
O “mimimi” virou uma palavra-coringa. Serve para rotular choradeira, ironizar reclamação alheia e, de quebra, encerrar discussões com a praticidade de quem aperta “silenciar” no controle remoto. É quase terapêutico apontar o mimimi do outro — principalmente quando o outro parece ter um talento raro para enxergar defeito em tudo, como se a vida acordasse todos os dias com um plano personalizado para dar errado só para ele.
Só que existe um detalhe incômodo nessa história: o mimimi não é exclusividade de ninguém. Ele é um vetor da vida, um vírus oportunista. Entra quando a conta aperta, quando a porta não abre, quando o reconhecimento demora, quando o amor desanda, quando o cansaço vira rotina. Em algum momento, em alguma esquina emocional, todos nós já escorregamos para esse lugar. E tudo bem admitir. O problema começa quando a reclamação deixa de ser desabafo e passa a ser identidade. Quando a pessoa não apenas reclama: ela mora na reclamação. Decora os cômodos com ressentimento, pendura frustrações na parede e recebe visitas com a mesma frase: “eu não tenho sorte”.
O mimimi pesa. Pesa nas relações, no trabalho, na energia do ambiente. Ninguém aguenta muito tempo alguém que vive no modo “alerta de injustiça”, procurando culpados para qualquer tropeço. E, convenhamos, culpar dá uma sensação momentânea de alívio — como se terceirizar a responsabilidade fosse uma forma de anestesia. Só que o preço é alto: quanto mais culpados a gente distribui, menos força sobra para agir.
Minimizar o mimimi não é virar “coach de si mesmo”, nem fingir que está tudo ótimo. É aprender a fazer uma pergunta simples, mas adulta: “O que eu posso fazer com isso?”. Às vezes dá limonada. Às vezes dá caipirinha. Às vezes dá só um gole amargo — e ainda assim a gente segue. É olhar o copo meio cheio sem negar o meio vazio, mas entendendo que o copo está, pelo menos, na nossa mão.
No fim, não é o mundo que muda de turno para nos favorecer. É a gente que escolhe sair do retrovisor e encarar o para-brisa. Porque se a vida que levamos é o que levamos desta vida, fica a provocação: quando você fala de si, está contando uma história de vítima… ou de protagonista?


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