Por Vanessa Bueno – 07/06/2013
“Como foi que eu aceitei te dar uma entrevista?", diz em tom de brincadeira a gerente executiva da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, Lucia Ritzel. O fato a coloca facilmente no grupo de jornalistas que têm dificuldade de estar no papel de fonte. Nada difícil de entender, se observada sua trajetória de 20 anos como repórter.
De Santa Maria, chegou a Porto Alegre para trabalhar na editoria de economia do jornal Zero Hora, do Grupo RBS, com 27 anos e nunca mais deixou a empresa. Aos 47, está à frente da FMSS, entidade vinculada ao grupo empresarial, onde tem a missão de transformar o modelo de Responsabilidade Social praticado pela empresa. Sua satisfação em desenvolver o trabalho fica nítida quando começa a detalhar as ações já realizadas e o que ainda está por vir. “Estou cheia de projetos. Queria que o ano fosse um pouco maior para dar tempo de fazer tudo em 2013“, desabafa.
O desejo também se refere a sua vida pessoal. “Gostaria de ter mais tempo para fazer ginástica, ir mais ao cinema, ficar mais com minha família, meus cachorros, todas essas coisas, mas nem sempre dá”, diz, deixando claro que isso não chega a ser um problema. “Sou dos que acreditam que quanto mais coisas a pessoa tem para fazer, mais tempo ela acha."
A rotina intensa inclui encontros aos sábados, no bar Ocidente, há oito anos, para almoçar com os amigos. Neste dia só não comparece quando vai visitar a família em Santa Maria, cidade onde morou dos três aos 27 anos. É uma confraria? “Nunca chamamos assim, mas poderia ser”, avalia, explicando que toda semana reúnem-se cerca de 10 a 12 pessoas. Lá, falam sobre o que aconteceu no mundo, na vida de cada um… “É muito bom. Ajuda a refletir sobre nossas escolhas.”
Quando ela precisa decidir algo, ou pensar em como resolver um problema, também gosta de sair para caminhar, ou dirigir. Caminha com os cachorros? “Não, eles não sabem se comportar”, brinca, para explicar que com cinco cachorros fica meio difícil de sair para passear. O tempo com Anita, Mariazinha, Candoca Santiago, Tininha e Pretinho, os cachorros, é desfrutado em casa, onde Lucia gosta bastante de estar assistindo a um filme, ou lendo um livro, tarefas que realiza acompanhada de um bom vinho. As práticas certamente a ajudaram a refletir sobre o rumo de sua carreira, que, desde 2010, está acelerado.
Garota de sorte
Lucia não deixou a redação do jornal direto para o cargo que ocupa hoje, na FMSS. Antes, integrou a Comunicação Corporativa do Grupo RBS, como coordenadora de Comunicação Interna e assessora da Diretoria Executiva. O convite, conforme conta, surgiu por meio de Anik Suzuki, gerente executiva da área, que havia trabalhado com Lucia na Zero Hora. “Quando a convidei para deixar a redação e vir trabalhar comigo e com a direção da empresa, acho que ela se assustou um pouco, mas logo topou o desafio e fez a virada com brilho nos olhos“, destaca Anik, que tem Lucia como referência de qualidade e credibilidade. "É alguém para se ter por perto“, define.
Antes de mudar também conversou com outras pessoas, que deram conselhos diversos. Teve desde os que apoiaram e incentivaram, até os que acharam que era loucura deixar uma carreira consolidada de 17 anos como repórter de economia. “Eu sempre comentava com as pessoas que mudar é bom e nunca tinha mudado. Então pensei: ‘Eu vou, se não gostar, peço para voltar’”, revela. E foi sem se despedir. “Acho que eu tenho muita sorte. Fui trabalhar na Comunicação Corporativa e continuei feliz”, diz, destacando que não deixou a redação por estar insatisfeita, mas para buscar novos desafios.
No novo departamento, Lucia trabalhou no processo de transformação cultural da empresa e viu sua vida ganhar outro ritmo. Mesmo satisfeita com a troca – em nenhum momento pensou em voltar para a redação –, a mudança lhe causou alguns estranhamentos. O ambiente corporativo, se comparado com a redação de um jornal, era, para Lucia, muito silencioso. O consumo de informação também mudou. “Antes eu tinha a obrigação profissional de ler os jornais. Hoje, sou só mais uma leitora”, diz.
Uma leitora nada comum, se levar-se em conta suas declarações: “Não consigo olhar para um fato sem a lente do jornalismo. Nunca vou deixar de ser repórter", acredita. Gosta de pegar o jornal todo o dia e analisar como os jornalistas trabalharam a notícia. “Têm edições de ZH que me deixam feliz de perceber como as pessoas conseguiram fazer algo tão legal.”
