Um fotógrafo que curte tanto o que faz que, quando não está fotografando profissionalmente, está com uma câmera na mão, em busca da melhor foto. Assim é Luiz Ávila. Porto-alegrense, 56 anos, quase 40 de profissão. “Tenho necessidade de pegar a câmera e sair para fotografar. Ando pelo Centro, pelos bairros. Sempre descubro fotos novas. Quando termino um trabalho, saio para fotografar por paixão”, revela.
Filho da dona de casa Yeda da Silva de Ávila e do motorista Carlos Nunes de Ávila, filho do meio de três irmãos, Luiz Antônio Silva de Ávila nasceu em 13 de dezembro de 1955. “Dia 13, dia de Santo Antônio, tinha que ter Antônio no nome”, complementa. A mãe ainda mora na casa no Bairro Nonoai, na Zona Sul, onde Luiz nasceu e cresceu. O pai, já falecido, foi proprietário de um dos primeiros carros de praça do Bairro Teresópolis, na Praça Guia Lopes. “Foi uma infância austera, mas legal”, recorda.
O início como entregador
Luiz estudava no Colégio Cruzeiro do Sul. A bolsa de estudos na escola particular ajudou na boa educação. Em dezembro de 1970, quando completou 15 anos, aproveitou o período de férias escolares para trabalhar. O primeiro emprego foi no Jornal do Comércio, como entregador de jornal. A jornada não era fácil. Para distribuir os 150 exemplares do jornal, saía de casa por volta das 3 horas, chegava uma hora depois na Avenida João Pessoa, pegava os jornais na expedição, um ônibus para o Centro e outro para a Zona Norte. Depois de praticamente atravessar a cidade, Luiz distribuía o Jornal do Comércio pela Avenida Assis Brasil e transversais, da Metalúrgica Figueiras (onde hoje é o Bourbon Assis Brasil) até a Metalúrgica Wallig (onde hoje está sendo construído o Bourbon Shopping Wallig).
Em março de 1971, por intermédio de uma tia que frequentava a mesma igreja que Zaida Jarros, uma das fundadoras do Jornal do Comércio, ele conseguiu ocupar a vaga de contínuo. Assim, estudava pela manhã e trabalhava à tarde. Alguns meses depois, soube que estavam precisando de um “faz tudo” na Fotografia. Um dia, Ronny Blas, que era chefe do setor, perguntou: ‘Não queres aprender uma profissão, guri?’. Assim Luiz encontrou uma profissão, meio por acaso.
Mas, o que era aprender a profissão? Inicialmente, era cuidar do laboratório, mantê-lo limpo e diluir os químicos do revelador e do fixador. Depois, revelar filmes. Enquanto Luiz aprendia a profissão, nas horas vagas, ia para dentro do laboratório, pegava um filme qualquer e brincava de ampliar foto. Daí para fotografar foi um passo. “Como não havia curso de fotografia, conversava com os fotógrafos, lia sobre fotografia e, sempre que possível, pegava uma máquina e fotografava”, conta.
Um novo ciclo
Aos 18 anos, já com o registro de jornalista profissional, Luiz pediu demissão do Jornal do Comércio, deixando o então chefe Ronny Blas muito bravo. Em um mesmo dia, foi ao Diário de Notícias e ao Correio do Povo em busca de uma nova oportunidade. Ali, descobriu que tinha uma vaga na Zero Hora. Foi direto para a Avenida Ipiranga, onde falou com Telmo Curcio, chefe da Fotografia. Assim ele ingressou no jornal. “Entre idas e vindas, foram 20 anos de Zero Hora”, recorda. Em sua última passagem pelo veículo, foi editor de Fotografia.
No Rio de Janeiro, Luiz Ávila trabalhou no O Globo, como fotógrafo e subeditor. No O Dia, foi convidado pelo gaúcho Jurandir Silveira para fazer parte da equipe de fotografia que se adaptava à nova realidade do veículo, que passava por uma reformulação gráfica, com impressão colorida. “A gente não podia mais fotografar a morte de forma ostensiva. Um cadáver no chão, cheio de sangue, em PB é uma coisa. Colorido, o sangue vermelho fica vivo”, exemplifica.
De volta a Porto Alegre, trabalhou por quatro anos na Assembleia Legislativa. “Foi um dos melhores períodos da Casa. Éramos nove fotógrafos e havia uma competitividade muito boa entre nós. Sempre um tentando fazer uma foto melhor que o outro”, lembra. Nesse período, retornou ao Jornal do Comércio como editor de Fotografia. Também fez campanhas políticas, capas de CD de música regional gaúcha e muitos trabalhos como freelancer.
Um registro histórico
Do tempo em que trabalhou na Zero Hora, Luiz recorda um fato marcante em sua carreira. Em 1984, ele e o jornalista Danilo Ucha acompanharam o retorno do senador uruguaio Wilson Ferreira Aldunate do exílio em Buenos Aires. A bordo do Vapor de la Carrera, cruzaram o Rio da Prata e entraram em Montevidéu. No barco, estavam vários políticos do Partido Blanco, jornalistas e fotógrafos uruguaios. Eles eram os únicos estrangeiros. Uma operação de guerra foi montada para impedir o contato de Aldunate com a multidão que o aguardava. O senador foi preso e impedido de participar da campanha eleitoral que restabeleceu a democracia no Uruguai. Poucos anos depois, Aldunate morreu, sem poder concorrer novamente. O episódio acabou tornando-se emblemático para a história política uruguaia.
