Às 5h da manhã, o silêncio em Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, possui uma textura diferente. Não é o vazio da ausência, mas a quietude do preparo. Nesse horário, quando a maioria das emissoras de rádio ainda opera em modo automático, Antônio Ricardo Malheiros Silva de Souza já está de pé. O ritual é sagrado, imune às intempéries do clima ou aos desgastes de uma rotina que consome quilômetros de asfalto e horas de negociação. Ele prepara o café e o leva à cama para Jussara Ramos de Souza. O gesto, repetido diariamente há 11 anos, é a âncora que o mantém firme antes de enfrentar o mar agitado das relações capital-trabalho que define a existência profissional.
Aos 61 anos, Malheiros é um homem de contrastes harmônicos. Se em Brasília o tom de voz é de embasamento técnico diante de figuras como o ministro Luiz Marinho, no ambiente doméstico a frequência é outra. A suavidade com que fala da esposa, sobrevivente de um linfoma agressivo, revela a vulnerabilidade de quem viu o próprio mundo ameaçar ruir. Ricardo é o resultado de uma vida vivida a partir da realização do acaso. O radialista que hoje preside o Sindicato dos Radialistas do Rio Grande do Sul não é apenas um dirigente; é um personagem que atravessou quatro décadas de transformações tecnológicas e sociais sem perder a essência do guri que, aos 17 anos, desafiou o destino na antiga TV Gaúcha, atual RBS TV. “Eu digo que sou da geração de dinossauros. São 43 anos de Comunicação. É uma vida”, analisa.
Ousadia de guri
A entrada no universo da comunicação foi uma mistura de audácia e coincidência. Filho de Sérgio Antônio, militar que descobriu o rádio após a baixa no Exército, e de Maria Lúcia, mulher da área jurídica com ‘mania de grandeza’ e coração generoso, Ricardo cresceu cercado por referências de zelo e disciplina. A memória da infância resgata o deslumbramento das festas na TV Gaúcha, onde o helicóptero trazia o Papai Noel e a direção presenteava os filhos dos funcionários com kits de ‘Forte Apache’. O cenário era o Morro Santa Teresa, um Olimpo de imagens e sons que o pequeno Malheiros observava com olhos de quem, no fundo, já sabia onde queria estar ao crescer.
Aos 17 anos, diante de Marco Aurélio Bajo, diretor da emissora, o jovem Ricardo ouviu a pergunta que definiria o restante dos dias: “Já trabalhou alguma vez em televisão, garoto?”. A resposta veio sem titubeios: “Não, nunca trabalhei. Mas quero chegar um dia ao lugar que o senhor está ocupando”. A petulância juvenil, em vez de afastar, encantou o veterano. Malheiros foi contratado na hora. Começou como operador de gerador de caracteres e, em pouco tempo, tornou-se o ‘bebezão’ da redação, circulando entre figuras como Paulo Santana e Mendes Ribeiro. Era o funcionário mais novo da casa, absorvendo como uma esponja a cultura de um Jornalismo que ainda se fazia no calor das máquinas e no peso das palavras.
Prova de fogo
O destino, contudo, é um roteirista criativo. Após uma passagem meteórica e bem-sucedida pela TV Globo, em São Paulo, onde o diretor Boni o recebeu após um telefonema de indicação, Ricardo descobriu o vício do microfone. Foi em uma rádio de Jundiaí, no interior paulista, que a voz se tornou ferramenta de trabalho definitiva. “Um colega me convidou para fazer um teste de voz e, terminando o programa ‘A Voz do Brasil’, me disse: ‘Tá no ar’. E assim, em cinco segundos de silêncio no dial, nasceu o bordão de locutor e o Ricardo Malheiros foi invocado e nunca mais fechou a boca”, narra. Mas o verdadeiro teste de caráter não viria de uma mesa de som, e sim de uma sala de hospital no Complexo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Em 2024, a vida impôs um silêncio forçado. Jussara, companheira de 25 anos de jornada, foi diagnosticada com um linfoma não-Hodgkin estágio quatro. O projeto de ingressar na política partidária como vereador, que já tinha adesivos e estratégias de rua, foi arquivado sem hesitação. “A saúde da minha mulher era mais importante que a vida política”, reflete. Durante seis meses, Ricardo abandonou as certezas para se sentar na poltrona de acompanhante. No fumódromo da Santa Casa, recorda ter ‘comido cigarro’ de ansiedade, até o momento em que, em uma conversa solitária com o divino, disse: “Entrego minha vida a ti, Deus. Se tu tiver que levar, leva a minha, mas preserva a dela. Ela é fundamental!”. A remissão da doença, confirmada pela doutora Laura Fogliatto, foi celebrada como a maior vitória de uma carreira repleta de troféus invisíveis.
