“O ciúme é o verdadeiro protagonista de Dom Casmurro.”
Sim, eu já traí, fui traído, e tu também. E todos que estão lendo essa coluna também já foram traídos.
Muitas e muitas vezes durante a nossa vida.
A traição faz parte da experiência humana. Ela está nas relações amorosas, nas amizades, nas famílias, nas sociedades, nos ambientes de trabalho. Somos traídos por companheiros e companheiras, por amigos, por irmãos, por parentes, por sócios, por pessoas que trabalham conosco e, em algum momento, também traímos, seja expectativas, promessas ou a confiança de alguém. Assim como a mentira, assim como a fidelidade, assim como a lealdade, a traição também habita o mesmo espaço social onde convivemos. É um elemento desconfortável, doloroso, corrosivo. É uma ferida aberta que a maioria de nós carrega em silêncio.
Aprender a viver em sociedade é aprender a conviver com frustrações profundas. É entender que confiança pode ser quebrada, que vínculos podem apodrecer por dentro, que pessoas que juraram estar ao nosso lado podem se transformar em estranhos. Isso acontece todos os dias. Em maior ou menor escala. E por mais devastador que seja, nada, absolutamente nada, autoriza a violência.
Escrevo isso por causa do crime brutal ocorrido em Goiás na semana passada. Um pai assassinou os próprios filhos para punir a mulher por uma suposta traição. Uma vingança tão covarde quanto doentia. Depois se descobriu que eles já estavam separados havia meses. Ou seja, não era traição. Era posse. Era ódio. Era a incapacidade de aceitar que uma mulher não lhe desejava mais.
Isso não é um surto isolado. Isso é o retrato cru de uma sociedade patriarcal, forjada na ideia de que homens mandam, mulheres obedecem e sentimentos masculinos valem mais do que vidas alheias. Um machismo tóxico que atravessa gerações e continua produzindo cadáveres.
A série sobre Ângela Diniz exibida pela HBO escancarou isso novamente. Um homem incapaz de suportar a autonomia de uma mulher. Primeiro vieram as humilhações. Depois as agressões. Por fim, os tiros. Nem morta ela foi deixada em paz. Sua reputação foi massacrada nos tribunais, nos jornais, nas conversas de bar, como se a vítima ainda precisasse pedir desculpas por ter sido assassinada. Depois dela vieram milhares de outras mulheres anônimas, silenciadas, esquecidas, enterradas sem manchete.
Existe um padrão claro e repetido. Homens que acreditam que foram desrespeitados. Homens que confundem amor com propriedade. Homens que falam em honra quando, na verdade, estão falando de ego ferido. Quando perdem o controle, atacam o que a mulher mais ama. Filhos. Animais de estimação. Casa. História. Vida. O ato extremo de matar os próprios filhos para atingir a mãe é a expressão mais monstruosa dessa lógica.
Precisamos encarar isso sem anestesia.
Uma coisa que me incomoda profundamente em algumas campanhas contra o feminicídio é que a cobrança quase sempre recai sobre a mulher. Denuncie. Saia de casa. Seja forte. Reaja. Mas pouco se fala com quem agride. Pouco se confronta o agressor. A mulher só precisa denunciar porque alguém decidiu violentá-la. Só precisa ser forte porque alguém escolheu ser brutal.
O problema não nasce na vítima. O problema nasce na cabeça de muitos homens.
A masculinidade tóxica não é uma expressão exagerada. É um sistema de crenças que ensina meninos a reprimir emoções, transformar frustração em raiva e interpretar rejeição como humilhação imperdoável. Isso tem nos destruído há décadas.
E o futuro assusta. Comunidades digitais que cultivam ressentimento, ódio e desumanização crescem como uma doença silenciosa. Grupos que ensinam homens a odiar mulheres, a enxergá-las como inimigas, a transformar frustração afetiva em ideologia. E a sociedade ainda trata isso como algo periférico, quando na verdade é uma bomba-relógio.
Está na hora de nós, homens, pararmos de fingir que não é conosco. De assumir responsabilidade. De chamar nossos amigos para conversas difíceis. De interromper piadas, discursos e comportamentos que normalizam a violência. De dizer claramente que não existe honra em destruir vidas.
Se nós não mudarmos, nada muda.
E a próxima tragédia já está sendo construída agora, dentro de alguma casa aparentemente comum, atrás de alguma porta fechada, alimentada por silêncio, ressentimento e a crença absurda de que alguém pode possuir a vida de outra pessoa.


3 Comments
Fernando sempre perfeito. Me incomoda isso tb. Mas me incomda mais a nossa capacidade qto sociedade de levantarmos bandeiras sobre causas sociais e depois não dar continuidade através da atitude de todos como parte da sociedade e das instituições de não fazer o que tem que ser feito. Tem gente que acha que fazer uma campanha publicitária, criar um grupo de trabalho como o estado do RS adora, fazer notas e textões em redes socias vai parar essa massa de homens doentes e viciados em odiar. As mulheres brasileiras estão abandonadas e as mulheres gaúchas, principalmente, no interior do estado estão abandonadas. A sociedade está a poucos passos de voltar ao tempo da barbárie e isso é a comprovação da falência das instituições, nós como sociedade e do homem que insiste viver em um tipo de sociedade que não existe mais. As mulheres estão aí. Ocupando espaços! Querendo viver! Tendo na maioria das vezes nesse país ter que criar seus filhos sozinhas! Mas as instituições estão repletas de homens que provavelmente, viveram dentro de casa as mesmas cenas que hoje se repete com o agravante da morte. Hora do divã e hora da cadeia p/ os homens!
É isso!
É isso, Paulinho! Bem isso!
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