Os fotógrafos uruguaios que estavam no barco também foram presos. Antes, passaram os filmes para Luiz. Quando liberado pelos militares, ele levou os filmes de cada fotógrafo para as redações e foi para o hotel revelar seu próprio filme e enviar uma telefoto para a Zero Hora. O material nunca foi publicado. Porém, há quatro anos, durante o 1º Encontro das Cidades Integradas do Mercosul, realizado pela Associação Brasileira de Municípios, em Santa Maria, ele conheceu o então deputado uruguaio Sérgio Botana, do Partido Blanco. Ao comentar o episódio do senador Aldunate, uma forte amizade começou. “Ele chorou na minha frente de emoção”, conta.
Quando Botana se candidatou a intendente de Cerro Largo, no Uruguai, convidou o fotógrafo para passar uns dias na Capital, Melo. “Fui na Zero Hora e, com a autorização do Ricardo Chaves, o Kadão, e do Ricardo Stefanelli, levei 50 fotos do episódio do Aldunate”, lembra. As imagens, inéditas no Uruguai, foram utilizadas durante a campanha eleitoral de Botana e pela imprensa de Melo. “Botana foi eleito e ficamos amigos. Um assessor dele tem casa em Cabo Polônio e vou ficar lá uns dias. Vou aproveitar e fotografar já pensando em um novo projeto”, revela.
Fotografia como arte
Atualmente, Luiz trabalha com fotojornalismo como freelancer, desenvolve projetos de fotografia através da produtora de vídeo Cena 1, mas, seu entusiasmo aparece mesmo quando ele fala em seu projeto de fine art photography. “Estou preparando um banco de imagens. São fotografias conceituais, voltadas para a arte, com qualidade e reconhecimento”, explica.
A ideia é criar uma galeria virtual com algumas peças impressas em papel especial, com qualidade museológica e tratamento especial. No banco de imagens, já constam registros da Amazônia e do Nordeste brasileiro. Cabo Polônio está nos planos para janeiro de 2012. Para o futuro, estão Ilha de Páscoa, Machu Picchu, Deserto do Atacama. “Não quero apenas fotografar. Quero me tornar nativo desses lugares, conviver com as pessoas, conhecer a realidade e, aí sim, fotografar”, anima-se.
“A fotografia é composição. Perceber os elementos disponíveis no momento e compor com eles a melhor imagem. Para isso, é preciso ter conhecimento técnico e cultural, inteirar-se dos fatos e transmiti-los para a foto”, ensina. Nesse momento, ele lembra o fotógrafo Ronny Blas como seu mentor. “Ele foi uma referência profissional e pessoal, pois perdi o meu pai na mesma época em que comecei a trabalhar com ele. Ele me adotou. Ele me ensinou muito sobre o conceito de fotografia em uma época na qual tínhamos que fazer o mínimo para conseguir o máximo”, recorda.
Fotógrafo do despercebido
Luiz Ávila confessa que gosta mesmo de fotografar pessoas, expressões e detalhes. Ele conta que anda pelas ruas procurando pequenos detalhes que passam despercebidos pela maioria das pessoas. “Gosto muito de surpreender as pessoas com fotos que elas, em um primeiro momento, não identificam onde ou o que é”, conta. “Gosto de buscar esse olhar, que não é o olhar do cotidiano”.
Sendo um apaixonado pela foto como arte, ele não deixa escapar uma crítica à popularização e à banalização da fotografia digital. “Hoje, qualquer pessoa tem uma câmera. Um assessor de imprensa, por exemplo, faz o registro de um evento. Por uma questão de mercado, de preservar seu emprego, essa pessoa não se preocupa em tirar o trabalho de um profissional, que é o fotógrafo”, indigna-se. Ele também lembra que as agências de notícias estão aviltando o mercado ao deixar de contratar freelancers e manter uma relação de colaboradores que vendem suas imagens por preços irrisórios. “Na ânsia de estar no mercado, de mostrar seu trabalho, os próprios fotógrafos estão estragando o mercado”, afirma.
No futuro, fotografia
Luiz Ávila não se considera um profissional realizado. “Na medida em que o tempo vai passando, vou adquirindo mais conhecimento e vou tendo mais vontade de fotografar”, explica. Ele já fez muita coisa ao longo da sua trajetória profissional: visita do Papa João Paulo II a Porto Alegre, Copa do Mundo da Argentina, Fórmula 1, vitória do Grêmio no Japão, comício das Diretas Já no Paço Municipal, votação no Congresso Nacional que deu abertura política ao país, só para citar alguns momentos.
Separado há 15 anos, na época, Luiz ficou com os três filhos adolescentes Bianca, Bernardo e Luara. “De uma hora para outra me deparei com uma realidade como comprar calcinha de algodão ou absorvente com aba. Tive que ser o bom e ser o mau. Foi complicado, mas foi uma opção minha e não me arrependo”, fala, sorrindo. Hoje, dedica-se também aos três netos: Júlia, 14 anos, Luize, 11, e Vitor, três. Não teve tempo para estudar, mas, em 2012 ou em 2013, vai fazer vestibular para Arquitetura, que “tem tudo a ver com fotografia”.

