero me engajar na mudança do modelo mental da sociedade gaúcha”, afirma. Na visão de Santoro, o Rio Grande do Sul é um Estado que teve muitas glórias no passado e, com isso, conquistou credibilidade, espírito aguerrido e um povo politizado. No entanto, as vantagens competitivas que trouxeram grandeza ao Estado, provavelmente não serão as mesmas que o levarão ao sucesso. “Não devemos abandonar nossas referências, mas precisamos parar de viver do passado e começar a viver no presente e para o futuro”, enfatiza.
“O mundo está mudando constantemente, por isso, precisamos desenvolver nossas competências para buscar novos desafios”, diz. Para Santoro, as conquistas do passado são um ativo, mas podem ser um problema. “Precisamos começar a mudar nossa conduta a partir de nós mesmos, a partir da atitude de cada indivíduo e a partir da ação das organizações. É importante que as entidades apontem soluções e façam um movimento de aglutinação e não de competição entre si, independentemente de bandeira, em prol do desenvolvimento do Rio Grande”, enfatiza.
Considerando-se um cidadão do mundo, Santoro conhece muitos lugares dentro e fora do país, mas sempre volta para Porto Alegre. “Eu elegi o Rio Grande como minha casa”, confessa. E seu próximo desafio é ajudar a colocar o Estado em outro patamar de crescimento, de desenvolvimento e de educação.

