O interesse pelo Jornalismo foi despertado em meio a um comício do Movimento Diretas Já, em 1983, durante uma viagem de moto no Rio de Janeiro, que deu a si própria após a aprovação no vestibular. De volta ao Estado, a Câmara de Vereadores de Pelotas foi o primeiro destino como repórter. Coincidência ou não, teve a trajetória traçada desde o princípio junto à política. Natural “do” Herval, como se refere à cidade de nascimento, Maria Acívia Gonçalves da Silveira, ou, simplesmente, Civa Silveira – apelido que ganhou da mãe logo que nasceu – chegou a cursar técnico em agropecuária, pensou em fazer Medicina Veterinária, prestou vestibular para Direito, mas foi no Jornalismo que encontrou a verdadeira vocação. Há 18 anos na Comunicação, a atual diretora da TV Assembleia revela-se feliz na profissão e garante que, apesar de ter migrado para a gestão, ainda vive o dia a dia da reportagem.
Com passagens pela rádio Universidade AM, Unisinos FM, Gaúcha, Band AM e BandNews, atuações junto ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Prefeitura de Guaíba e Governo do Estado, num balanço da carreira, aos 49 anos, Civa considera-se uma pessoa realizada pelas provações, pelos desejos e missões concretizados. Foi assim com as decisões de vir para Porto Alegre, de trabalhar na Unisinos FM, de atuar no jornalismo político e de partir do veículo de comunicação para a assessoria de imprensa. Diferentes opções, mas sempre realizações. Esse é o patrimônio que leva e, para ela, o mais valioso.
Na casa do povo
Palácio Piratini, Assembleia Legislativa e o Judiciário foram por bastante tempo ambientes de cobertura da Civa repórter, até que um convite de Marcelo Villas-Bôas, em 2004, a levou à assessoria de imprensa do PTB. A sondagem durou um certo tempo até que a proposta foi formalizada pela bancada. Temendo que boatos pudessem se formar, associando seu nome a um partido, a primeira atitude foi correr à redação da Gaúcha para conversar com o coordenador Armindo Antônio Ranzolin. Frente à impossibilidade da emissora de cobrir a oferta, assumiu o desafio, atuando no período de campanha e no pleito que elegeu José Fogaça e Eliseu Santos à Prefeitura de Porto Alegre. A saída do veículo foi marcada por uma confraternização promovida pelos colegas.
Partiu também de Marcelo, atual superintendente de Comunicação da Assembleia, o seu ingresso no mundo da televisão, quando assumiu pela primeira vez, em 2005, a direção da TV Assembleia. Na época, sem qualquer experiência em televisão, ainda ressaltou que seu negócio era rádio. A resposta de Marcelo, segundo ela, foi: “Eu não preciso de experiência, preciso de um jornalista”. Missão aceita, ajudou a implantar o sistema de transparência, pôde conhecer mais sobre o serviço público e, mais tarde, passou a coordenar a rádio do parlamento gaúcho.
Atualmente, em sua segunda passagem pela Casa, foi incumbida de levar a emissora do Legislativo para o canal aberto em formato digital, dando continuidade ao trabalho desenvolvido por Carmem Crochemore. “Isso vai colaborar para o fortalecimento da democracia de uma forma que a gente não consegue mensurar”, explica, ressaltando que o sentimento é semelhante ao que teve quando presenciou o comício do Movimento Diretas Já, na década de 1980.
Pelas ondas do rádio
A primeira experiência em rádio foi na emissora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), onde iniciou o curso de Jornalismo. Num fusca branco, munido de radiotransmissor, fazendo as vezes de unidade móvel, ela realizava a reportagem para o programa Quarto Poder, do jornalista Sérgio Siqueira. “Colocava um entrevistado de cada lado, dentro do fusca, e fazia um debate dentro do carro. Assim, o apresentador também podia participar, porque era ouvido pela rádio”, lembra. Antes, atuou na área de Marketing de uma escola de inglês e em um estúdio de gravação. Foi lá que conheceu Sérgio Siqueira, então coordenador de Comunicação da UCPel, e recebeu o convite para atuar na emissora.
Mais tarde, decidiu que partiria para Porto Alegre, mas, sem nada concreto para fazer na Capital, passou o período de férias da faculdade no Litoral, onde trabalhou em dois jornais. No retorno, um outdoor de beira de estrada que divulgava a rádio Unisinos FM chamou sua atenção pela criatividade e a fez constatar: “quero trabalhar nesse lugar”. Entrou em contato e foi conversar com o diretor Paulo Torino, mas a única vaga disponível era para estágio. A solução para o impasse foi pedir a transferência da faculdade.
