Perfil

Cristiano Silva: Além do eco

Ao silenciar o microfone para habitar o Sport Clube Internacional, ele revela como a honestidade e a rua forjaram sua trajetória

Há uma cadência mansa e uma precisão quase cirúrgica na forma como Cristiano Silva articula as palavras. Quem o acompanhou pelos últimos 13 anos na Rádio Guaíba, ou o escutou pelas últimas três décadas nas diversas emissoras por onde passou, conhece a autoridade daquela voz. No entanto, talvez poucos tenham percebido a sensibilidade do homem que, em 2025, decidiu cruzar a linha do balcão. A data da nossa conversa, 13 de fevereiro, celebra o Dia Mundial do Rádio, uma coincidência poética para quem dedicou a vida ao dial e agora, aos 52 anos, vive um novo momento de carreira.

Desde que assumiu a assessoria do Conselho de Gestão do Sport Club Internacional, em 2025, o rádio deu lugar ao telefone que não silencia e às crises que não pedem licença para acontecer. No Beira-Rio, ele diz fazer home office, tamanha a intimidade com o clube, que é sua casa emocional. Contudo, engana-se quem pensa que o novo cargo trouxe a calmaria do gabinete; ali, a estratégia e a credibilidade – algo que ele garante não se comprar em farmácia – são as ferramentas de um embate diário. “É quase uma faculdade o que a gente vive aqui dentro”, resume.

Cristiano é um homem de contrastes que se tocam. Se nos bastidores do clube a voz é de comando e contenção, na memória, ela ainda ecoa o chiado do rádio que ouvia quando criança. A transição para o Internacional não foi uma fuga, mas um abraço a um desafio que exigia dele o que ele mais valoriza: o cuidado com a narrativa e a capacidade de domar furacões. Foi o ápice de um amadurecimento que o levou de um guri inquieto na Zona Sul de Porto Alegre a uma história de mais de 30 anos de rádio, sem nunca abrir mão da transpiração que a rua exige. Para ele, o Jornalismo é um exercício de entrega.

Memória e profecia

As raízes de Cristiano estão fincadas no bairro Glória. Filho de Clóvis, mecânico e caminhoneiro, e de Luzia, professora primária, cresceu entre o cheiro de graxa e o rigor pedagógico. Único homem entre três irmãs, aprendeu cedo a negociar espaços. O ambiente era de “brigar muito e brincar muito”, temperado pela rivalidade clubística: enquanto Cristiano se moldava colorado, as irmãs eram gremistas convictas. Ele recorda, entre risos, da irmã Joana, que o atazanava com um disco do Grêmio e tentava, a todo custo, colar o adesivo tricolor no carro da família.

O rádio, porém, entrou em sua vida pelos ouvidos de terceiros: a mãe se arrumando para dar aula ao som de Mendes Ribeiro e o pai, na oficina, atento aos acontecimentos cotidianos. Ali, entre peças de reposição e cadernos de planejamento, Cristiano sintonizou a própria vocação. Suas memórias mais remotas remetem à cobertura tensa do primeiro grande motim do Presídio Central e também o caso Daudt. Mas, foi em 1982, aos nove anos, que o futebol virou obsessão: Geraldão (centroavante do Inter, na época), com seus cinco gols em dois clássicos, pela final do Gauchão, acendeu o amor pela cobertura esportiva.

Uma frase lançada em uma briga de infância também se tornou combustível potente em direção aos microfones. Uma de suas irmãs, no calor de um conflito doméstico, sentenciou que ele seria um candidato ao Presídio Central. A sentença proferida como estigma, virou bússola. O destino colocou seu melhor amigo de infância no comando da Brigada Militar, enquanto Cristiano escolheu o Jornalismo para narrar a realidade. “Aquilo foi um incentivo para eu lutar”, reflete. Ele não guarda mágoas; sabe que a retidão é o melhor antídoto às más línguas, assim como o tempo.

Jeito de jornalista

A entrada no mercado foi um ato de audácia pura. Estudante da Unisinos, Cristiano não esperou convites. Ligou para um programa ao vivo e pediu emprego diretamente a Nelson Marconi, conseguindo um estágio na Rádio Visão (atualmente, Rádio Real), em Canoas. A novidade exigia acordar às 4h da manhã e desbravar a cidade onde ficava a sede da emissora – de ônibus, sem carro oficial, cobrindo de tiroteios a reuniões de reitoria da Ulbra. 

O verdadeiro teste de caráter veio de um ‘não’ cortante na Rádio Bandeirantes. Após uma cobertura desastrosa em um jogo no Olímpico, ouviu de um veterano: “Você não serve para o rádio. Procura outra coisa para fazer”. O desprezo, novamente, virou mola propulsora. Cristiano seguiu como porteiro de hotel e rádio-escuta até que a persistência vencesse o ceticismo. 