Tem que ter diploma
Apaixonada pelo jornalismo “desde o início e para sempre”, Lucia prestou vestibular sem nenhuma dúvida da profissão que queria seguir. Antes, porém, chegou a trabalhar como professora de balé, que ela dançou dos sete aos 17 anos. Quando percebeu que seu futuro não estava na dança, partiu para a opção que lhe parecia mais óbvia, já que sempre gostou muito de história, cinema, leitura e escrita.
Mesmo recém-casada e com um filho de um ano – Lucia foi mãe aos 17 –, ingressou na faculdade de Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e tocou os estudos sem maiores problemas. “Minha vibe era diferente da dos meus colegas, porque eu tinha marido e filho, mas isso nunca representou uma dificuldade para mim”, lembra. Os colegas, segunda ela, gostavam de fazer os trabalhos de grupo em sua casa porque era uma “casa sem pais".
O incentivo veio muito da família. O pai, o militar Alípio dos Santos (já falecido), e a mãe, a dona de casa Elaine Nascimento dos Santos, sempre tiveram como premissa que os filhos estudariam. ”Tem que ter um diploma. Conhecimento ninguém vai te tirar”, dizia o pai. Assim, para conseguir se formar, Lucia contou com a ajuda da mãe e da sogra, que tomavam conta de seu filho Pablo, hoje com 30 anos. Na época se achava madura, muito mais experiente que os colegas, mas, olhando em retrospectiva, confidencia: “Meu Deus, como foi que eu consegui?”.
Controladora assumida
A relação com o filho sempre foi tranquila. “Ele sabia que não podia me pedir coisas de um dia para o outro, porque eu não conseguiria fazer. Tinha que ter um planejamento, mas nos entendíamos”, conta, referindo-se aos tempos agitados de sua vida como repórter. Quando viajava para cobrir alguma pauta, ficava ligando, com perguntas tipo “Estudou? Fez os temas?”. É isso, mesmo de longe, sempre procurou estar presente.
O hábito das conversas telefônicas segue até hoje. Pablo formou-se em Direito, mora em Santa Cruz, solteiro, e até hoje recebe os telefonemas da mãe querendo saber se ele está bem. “Se eu ligo e cai na caixa postal, já fico preocupada. Sou uma mãe controladora”, assume. “Ele mesmo diz isso pra mim”, complementa, e dá de ombros, como quem sabe que não vai mudar. “Somos muito amigos, conversamos sobre tudo, trocamos músicas, mas eu não abro mão do meu papel de mãe, que cuida, que dá bronca”.
Lucia vive a experiência de ser uma mãe muito nova e uma filha temporona. É a última entre quatro irmãos. Nasceu em Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, mas cresceu em Santa Maria, para onde a família se mudou quando ela tinha apenas três anos. Santiago está em sua memória afetiva pelas férias que lá costumava passar ao lado dos tios e primos. Sempre teve uma boa relação com os irmãos Salles Horácio e Maria do Rocio, mas acabou sendo mais próxima de Anna Christina, a irmã que é pouco mais de dois anos mais velha do que ela. As duas dividiam a mesma bicicleta, o mesmo quarto e era de Anna a tarefa de levar a caçula para a escola.
Ela faz bem
Pouco antes de se formar, Lucia conseguiu seu primeiro emprego como repórter no jornal A razão, de Santa Maria. Lá, fazia de tudo um pouco. O que ajudou bastante a entender e acompanhar todo o processo de produção de um jornal. Em seguida, trabalhou como redatora para a Rádio Atlântida, também em Santa Maria, e foi correspondente do jornal Zero Hora na cidade.
Nessa época, começou a viajar para cobrir pautas e suas experiências de quando dançava balé foram úteis. “Acho legal quando os conhecimentos vão se juntando. Quando eu ia para o interior dançar, tinha que lidar com uma série de variáveis inesperadas, o que me ajudou muito no jornalismo depois”, recorda.
A oportunidade em Porto Alegre, na editoria de economia de Zero Hora, surgiu por meio de um curso de jornalismo aplicado, que o jornal oferecia na época. Passou na seleção, realizou o curso e no final foi chamada para uma vaga na economia. "Eu fiquei megafrustrada, em choque mesmo. Trabalhar em economia não era algo que eu tinha em mente", confessa. “Fiz uma entrevista com o Moisés Mendes e o Jorge Correa, editores de economia na época, que tiveram a coragem de me contratar", brinca, para em seguida dizer que se sente privilegiada de ter trabalhado com eles e outros profissionais como Maria Isabel Hammes, colunista de Economia do jornal, e Nilson Souza, editor de Opinião.
“A Lucia veio de Santa Maria com aquela aparente (apenas aparente) timidez interiorana e se revelou uma grande repórter, daquelas que topam qualquer parada, porque se informam sobre tudo da área. Virtude cada vez mais rara”, diz Moisés Mendes, hoje editor especial da Zero Hora. Segundo ele, Lucia é birrenta, no bom sentido, tem uma pegada de trabalho fantástica e, o que mais importa numa área como a economia: não chuta nunca.
