Com poucos instantes, é possível perceber que existe uma aura de simpatia pelo que vem por aí. Algo de aprazível e que faz com que os ponteiros do relógio logo girem. Conversar com Cleber Moreira é assim. E, entremeios por entrecaminhos, o que se confirma é um profissional que faz acontecer ao seu modo: com diálogo, muito respeito e com um certo agito. Do verbo “agitar”, ou ainda, “inquietar-se”, “apaixonar-se”.
Do bairro Santo Antônio, em Porto Alegre, onde nasceu em 30 de março de 1964, talvez a veia política que o tenha conduzido à sua trajetória profissional tenha relação com o que viria em breve e que destoaria o País, afinal, 31 de março daquele ano foi uma data emblemática para os brasileiros, e ele não poupa ao afirmar: “Foi golpe”.
O âmbito escolar era marcado pelo gosto de escrever e boas notas nas disciplinas de linguagens. Paralelamente, havia duas outras paixões que tomavam o seu tempo: o rádio e o futebol. Para o primeiro, o radinho de pilha era presença constante na imagem ausente e materializada apenas nas vozes que irradiavam os plantões de notícias que ouvia – não por acaso, principalmente, as esportivas. E, para isso, a dedicação advinha de um gosto particularmente apurado pelo segundo, sem deixar jamais a bola parar de rolar até o cotidiano atual, do alto de seus 61 anos. E ela segue.
A coisa começa quando se transforma
O futebol ganhou, desde cedo, um espaço além do que se poderia definir como “especial”. Aos 12 anos, iniciou a participação na escolinha do Grêmio, em Porto Alegre. Ali, seu objetivo era cristalino: queria ser jogador. Com 15, ingressou nas categorias de base, alimentando uma das vocações profissionais. A vida, no entanto, apresentou-lhe uma lesão, que, aliada a motivações pessoais, fizeram com que optasse por seguir outra carreira. No Grêmio, jogou até os 16, mas, a partir daí, outro de seus caminhos começou a chamá-lo para a trilha, cuja capacidade já demonstrava que poderia lograr êxito caso seguisse. Era um ou outro: futebol ou Jornalismo. Para os dois, simultânea e profissionalmente, não havia estrada única, mas uma bifurcação que se apresentava em frente. E, dessa forma, optou por seguir na área da Comunicação.
Ingressou na PUCRS e, à época, já exercia a primeira atividade profissional: diferentemente do que se apresentaria com o decorrer dos anos, a primeira atividade foi como office boy no extinto banco gaúcho Sul Brasileiro S/A. Progredindo do garoto burocrático e viajante entre os setores da instituição até se estabelecer como caixa bancário, a experiência começou a tomar um toque com o que se encontraria, mais adiante, com a carreira que percorreria por vários anos.
À época, o ambiente de crise financeira do Sul Brasileiro fez com que tivesse os primeiros contatos com o sindicalismo e com a defesa da categoria. O presidente do SindBancários era José Fortunati, a quem Cleber lembra de ter acampado em Brasília durante três meses, solicitando que o banco fosse encampado pela União. Mais tarde, o fato seria consumado, vindo a pertencer ao Santander. Foram assim as suas primeiras incursões com o meio e articulações políticas.
Mas havia também o Jornalismo, que permanecia cursando na PUCRS. E Cleber nunca esqueceu das histórias que o faziam continuar e encontrar sentido na união dos caracteres.
De rádio em rádio, uma veia empreendedora
A convite de um amigo, de saída para outro emprego, conseguiu uma oportunidade profissional no arquivo fotográfico de Zero Hora. E, uma vez ao adentrar no Grupo RBS, seguiu demonstrando seus talentos profissionais, que lhe renderam um estágio na Rádio Gaúcha. Era o retorno à paixão de radinho, construída desde a infância pelas transmissões esportivas que ouvia de forma religiosa. Trabalhou ao lado de nomes como Antônio Carlos Macedo, Rogério Mendelski e Armindo Antônio Ranzolin. Em seguida, viria a rádio Bandeirantes, onde foi liderado por Luiz Artur Ferraretto. Na sequência, a Guaíba, vindo a trabalhar com Flávio Portella e Flávio Alcaraz Gomes.