Foram 11 anos de Rádio Bandeirantes e 13 de Rádio Guaíba, uma trajetória que o levou de estádios no Interior ao aeroporto dos Emirados Árabes. Sua saída da Guaíba, em 2025, foi antecedida por um manifesto contra o Jornalismo ‘in tubo’ – feito apenas de dentro das redações climatizadas. “É uma negação do ofício. Jornalismo não se faz de dentro da redação. A pauta está lá fora. Na Guaiba, éramos furados pela Gaúcha numa pauta na Praça da Alfândega, simplesmente porque não tínhamos ninguém lá. Se não tem vontade de gastar a sola do sapato, sai do rádio”, decreta. 

Para Cristiano, o Jornalismo é prestação de serviço 24 horas por dia, uma chama que exige criatividade e, acima de tudo, a escolha por profissionais de qualidade técnica superior. “Porque hoje está assim: depois da queda do diploma, todo mundo diz o que quer e depois os jornalistas de verdade têm que correr atrás para desmentir”, afirma, com a autoridade de quem nunca temeu gastar os sapatos para entregar a verdade ao ouvinte. É essa mesma ética que ele aplica hoje, no Internacional, facilitando o diálogo com a imprensa sem esquecer de onde veio.

O silêncio e o sagrado

Fora das quatro linhas e do gabinete de crise, Cristiano busca um silêncio que raramente encontra na agitação doce de seu lar. Casado há quase 30 anos com a psicóloga Daniela – parceira desde os tempos em que o rádio era só uma promessa -, ele encontra nela o solo firme para suas inquietações. É pai de um casal filhos, Antônia, de 16 anos, e João Pedro, de 10. Ela se dedica ao vôlei; ele, ao karatê, e nenhum deles parece inclinado a seguir os passos do pai na Comunicação, o que Cristiano encara com uma serenidade desprovida de vaidade. É em casa que ele se permite apenas ser pai, dividindo o tempo entre o apoio ao estudo dos filhos e seu hobby por carros antigos, uma herança afetiva vinda diretamente da oficina do pai.

A espiritualidade é um capítulo de resistência, escrito com a firmeza de quem conhece o próprio chão. Umbandista desde pequeno, Cristiano carrega no peito a proteção de Ogum e, no cotidiano, a retidão de quem nunca precisou esconder o que crê para ser respeitado. Durante os 13 anos em que integrou o quadro de uma emissora pertencente a um grupo evangélico, ele provou que o profissionalismo ético é uma ponte capaz de transcender qualquer dogma. No entanto, o teste mais severo de sua têmpera não veio da religião, mas da política.

A polarização que fustigou o Brasil nas eleições de 2022 transformou a redação em um território de alta pressão. Diante da nítida inclinação à direita do veículo onde trabalhava, Cristiano não recuou para o conforto do silêncio. Posicionou-se contra a guinada ideológica da rádio, enfrentando resistências que apenas lapidaram sua convicção de que o Jornalismo perde a alma quando se deixa sequestrar pelo partidarismo. Para ele, a isenção não é neutralidade covarde, mas uma sentinela da verdade. “Quem julga é juiz, não jornalista”, sentencia, reforçando que o dever do ofício é oferecer a mesma equidistância a todas as vozes, mas manter o posicionamento firme sempre que a liberdade de informar for ameaçada.

Horizonte livre

O mundo de Cristiano é povoado por biografias e pelos clássicos do cinema que moldaram seu senso de justiça. No braço, as tatuagens de ‘O Poderoso Chefão’ e do faroeste ‘O Bom, o Mau e o Feio’ não são apenas estética; são marcas de uma identidade que valoriza a lealdade e a sobrevivência em ambientes áridos. Recentemente, emocionou-se com ‘Ainda Estou Aqui’ e segue mergulhado na leitura de Juanita Castro, buscando entender as matizes políticas da América Latina. É um homem que vive o agora, focado em entregar resultados no Sport Club Internacional. O futuro é uma frequência em aberto. “Não tem como projetar nada, a gente tem que projetar o agora”, afirma.

Aos 62 anos (ou seja, uma década para frente), ele se imagina em casa, talvez cercado por netos, colhendo a serenidade que a estrada do rádio lhe proporcionou. Cristiano Silva não tem pretensão de ser chefe; acredita que a liderança só é legítima quando nasce da vivência real, espelhando-se em referências como Caco Barcellos, Renato Dornelles e Zé Alberto Andrade

Ele habita o presente com a fidelidade de quem sabe que o maior reconhecimento não são os prêmios na parede, mas o respeito de quem o para na rua para dizer: “Eu não gosto do teu posicionamento, mas te admiro”. No final das contas, é essa transparência que o define: um homem que não tem tudo o que quer, mas descobriu que tem tudo para ser feliz. O sinal está limpo, e Cristiano segue no ar, agora em uma nova e desafiadora faixa, com o coração em paz e os pés, como sempre, prontos para o barro.

Autor

Ilana Xavier

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6 Comments

Majori Ribeiro da. Ssils

Sou fã do Cristiano sinto falta dele nos programas esportivos da guaiba mas reconheço que ele precisava desse desafio.
Secesso sempre te sigo pelo instagram.
Torço pelo teu sucesso.

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João Paulo da Fontoura

Bom radialista , mas exageradamente esquerdinha. Ligo o rádio para futebol, não opinião sobre política.
Não faz falta, pois não mudará!!!

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