Perfil

Mathias Cramer : Solitário produtor

Com mais de três décadas dedicadas à fotografia, Mathias Cramer molda sua carreira atento às atualizações de mercado e com pés no chão

Por Karine Viana

Atenção aos detalhes, perfeccionismo, dedicação, organização, crítica e pés no chão. Está certo quem atribui estas características ao signo de Virgem, perfeitamente encaixadas no perfil do fotógrafo Mathias Cramer, nascido sob o sexto signo do zodíaco em 23 de agosto de 1960, na capital gaúcha. “Dizem que sou um virginiano dos clássicos”, afirma, se antecipando em justificar grande parte das suas atitudes, manias e o modo como leva a vida.

Na certidão o nome é Mathias Felipe Cramer, mas, como marca, utiliza o primeiro e o último nome. Ao longo da carreira, foi responsável pela assinatura de fotografias em diferentes áreas, de imagens corporativas a apresentações artísticas. Sempre atendendo a necessidades de clientes distintos, enquanto também se dedicava a algum trabalho autoral. Embora não se imagine em uma profissão diferente, o fotógrafo chegou a cursar os primeiros semestres do curso de Arquitetura, na Ufrgs. “Fiz dois anos de arquitetura para descobrir que não era de construção, propriamente, que eu gostava, nem de tijolo, concreto ou cimento, mas da parte gráfica”, lembra. Foi analisando as grades curriculares da universidade que Mathias percebeu ter encontrado aquilo que, mesmo implicitamente, vinha procurando: ‘Comunicação Social: Jornalismo Gráfico e Audiovisual’, com destaque às duas últimas palavras.

O novo ambiente acadêmico que encontrara no início dos anos 80 não foi aleatório. Traços ainda da infância davam conta da aptidão do então aspirante às artes gráficas. “Sempre gostei muito de papel. Relaciono muito recortar e dobrar a atividades da infância, e isso me remetia à coisa gráfica”, lembra. Aos domingos, o pai de Mathias, Victor Cramer, costumava realizar caminhadas com a família. O grupo que saía às ruas de Porto Alegre era grande, formado pelo casal Cramer e nove filhos. Foi em um destes passeios dominicais que Mathias se deparou com uma caixa de papelão aberta, na saída de uma gráfica. A situação, aparentemente simples, aparece nitidamente nas lembranças do fotógrafo. “Pra uma criança era pensar como a geometria da caixa se fazia. Por esta coisa gráfica do desenho me identifiquei muito, inicialmente, com a arquitetura, mais pelo desenho gráfico, réguas, quadros e geometria”, rememora.

Ainda no primeiro semestre de Jornalismo, após uma espécie de crise enfrentada tão logo abandonou a arquitetura, cuja procura era grande na época, Mathias teve a oportunidade de participar de um curso de fotografia. Em uma das aulas, o fotógrafo Daniel de Andrade avaliou um material realizado como atividade do curso e disse: “Você é o fotógrafo do grupo”. A afirmação serviu como impulso para a carreira: estava sendo dada a largada de Mathias Cramer, fotógrafo.

Os primeiros trabalhos

Inserido nos movimentos católicos quando jovem, Mathias viu neste ambiente a primeira oportunidade de, como costuma dizer, “trocar trabalho por dinheiro”. Frequentemente os grupos se reuniam em retiros religiosos, cujas atividades eram registradas em fotografias. As primeiras fotos que vendeu foram estas de retiro. Ia até a administração, verificava quem ia participar e contatava para fazer a foto. Simples assim. Outra boa experiência no início da carreira também surgiu através de contatos. Carmem, a primeira esposa, era diretora de um grupo de dança em Porto Alegre, o que o levou a fotografar os balés, principalmente os espetáculos de final de ano.

No ambiente corporativo, no entanto, o ingresso foi um pouco diferente. Enquanto organizava uma exposição de fotografias autorais no bar Sacristia, na Capital, alguém se aproximou e perguntou: “Você é fotógrafo?”. Pego de surpresa, Mathias relutou um pouco e, sem permitir se autointitular fotógrafo, respondeu: “Trabalho com fotografia”. O contato resultou num trabalho gratificante para ele e rendeu uma parceria de vários anos. “Foi meu primeiro cliente e um trabalho que eu adorava. Foi minha primeira grande escola”, afirma.

