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Som de trovões

Quando eu era criança, raios, tempestades e trovoadas não eram vozes da Natureza, mas alertas de perigo, tragédia ou coisa ruim. Por mal dos pecados, minha Tia Ida proclamava que era o som de Deus. Aminha mãe, que nem piscava quando uma tormenta caía de repente, foi quem me ensinou que não se deve ter medo do que vemdo céu.

***

Não muito tempo depois, meu tio Armando, que tinha uma vasta biblioteca no sobrado da José Bonifácio, contou que raios, trovões e relâmpagos sempre provocaram os pioresmedos nas pessoas. Então, disfarçando um sorriso, em um livro de capa vermelha mostrou uma palavra misteriosa, que os magos druidas usavam em rituais para invocar trovões. Tinha 100 letras, ocupava duas páginas do livro e era impossível de pronunciar. E era mais ou menos assim:

Bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnu.

Provocado, tentei, uma, duas e mais vezes, até me engasguei. Recuperei o fôlego e quis copiar o palavrão, mas meu tio disse que não se deve brincar com palavras sagradas. E que aquilo   era uma mantra reservada apenas aos ocultistas e grãos-mestres da maçonaria. Depois fechou o livro vermelho e me foi preciso engulir a curiosidade.

***

Muitos invernos depois, o Tio Armando morreu de pneumonia    e ganho alguns livros de sua biblioteca. Eram de autores que nunca lera, como Rudyard Kipling, James Joyce e outros tantos.Começo com Finnegans Wake elogo tomo um susto – encontro  uma palavra imensa, misturandosinaisde ortografia, consoantes e vogais.Era igual àquela mantra quemeu falecido tio contava que tinha o poder de chamar trovões.

Na hora, me quedei pensando – seráque o famoso escritor irlandês usouas mesmas 100 letras e sinais dos druídas para criaruma mantracapaz de conjurar os raios e trovõesque lhe davam medo desde criança ?

*** 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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