
Quando eu era criança, raios, tempestades e trovoadas não eram vozes da Natureza, mas alertas de perigo, tragédia ou coisa ruim. Por mal dos pecados, minha Tia Ida proclamava que era o som de Deus. Aminha mãe, que nem piscava quando uma tormenta caía de repente, foi quem me ensinou que não se deve ter medo do que vemdo céu.
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Não muito tempo depois, meu tio Armando, que tinha uma vasta biblioteca no sobrado da José Bonifácio, contou que raios, trovões e relâmpagos sempre provocaram os pioresmedos nas pessoas. Então, disfarçando um sorriso, em um livro de capa vermelha mostrou uma palavra misteriosa, que os magos druidas usavam em rituais para invocar trovões. Tinha 100 letras, ocupava duas páginas do livro e era impossível de pronunciar. E era mais ou menos assim:
Bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnu.
Provocado, tentei, uma, duas e mais vezes, até me engasguei. Recuperei o fôlego e quis copiar o palavrão, mas meu tio disse que não se deve brincar com palavras sagradas. E que aquilo era uma mantra reservada apenas aos ocultistas e grãos-mestres da maçonaria. Depois fechou o livro vermelho e me foi preciso engulir a curiosidade.
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Muitos invernos depois, o Tio Armando morreu de pneumonia e ganho alguns livros de sua biblioteca. Eram de autores que nunca lera, como Rudyard Kipling, James Joyce e outros tantos.Começo com Finnegans Wake elogo tomo um susto – encontro uma palavra imensa, misturandosinaisde ortografia, consoantes e vogais.Era igual àquela mantra quemeu falecido tio contava que tinha o poder de chamar trovões.
Na hora, me quedei pensando – seráque o famoso escritor irlandês usouas mesmas 100 letras e sinais dos druídas para criaruma mantracapaz de conjurar os raios e trovõesque lhe davam medo desde criança ?
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