Quando penso no ato de governar, entendo que a principal balança que deve manter-se equilibrada é a da relação entre os Poderes. O entendimento entre as diferentes esferas reduz atritos e acelera acordos.
Como de praxe, em algum momento do ano — na ausência do Governador e do Vice-governador, ao menos aqui no RS, e respeitando a regra de precedência — o Presidente da Assembleia Legislativa assume o comando do Estado. São dois ou três dias, dependendo da oportunidade. Passado esse tempo, o Governador eleito retorna ao seu cargo de direito. É um ato diplomático que concede ao chefe de outro Poder não só a investidura, mas os direitos que o cargo de Governador traz consigo.
Para muitos que assumem, ainda que possa parecer algo que sirva mais para fotografias com a família no gabinete governamental, ter essa passagem no currículo traz algo muito significativo. São pessoas que, em alguns casos, tiveram um passado difícil e sem estrutura. Nessas quase três décadas em que trabalho no Cerimonial do Palácio Piratini, que eu lembre, somente uma vez ficamos sob o comando do Presidente do Tribunal de Justiça.
Sentir-se ali, sentado no lugar de maior poder político do estado, nem que seja por poucos dias, é, sim, motivo de regozijo e deve ser comemorado. Há os que se emocionam, fazem transmissões de cargo com salões lotados, cumprem uma agenda cheia de audiências, marcam almoços, jantares e já fiquei sabendo de quem até mesmo fez cartão de visita. Enfim, são poucos dias em que se pode usufruir do poder de demandar e receber, tendo sempre alguém que alcança a maçaneta da próxima porta para que você possa entrar.
Mas não se engane quem vê nesse ato uma “perfumaria”. No momento em que o livro de ata recebe o nome do governante passageiro, junto com a assinatura e o ato diplomático em si, uma carga de responsabilidade acaba de preencher a bagagem de quem assume. E não é brincadeira.
No dia 2 de janeiro de 2026, às 9h30min, o então Governador em exercício, Gabriel Souza, fazia a transmissão do cargo de Governador ao Presidente da Assembleia Legislativa, Pepe Vargas. Lembro de suas palavras relatando as boas condições meteorológicas do estado e o cenário tranquilo para quem teria três dias com direito à chave do poder e, claro, o desejo de boa sorte.
No mesmo dia, por volta das 11h20, na altura do km 491 da rodovia, no sentido ao município de Camaquã (RS), um caminhão desviou para a contramão porque foi surpreendido por um congestionamento. Ao ingressar na pista contrária para evitar a colisão, bateu em um ônibus com 27 passageiros, onde, infelizmente, 11 pessoas perderam suas vidas.
E é nesse ponto que reflito: um ato, ainda que seja uma atitude diplomática entre Poderes, traz consigo uma responsabilidade institucional gigantesca. Porque governar não é só ocupar o maior cargo na escala estadual; não é só administrar e gerir recursos. Governar é estar 24 horas conectado a uma responsabilidade que vai muito além de estar em evidência, de ser prestigiado ou usufruir de mordomias. Governar é gerir a vida em sociedade para garantir que o coletivo funcione de forma harmoniosa e justa. Em um mundo complexo, o governante é o “fio condutor” que tem de estar sempre preparado para situações adversas.
É claro que as forças de segurança, saúde e transporte — e demais setores que se envolvem em um desastre como esse — irão cumprir seus deveres e solucionar os problemas da melhor forma através dos coordenadores de suas respectivas pastas. Mas cabe, sim, ao Governador a responsabilidade sobre a atitude a ser tomada, nem que seja uma manifestação pública de condolências às famílias enlutadas. Estar Governador significa nunca dormir com profundidade total. A vida gira muito rápido e, nessa roda, estar em alerta é inevitável.
Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias


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