Ela conta que costumava ler a Gazeta Mercantil e pensar: “não entendi.” Então decidiu que não escreveria nada que não entendesse e dedicou-se com afinco a aprender. “Não queria passar vergonha. Estava sentada ao lado de gente que sempre admirei. Tinha que fazer direito", diz. Aprendeu tão bem que conquistou inúmeros prêmios nacionais e internacionais com suas matérias, além da fama de resolvê-tudo na redação. “Uma frase que se ouvia muito no meu tempo era: passa para a Lúcia que ela faz e faz bem”, conta Moisés.
O jornalista lembra sempre da colega de profissão nas horas mais difíceis do jornal. “Quando algo muito grandioso caía na economia, ela era que tocava. Como aqueles soldados especialistas em desarmar bombas, sabe?”, compara. Para ele, Lucia tinha e, certamente ainda tem, “uma grande habilidade para destrinchar coisas truncadas”.
Mobilizar para dentro
Desafios também não faltam em sua função como gerente executiva da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, que exerce desde o segundo semestre de 2011, pouco mais de um ano depois de assumir seus cargos na Comunicação Corporativa. Ao lado de Anik, começou a trabalhar no processo de transformação e revitalização da Fundação e acabou assumindo o cargo de gestora. No início, não sabia se ficaria ali: “Eu pensava: passei 17 anos em um lugar só e agora fico pulando de um lugar pro outro. Mas o que que é isso?”.
Na Fundação, viu seus conhecimentos se tornarem valiosos mais uma vez. Como repórter de economia, ela havia feito algumas matérias sobre sustentabilidade, o que a levou a ter contato com o investimento social e seus significados. Frente à organização, trabalha para que a questão não seja dissociada da realidade da empresa. “Queremos que este assunto esteja incorporado na gestão e na operação, que seja um objetivo de todos”, explica, dizendo que, para ela, trabalhar com o tema é uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento incríveis.
Seu desenvolvimento em outras áreas é apoiado e incentivado por pessoas como Nelson Sirotsky, presidente do Conselho Administrativo do Grupo RBS. “Tenho tido excelente experiência com jornalistas deslocados de suas funções de redação para outros desafios. Este é o caso da Lucia: demos a oportunidade, e ela a usou para expandir a sua atuação profissional”, destaca o empresário. Para Nelson, Lucia tem uma visão muito sólida sobre a responsabilidade social das empresas e das pessoas, fato que a levou à Fundação. “É uma grande satisfação ver uma profissional como ela dando uma nova dinâmica ao investimento social da empresa.”
O processo também incluiu mobilizar para dentro, ou seja, envolver os cerca de sete mil profissionais que atuam no Grupo RBS com o tema, tarefa iniciada no segundo semestre de 2012. Com base na nova bandeira do Grupo RBS, “A Educação precisa de repostas” – que já conquistou alguns prêmios por sua abrangência e impacto na mídia e na sociedade, como o Prêmio ARI de Jornalismo -, a FMSS deu início a um programa de voluntariado dentro da RBS.
O projeto ”Dia da educação na Escola” já envolveu cerca de 300 colaboradores do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Trata-se de oficinas realizadas nas escolas, em que os profissionais, de diversas áreas da empresa, falam sobre sua profissão. Lucia e sua equipe trabalham agora na estruturação do programa. “Temos que organizar bem, porque vamos tirar o colaborador da operação durante um período. Isso também é investimento social”, avalia.
A atuação de Lucia se expandiu também para a gestão. Enquanto repórter, ela nunca havia gerenciado pessoas. Encara como um desafio a tarefa de ajudar um profissional a se desenvolver e diz que ainda está aprendendo. “Ela é uma líder que orienta sua equipe, sabe ouvir e se comunicar, além de ser muito participativa”, aponta Cláudia Kruise, secretária da Fundação.
Estar presente
Lucia sempre gostou de aprender. Sempre quis fazer muitas coisas, queria sair para conhecer lugares, as histórias de vida das pessoas. E saiu. Porque é teimosa, porque busca não perder de vista o que é importante para si. “A vida também é aquilo que você faz enquanto faz planos”, acredita.
Sente-se realizada? “Acho que estou muito nova para me sentir realizada”, dispara. “Me sinto aprendendo. Aprendo todos os dias. O que é bom, mas tem um custo. É total zona de desconforto”, diz, e de novo cita a oportunidade de unir suas experiências e conhecimentos. “Gosto muito dessa sorte de poder ir juntando uma coisa na outra. Consigo ver um fio condutor e isso é muito gratificante.”
E o coração? “Estou num momento não apaixonada, mas sem drama também”, diz, explicando que foi casada duas vezes e atualmente está separada. A resposta, como tantas outras durante a entrevista, transparece uma mulher que leva a vida de forma descomplicada e com bom humor. Como consegue isso? “Não me sinto muito sábia para dar conselho, mas acho que temos que estar presente nas nossas vidas, não perder de vista o que é importante para nós. É um exercício diário meu.”