Cleber, para além de tudo, também possuía um desejo de empreender e de produzir de maneira autônoma. Aproveitando as experiências em produção que havia adquirido nas incursões profissionais e no curso, além do contexto de que, na ocasião, a rádio Guaíba contava com espaços para programas terceirizados, teve a ideia de lançar o Programa Mercosul, uma idealização em parceria com Renato Sagrera, produtor da época. Assim, às seis horas da manhã dos sábados, ia ao ar a iniciativa que buscava tratar de temas ligados à política internacional do Sul Global, ocupando uma lacuna dessa temática. Lembra com orgulho de que, quando no programa, um dos entrevistados foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O jornalista decidiu ir além. O Programa Seis e Meia, na TV Guaíba, estreou às segundas-feiras, mais uma produção sua. Nas pautas? Igualmente a política e a economia. Foram dois anos no ar tratando dos temas, ao mesmo tempo em que conciliava com a assessoria que prestava na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.
A esta altura, Cleber já estava bem comprometido com o caminho da política, sem deixar, jamais, a Comunicação de lado. A busca pelo trabalho na área, ao mesmo tempo em que se articulava politicamente, fez com que avançasse nos rumos. Veio o governo estadual de Germano Rigotto e o convite para atuar na coordenação da imprensa da Secretaria de Administração. Em seguida, a Secretaria de Meio Ambiente. Houve, ainda, passagens pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) e pela Prefeitura de Porto Alegre, especialmente no contexto da Copa do Mundo de 2014.
Para ele, este foi um dos períodos mais desafiadores de toda a sua trajetória profissional, pois o custo de cobrir um evento da magnitude de uma Copa mundial demanda habilidades estratégicas para além das zonas de conforto ou das possibilidades que o universo comunicacional apresenta. Nesse período, experimentou gestões de crises dos mais diferentes tipos que o ajudaram a se moldar como o profissional que é hoje.
Um democrata que agrega
A sua linha do tempo, repleta de histórias, memórias e experiências, também reflete os valores que carrega, cheios de comunicação, articulação e em busca do bem-viver. Cleber, percebe-se, gosta de manter um diálogo harmônico, às claras. “Eu sou um cara agregador, eu não sou ‘de iludir’, numa linguagem futebolística”, declara. E isso vai da forma de gestão ao trato pessoal.
Há 10 anos à frente da Assessoria de Comunicação Social do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), iniciados em 2016, o jornalista compreende estar, agora, do outro lado do balcão na arena política, mas sobretudo, que a essência da democracia deve permanecer. Numa instituição como o TRE-RS, demonstra apreço pelos valores do serviço prestado ao povo brasileiro e que a posição que ocupa desempenha um papel fundamental no combate à desinformação e às notícias falsas. “Vai ser uma eleição competitiva”, diz ele sobre o pleito geral que será realizado em outubro deste ano, considerando ser uma preocupação os possíveis efeitos que a inteligência artificial desempenhará na campanha política.
Ainda assim, Cleber persevera e, nos fundamentos do diálogo, da parceria, da troca e do compartilhamento de ideias, visualiza a ética como essencial para que a informação chegue precisa, apurada e correta ao público, sem deixar de enxergar o desafio que virá pela frente. O espírito de equipe, angariado desde os tempos de futebol – que, orgulha-se, joga até hoje com os amigos, é um dos seus motores para se manter atualizado.
Daqui pra frente
E para o futuro? Após concluir o mestrado em Comunicação e Midiatização pela Unisinos, o jornalista propõe a si próprio outro desafio: adentrar na área da docência, com a qual descobriu afinidade, ainda movido pelo desejo de compartilhar saberes e de construir conhecimento. Seus 61 anos parecem um chumaço de algodão para quem gosta de viver e conviver com as pessoas. “A vida passa tão rápido? Então, a gente tem de manter as relações, conviver com quem a gente gosta”.
A premissa vai desde dedicar o tempo às filhas Valentina e Sofia e à companheira Letícia, além dos amigos do futebol. Aqui, diga-se de passagem, merece menção honrosa ao Grêmio, cuja relíquia guarda na parede de sua casa: uma camisa do time emoldurada e autografada por Luis Suárez e Renato Portaluppi. Apenas.
Cleber construiu uma trajetória baseada no diálogo e nos desafios, na busca pelo novo. O amante de rádio e dos campos de jogos encontrou na política, seja nas duas faces da parede, uma forma de encontrar a si próprio e de prezar pela agregação de pessoas, histórias e coletividades. Reconhece que o caminho é árduo, mas não titubeia em dizer: “Eu gosto é de agito”.


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