Por Márcia Farias
Silvio Calissi é natural de Bebedouro, interior de São Paulo, mas já consegue se sentir gaúcho. O diretor de Mídia e Atendimento da DM9Sul conta que não teve nenhuma dificuldade em se adaptar ao Sul do País e que respeita muito esta cultura. Com uma vontade sem fim de fazer sempre mais, o publicitário de 48 anos, que está há um ano em Porto Alegre, pode ser considerado um homem inquieto. É uma característica que se ressalta no aparentemente incansável movimento das pernas e nas gesticulações que acompanham suas explanações.
Foi por amor ao cinema que Silvio decidiu cursar Publicidade, formando-se em 1988, na Universidade Paulista (Unip). Trabalhar no setor de RTVC era o primeiro plano, mas, com dificuldades de colocação na área, aceitou a primeira oportunidade de atuar em uma agência, no setor de Mídia. E a atividade nunca mais saiu da vida do profissional, que soma 25 anos e passagens pelas agências DM9, DPZ, Leo Burnet e Loducca. “Trabalhar com nomes como Marcelo Serpa, Nizan Guanaes, Alexandre Gama, entre outros, me fez ver que eu estava ao lado de grandes feras da publicidade e que precisava aprender tudo que pudesse.”
Aprendizado. Talvez essa tenha sido a meta alcançada por Silvio no início da carreira. Cita diversas vezes o nome do seu chefe dos tempos de DM9, Paulo Queiroz. A admiração é tanta que chega a declarar: “Se eu fosse 10% do que vejo nele, seria mais feliz. É minha grande inspiração”. Pessoas como Queiroz ensinaram ao diretor que “Mídia não é pegar uma tabela e fazer um ‘xizinho’”, é ver o que está por trás do que o cliente pediu, exercitar outros sentidos no trabalho. Como nem só de rosas vive um publicitário, foi também uma crítica que o despertou para o mercado. “Uma vez, eu e minha equipe cometemos um erro e fomos chamados na sala do Paulo Queiroz. Não lembro exatamente o motivo, mas lembro das palavras firmes e doloridas que ouvi. Depois daquele dia, prometi que nunca mais ouviria aquilo de alguém, que o meu trabalho seria tão bem feito, que não daria margem para críticas como aquelas”, lembra.
Mente (muito) inquieta
Definitivamente, Silvio não gosta de acomodação e, se tem algo que o deixa preocupado – mais do que é normalmente – e até nervoso, é sentir que está na zona de conforto. Mesmo com toda a bagagem adquirida, a característica de buscar desafios não permite que se sinta um profissional realizado. Aliás, bem longe disso. “Tenho muitas coisas para fazer. Apesar dos 25 anos de experiência, tudo muda o tempo todo”, garante. O desejo é mostrado na sua forma de trabalhar, pois ele nunca repete uma fórmula. Se entregou um planejamento estratégico para determinado cliente, aquilo vai servir apenas para ele. A regra é buscar coisas novas.
E por falar em desafios, ele não gosta de destacar nenhum em especial, por um motivo simples: “Acredito que todos os trabalhos são um grande desafio. Por menor que seja, não consigo fazê-lo de forma automática, mesmo que eu saiba como”, diz, ratificando que sempre busca fazer algo melhor, diferente, e que a motivação nem sempre é a dificuldade do trabalho, mas a vontade de fazer sempre mais. Como não poderia ser diferente, o único lema que norteia a profissão é perguntar-se a si mesmo: O que eu posso fazer de melhor?
‘Quero um Leão’
Para um publicitário com tantas inquietações e autoprovocações, ter boas ideias é primordial – e, das tantas que já teve, há uma da qual se orgulha muito. Em 2007, atendia à conta da Henkel, responsável pela marca Super Bonder, e o cliente queria algo grandioso, capaz de surpreender os participantes de uma convenção anual da empresa, da qual participaria a cúpula mundial. “Lembra daquela prova do líder do Big Brother Brasil que, com duas gotas de Super Bonder, os participantes eram colados de ponta-cabeça? A ideia foi minha”, exalta. O resultado do insight foi uma transmissão ao vivo da prova, durante a convenção, o que gerou 11 minutos de exposição da marca em horário nobre.
Os elogios foram inúmeros, a sensação de ter tido uma grande ideia, imensurável. Mas nem tudo isso foi suficiente para trazer a realização de um sonho: “Quero ganhar um Leão em Cannes, mas não pode ser qualquer um, tem que ser de ouro. Quero ganhar com consistência”. O case foi referência mundial em lançamento de campanha, achava que estava com a mão no prêmio, mas não foi daquela vez, e a frustração foi inevitável. “Esse foi um bom momento, achei que tínhamos grandes chances de ganhar Cannes, mas não deu. Fiquei muito frustrado, até por achar as peças que ganharam muito inferiores à nossa”, lamenta.