Letra da lei
A experiência hospitalar e o luto pela perda da mãe, Maria Lúcia, no mesmo período, provocaram uma transformação interna. Malheiros percebeu que a proteção ao trabalhador radialista exigia mais do que oratória; exigia o domínio da legislação. No início de 2025, o veterano voltou aos bancos escolares. Hoje, no terceiro semestre de Direito, ele é o ‘coroa’ da sala que não se intimida com a juventude dos colegas. Pelo contrário, encontra no estudo das normas vigentes a munição necessária para as mesas de negociação. O movimento sindical, que admite ter uma imagem deturpada por anos de confrontos físicos e ‘gritaria’, em sua visão, precisa ser técnico e argumentativo. Pessoalmente, ele garante que a volta aos estudos é uma grande realização. “Não é o título que vai moldar o meu caráter. Mas vou ter mais orgulho quando eu concluir a faculdade do que de qualquer outra coisa”, reflete, após contar que seu currículo guarda uma passagem pelo curso de Jornalismo, época em que dividiu as fileiras acadêmicas com Elói Zorzetto antes de a vida o conduzir para os estúdios de São Paulo.
À frente da entidade, a gestão de Ricardo é pautada pelo respeito e pela presença. Somente em 2025, ele e a diretoria rodaram quase 11 mil quilômetros pelo interior do Rio Grande do Sul, visitando emissoras Estado afora. Para ele, o sindicato estadual só faz sentido se estiver ao lado do trabalhador na base. “Respeito não se impõe, direito se conquista”, afirma com a autoridade de quem foi reeleito com 83% de aprovação e nenhum voto nulo ou branco. O segredo, garante, é a confiança estabelecida por ser ‘mais conhecido que feijão preto’ e por tratar a relação capital-trabalho sem abusos, mas com firmeza inegociável em todo o País.
Ciclo final
A eleição para presidência do sindicato, que ocorrerá no decorrer de 2026, será o último pleito. Ricardo já prepara a sucessão, fiel ao lema de que o importante é garantir a continuidade de um trabalho que tirou a entidade do ‘buraco’ financeiro e garantiu a compra de uma sede digna aos trabalhadores do âmbito radiofônico. A transição para a advocacia trabalhista, focada na área da Comunicação, é o plano traçado para a próxima década.
Ele deseja ser o porto seguro para os colegas que, como ele, enfrentam as incertezas de um mercado cada vez mais precarizado e desinteressado pelo sacrifício dos finais de semana e feriados. Apesar da rotina exaustiva, que inclui viagens constantes a Brasília para monitorar e dialogar sobre os impactos das iniciativas do Governo Federal no setor, Malheiros não se sente um homem cansado.
Para além das fronteiras gaúchas e das mesas de Brasília, o coração de Ricardo pulsa em uma ponte aérea emocional com São Paulo. É lá que vive Jorge Luiz, irmão fisioterapeuta, que é espelho de orgulho. A tecnologia, que Malheiros tenta regulamentar no trabalho, é a mesma que permite o encontro diário através das telas, mitigando a saudade de uma família marcada pela perda precoce da irmã, aos 15 anos, para uma doença renal. Esse luto antigo, guardado em uma gaveta silenciosa da memória, é o que nutre a urgência em cuidar dos seus. O sonho de trazer o irmão de volta ao solo gaúcho não é apenas um desejo geográfico, mas o anseio de reunir os fragmentos de uma história que começou em Cruz Alta e que, hoje, encontra paz no simples ato de ouvir a voz de quem se ama, sem a necessidade de microfones ou audiências.
Horizonte livre
Ao olhar para trás, Ricardo Malheiros não enxerga frustrações. O livro que ainda não escreveu já possui rascunhos mentais, mas a verdadeira biografia está sendo redigida nos detalhes: no café levado à cama, no Vade Mecum aberto sobre a mesa de estudos e na sede própria do sindicato, que hoje é motivo de orgulho. É um homem de fé, batizado católico mas frequentador dos cultos adventistas com a esposa. Para ele, Deus coloca ‘anjos’ na vida nos momentos de maior escuridão e nada é por acaso, assim como tudo é política, incluindo a conversa que teve com esta repórter. “Eu faria tudo de novo”, garante com a serenidade de quem sabe que preservou o sobrenome herdado do avô.
O perfil de Antônio Ricardo Malheiros não se encerra em uma mesa de som ou em um gabinete sindical. Ele flutua entre a técnica e a emoção, entre a dureza das negociações e a ternura do cuidado doméstico. Como um bom mestre de cerimônias da própria existência, conduz a narrativa de superação, onde o ‘vício’ da comunicação é apenas o pano de fundo para uma história maior de amor, resiliência e a eterna busca pela justiça. O ‘boi com a corda’ segue o caminho, agora com o sinal limpo e a frequência ajustada para o que o futuro, em sua infinita sabedoria, decidir transmitir.


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