Tempo Real

Os trabalhos foram surgindo sempre através de redes de relacionamento e indicações. Na necessidade de criar uma marca que não contasse apenas com seu nome, como era comum com outros colegas, criou a Tempo Real, ainda na primeira metade da década de 80. “Sou eu e meu trabalho”, salienta, ao falar da individualidade no trabalho e lembrar da influência positiva de se contar com uma marca e um conceito, o que aprendeu ao longo do trabalho. “Isto eu aprendi muito trabalhando com as empresas também, querendo imitar, mesmo que no meu tamanho.”

Crítico, ou ‘cri-cri’, como se autodenomina, Mathias prefere trabalhar de forma mais solitária. “Eu me acho muito chato, gosto de qualidade”, revela. No entanto, ressalva que sua dificuldade é interagir com outras pessoas, uma vez que é extremamente crítico com o próprio trabalho. “Não há trabalho em que saia extremamente satisfeito”, garante. Diante disso, as parcerias para determinados tipos de jornadas, quando necessárias, são filtradas. É o próprio fotógrafo que se divide entre captação de imagens, atendimento ao cliente, orçamentos e marketing.

O site da empresa, lançado em 2003, servia, além de portal online, também para abrigar o que Mathias produziu em duas décadas. Tudo foi minimamente catalogado por clientes e eventos, como todo típico virginiano gosta. O trabalho foi árduo e durou cerca de oito meses, mas recebeu, em 2004, o Prêmio Aberje na categoria Internet, num momento de ascensão do ambiente virtual no país. “Foi algo feito com uma miniequipe, pouca grana e muito trabalho”, diz. Hoje, o site passa por mudanças periódicas de design, mas tem seu próprio tamanho.

Pés no chão

Mathias tem a convicção do que é o seu produto. Por isso, se diz “não escravo de conteúdo e atualização”, se referindo ao teor do portal na internet. “Não sou vendedor de anúncio de banner, mas de fotografias”, ressalta. Isto também tem relação com o que aprendeu com um dos irmãos, de que é preciso descobrir seu próprio tamanho. “Isso é muito importante. Não é pensar pequeno, mas na medida”, ensina. Assim, mostra que carrega mais um dos traços típicos do seu signo solar, completando: não dá pra gastar mais do que ganha, ficar frustrado com algo que não será viável.

O gosto pela fotografia documental é visível, mas as experiências de Mathias demonstraram que nem sempre o que “era bom para o ego” trazia retorno financeiro. Das fotografias de danças surgiu uma seleção de imagens que resultou numa exposição intitulada ‘Instantes Mutantes’. A ação funcionou muito bem como desafio, no entanto, teve aí “um desastre financeiro”. “Apenas a beleza não me serve. O que tu ganhas com isto?”, afirma, ao se referir à questão financeira. Outra experiência veio com a biografia de um pintor, Dimitrios Anagnostopoulos. O trabalho angariou prêmios, mas, uma vez mais, sobraram contas para pagar. Hoje, o fotógrafo prefere trabalhos rápidos, com rápida resolução, a longos projetos.

Legados de família

Após dois casamentos, ambos sem filhos, assunto que não costuma comentar, Mathias reside sozinho. “Sou individual”, diz. Sua rotina se divide entre a companhia da música, principalmente a erudita, que lhe remete a lembranças da infância, o trabalho, o qual denomina como diversão, e visitas periódicas a sua mãe, Dona Emília, que completou 89 anos recentemente. O pai faleceu ainda em 2003, aos 87 anos, mas, como legado, deixou bons ensinamentos ao filho Mathias.

Comerciário, o velho Victor costumava tirar algumas fotos comedidamente. Era um fotógrafo de pouca atividade, mas “tinha um bom olhar”, como assegura Mathias: “Quando ele via uma cena, entendia se aquilo poderia ou não resultar numa boa foto”. Foi nesta época que o fotógrafo passou a brincar de registrar imagens, atividade que, segundo reza a lenda, teria sido realizada pelo bisavô, embora sem referências concretas.

Não foi apenas o gosto pela imagem fotográfica que passou de pai para filho. Os ensinamentos foram além da parte técnica, mas para uma visão idealizada de mundo. “Do meu pai herdei muito o valor do correto, do certo, da honestidade, do comunitário e do pensar no outro”, diz, salientando que atualmente se vive numa sociedade egoísta. “Hoje a gente não vive numa sociedade em que um pensa no outro. É um jogo de perde e perde para todos. Se todos pensassem no outro, haveria milhões de pessoas pensando em ti e milhões de pessoas pensando em mim.”

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Karine Viana

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