Na emissora, implantou a cobertura cultural e permaneceu por cerca de dois anos até que, por indicação de Silvana Pires, hoje editora da Agência RBS, foi chamada pela rádio Gaúcha para atuar como frila, no Vale dos Sinos. Três meses depois, foi contratada pela emissora, para atuar com política. Ainda viveu incursões a outras áreas do Jornalismo, para, mais tarde, retornar ao rádio, como coordenadora da Band AM e BandNews FM, atividade que exerceu por um ano e meio.
Uma vez repórter…
Na carreira, algumas pautas deixaram marcas pelo cunho histórico, inusitado, curioso ou emocional. Em uma delas, Civa cobriu simultaneamente os velórios de Zaida Jarros e do historiador Décio Freitas. Passou a tarde alternando-se entre dois ambientes da Assembleia Legislativa nos quais aconteciam as cerimônias, colhendo informações e as transmitindo nos programas de Ruy Carlos Ostermann e Lasier Martins. A cobertura das negociações relativas ao apoio de Leonel Brizola ao então candidato a governador Antônio Brito, assim como as matérias sobre a morte do político, também faz parte dessa lista.
Em outra ocasião, na Band, produziu uma matéria sobre Aids, que tinha, entre os personagens, uma ex-cozinheira de um restaurante, que havia sido demitida em razão de ser portadora da doença. “Fiz algo que não se faz. Me envolvi com a fonte e ela acabou fazendo faxina na minha casa”, revela. Sentia que precisava fazer alguma coisa e, naquele momento, o trabalho na própria casa foi uma maneira que conseguiu para auxiliar.
Certa vez, já como assessora de imprensa na prefeitura de Guaíba, assistiu a uma apresentação de um jovem bailarino. O talento de Alex Barbosa, 11 anos, de família pobre, a encantou e a fez perceber ali uma pauta. A reportagem, feita por Filipe Peixoto, para a Band, oportunizou ao menino realizar um teste do Ballet Bolshoi, em Joinville, onde hoje estuda com o auxílio de um patrocínio obtido após a matéria. O episódio é recordado com carinho: “Mostra que o teu conhecimento pode abrir portas para que o talento de alguém possa ter continuidade.”
Fã das artes e da aventura
De família simples, Civa é filha do comissário de Polícia Urcil Souza da Silveira, falecido em 1978, e da aposentada Edelma das Neves Gonçalves. Irmãos, tem apenas por parte de pai e vivem no Rio de Janeiro. Aos 74 anos, a mãe ainda mantém em Herval um trailer lanches. O espírito sempre ativo é motivo de orgulho e um exemplo que Civa busca seguir. Vem da mesma pessoa o ato que ela tem como o seu maior elogio. É quando ao caminharem de braços dados, ouve: “Minha filha é jornalista”.
Da infância, recorda um presente que a acompanhou por muitos anos. Tratava-se de um pequeno rádio cor de rosa, a pilha, que acomodava embaixo do travesseiro e dormia ouvindo as emissoras da fronteira. Desde criança, já demonstrava admiração pelo meio de comunicação, até o chiado da frequência mal sintonizada lhe era agradável.
Os momentos de folga costumam ser recheados com viagens, idas ao teatro – de todas as artes, a que mais admira – e leituras de diferentes gêneros, mas especialmente da área política e cultural. O cinema brasileiro, assim como os jornalísticos da televisão também são atividades de lazer. “Não sou de levar uma pilha de filmes para casa, simplesmente assisto aos noticiários”, explica.
Solteira, tem nos planos uma excursão de moto à Terra do Fogo, à Patagônia. Pelo caminho, quer conhecer novos lugares e escrever sobre eles, ao estilo motorreportagem. Avessa à ideia do jornalismo produzido quase que unicamente dentro das redações, acredita na mobilidade do veículo como uma opção futura. Afinal, “repórter tem que interagir, tem que estar nas ruas”, ressalta.
Sou assim
Civa confessa que é, muitas vezes, impaciente e intolerante. E, nesse aspecto, se considera uma pessoa “irrecuperável”. Se algo não está bom no estúdio, por exemplo, a luz do entrevistado está comprometida, precisa que a equipe constate e busque uma solução ao problema. “Não gosto de amarração, enrolação, gosto de iniciativa”, frisa.
Qualidades da jornalista, a persistência, insistência e dedicação às vezes trabalham contra ela. “Sou muito chata quando ponho alguma coisa na minha cabeça”, explica. O envolvimento é tanto que se sente que o objetivo não vai ser atingido, chega a ficar doente, sofrendo de gastrite, enxaqueca, entre outros males. “Não sou uma pessoa organizada, mas quando se trata de planejamento é como uma missão e eu tenho que cumprir”, enfatiza.