A primeira calça jeans
Filho temporão (tem mais três irmãs mais velhas) do carpinteiro Osvaldo e da dona de casa Manoela, Silvio define os pais (falecidos) um pouco emocionado: “Um grande homem e uma grande mulher”. A herança deixada por eles foi a perseverança, pois o casal nunca desistiu de nada, mesmo tendo enfrentado as piores dificuldades. Tem poucas lembranças de infância, pois a labuta começou muito cedo, aos 11 anos, e a premissa de trabalhar por uma meta surgiu exatamente nesta idade. Ele explica: “Na primeira festa da escola que fui, vi todos os meninos usando calça jeans, e eu não tinha uma. Pedi para minha mãe, que me explicou que não tinha condições de comprar. Então, falei: vou trabalhar para comprar minha primeira calça jeans”. E foi o que aconteceu. Virou officeboy e comprou a tão desejada roupa já com o primeiro salário.
No momento, também trabalha por uma meta, com nome e sobrenome: Manoela Calissi, a filha de 11 anos. “Se ela puder crescer feliz, sendo uma pessoa boa, querida pelas pessoas, educada e agradável, estou feliz, pois alcancei minha meta.” Casado há 14 anos com a publicitária Alessandra, a quem conheceu no mercado, Silvio conta que o relacionamento começou com “aquelas paquerinhas de telefone”. “Desde o dia em que saímos pela primeira vez nunca mais nos desgrudamos”, recorda, para completar definindo a esposa como companheira. A premissa de Alessandra, segundo conta, sempre foi a mesma: “Estou contigo, onde quer que estejas”, conta, explicando que teve o apoio da esposa em todas as decisões tomadas na carreira.
A igualdade no nome da filha e da avó paterna não resulta de alguma homenagem. Pelo menos não de forma intencional. Quando Alessandra engravidou, a combinação do casal era que ela escolheria o nome de uma menina e, em caso de ser um menino, o privilégio ficaria com Silvio. Quando questionou a esposa sobre a escolha, ela disse: Manoela. O publicitário nunca foi de falar sobre a família, em função da saudade que sentia dos pais, já falecidos na época. Quando ouviu Alessandra, perguntou o motivo e ainda indagou se ela havia conversado com as irmãs dele. Com a negativa, ele revelou que este era o nome da mãe. E a conclusão do casal foi a mesma: uma emocionante coincidência.
O que gosta e acredita
Palmeirense convicto, Silvio conta que acompanha o time de longe, mas que, no próximo ano, estará mais perto. “Nem que precise comprar passagem para assistir ao jogo e voltar no mesmo dia”, garante. No Sul, torce pelo Grêmio, por ter simpatia pelo clube, especialmente pela admiração pelo técnico Felipão, mesmo responsabilizando-o por ter levado seu clube para a Série B. Na culinária, a origem italiana é ressaltada: massa, massa e massa. “Cresci com esse hábito alimentar, de comidas mais simples”, explica.
A leitura está sempre presente em sua vida, mas passa longe dos livros. Confessa que folhear obras não é algo que lhe dê prazer, prefere as revistas e os artigos na web. “O único livro que leio com mais frequência é a Bíblia”, diz o publicitário, que se considera cristão, não católico. “Hoje, sigo as minhas próprias crenças, a minha verdade, mas resolvi acreditar no ‘barba’ (como chama Jesus Cristo). É como se fosse o presidente, e tivesse deixado o secretariado de lado”, compara.
Quando se fala em música, a resposta chega rapidamente: rock’n roll. A banda favorita é U2, mas admira muitas outras como Led Zeppelin, Strokes, Elvis Presley, Beatles, Oasis, Nirvana, Metallica e Coldplay, entre outros. A paixão pelo Cinema já diminuiu bastante, mas conta que gosta muito dos filmes do Woody Allen, pois acha que há uma maneira certa de assistir ao que ele faz. E sobre obras, tem duas dos quais guarda com carinho: ‘Sonho de liberdade’, de Frank Darabont, e ‘A procura da Felicidade’, de Gabriel Muccino. “O último que assisti, ‘Intocáveis’, de Eric Toledano, foi o melhor dos últimos cinco anos”, completa.
Sem bah nem tchê
Os períodos de folga e os finais de semana em que fica em Porto Alegre são dedicados a preparar a casa para receber a família, que virá em definitivo para o Sul após o Natal. “Fiz questão de não conhecer ainda a cidade para fazer isso na companhia delas.” Manoela, nas palavras do pai, é uma menina espetacular, que cresce de maneira muito positiva. “Desde pequena, sempre foi muito agradável, nada mimada e que todo mundo gosta de ter por perto”, diz, orgulhoso.
Estar com suas duas mulheres “me revigora para continuar trabalhando. Tenho certeza que, se não fosse por elas, não estaria aqui”, diz, convicto. Assim, não vê a hora de ter a dupla de novo ao seu lado e conta que a filha está muito curiosa com ‘o tal chimarrão’ e já ganhou cuia, bomba e tudo mais. “Vou ter que aprender a fazer para ela”, afirma, revelando que provou, mas não gostou muito do hábito. Aliás, a cultura gaúcha é algo que ele respeita, e muito, conforme explica: “Certos aspectos, típicos da cultura local, tenho mais resistência, por uma questão de respeito. Só tem um ano que estou aqui e começar a falar tu, bah e tchê chega a ser um desrespeito com a cidade”, explica.
Definir quem é Silvio Calissi? Difícil. Após uma longa pausa de silêncio, se qualifica como fiel a tudo e a todos e, ao mesmo tempo, “um cara chato”. Mais do que isso, a autodefinição é referente a tudo que ele contou: “Acho que sou persistente, raçudo, casca-grossa”.

