Perfil

Mariana Silveira: de dúvida a sólida e feliz carreira

Há 32 anos no Grupo RBS, a diretora-geral de Gestão, Finanças e Pessoas transformou a indecisão da adolescência em uma trajetória marcada por estratégia, liderança e paixão

Praticante de esportes desde muito pequena, com destaque para a ginástica olímpica, a jovem porto-alegrense Mariana Silveira, aos 16 anos, não tinha certeza de que carreira seguir. Sonhou em ser técnica e resolveu estudar Educação Física. Filha e neta de empresários, enxergou na Administração mais possibilidades no mercado de trabalho. Chegou a cursar as duas ao mesmo tempo, mas acabou decidindo pela segunda alternativa.

Formou-se pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1994, e no mesmo ano, após algumas experiências de estágio, ingressou no programa de trainees do Grupo RBS. Aos 53 anos, ocupando o cargo de diretora-geral de Gestão, Finanças e Pessoas da empresa, lembra com carinho do dia em que recebeu a ligação informando que estava aprovada na seleção. “Foi no dia 4 de agosto de 1994, meu aniversário. Foi um presente”, comenta.

Universitária, acreditava que trabalharia com a área de Marketing dentro da Administração, especializou-se no tema. Cogitou abrir uma academia, unindo a paixão da infância com a responsabilidade da vida adulta. Na área de planejamento financeiro, imersa em todos os negócios da instituição, descobriu um novo amor e sua vocação.

E o reconhecimento veio rápido. Como trainee, era parte do trabalho ser treinada para se tornar líder. Mulher, com 20 e poucos anos, em uma época em que os homens ainda predominavam na área administrativa, viveu o primeiro desafio como coordenadora de planejamento. O sentimento de valorização que sentiu lá no início permanece. “Não tive problema com machismo dentro da RBS, mas fora sim. Aqui, pelo contrário, sempre vi a empresa como incentivadora e crente das nossas capacidades”, pontua, seguindo: “O frio na barriga ao receber um novo desafio segue e é o que me faz estar aqui até hoje”.

Mãe, fica

As filhas, que sempre estiveram nos planos de Mariana, tornaram-se mais do que a realização de um sonho. São amuletos da sorte. Giovanna, hoje com 22 anos e estudante de Publicidade e Propaganda, nasceu em 2003, quando a RBS enfrentava um momento delicado. Durante a licença-maternidade, chegou a pensar que talvez não teria emprego quando voltasse. O movimento foi inverso. Ao retornar, foi promovida a gerente executiva.

Quando Bruna, atualmente com 20 anos e estudante de Enfermagem, nasceu, outra grata surpresa apresentou-se na vida da administradora. Mais uma vez, foi alçada a um novo cargo e assumiu como diretora de todo o setor financeiro. E é desse período que guarda a memória de um dos projetos mais marcantes do qual fez parte. O então CFO do Grupo RBS, Eduardo Damasceno, a colocou na comitiva de captação de recursos internacionais, uma vez que as linhas de crédito no Brasil ainda eram mais restritas, juntamente com Pedro Parente, que era vice-presidente executivo.

“Eu era a única mulher da empresa. Preparamos uma apresentação para vender o que fazíamos aos investidores, fizemos um road show pela Suíça, Inglaterra, Boston e Nova Iorque, nos Estados Unidos. Foi uma vivência incrível, a captação foi um sucesso”, ressalta.

Com duas meninas pequenas em casa, passou pela mente deixar a vida profissional e dedicar-se integralmente à maternidade. Falando com as filhas, recebeu o seguinte pedido: “Elas disseram pra eu não sair pois me viam voltar feliz do trabalho todos os dias. Eu percebi, mesmo sem entender exatamente como consegui, que era possível conciliar as minhas versões mãe e diretora financeira”.

Um elogio de Damasceno confirmou que sua missão estava certa. “Quando voltei de licença, ele disse que eu estava sendo promovida pois fui imprescindível, todos os processos funcionaram mesmo na minha ausência. Essa fala foi fundamental para minha autoconfiança pois sempre fiz muita questão de deixar tudo organizado para que o trabalho fluísse”, explana. 

O que ela quiser

No trabalho, Mariana lidera uma equipe de cerca de 200 pessoas. É, sem dúvida, um dever que demanda tempo. Mas se não bastasse, ela ainda equilibra os pratos para viver todas as versões que quer. As filhas foram morar nos Estados Unidos para estudar e viajar para visitá-las é um de seus hobbies favoritos. 

Em casa, divide a vida com o companheiro Péricles Cenço, com quem está junto desde 2014, e com a cachorrinha Rosinha Cuticuti. Por falar no marido, a história de amor é curiosa. “Ele sempre acreditou muito em mim”, conta Mariana, que conheceu Péricles no Grupo RBS, onde ambos eram colegas da turma de trainees de 1994. Ele também ficou por bastante tempo na empresa, era diretor de TI quando saiu. Mas foi só 20 anos depois que a amizade se transformou em algo mais e deu lugar a uma relação que segue rendendo bons frutos. “Ele é uma pessoa calma, madura, que me ajuda a melhorar, me passa tranquilidade, me ajuda. Ele é uma referência pra mim”, elogia a amada. 

Mas não para por aí! Mariana ainda encontra tempo para praticar exercícios físicos, especialmente pilates e caminhada, quatro vezes por semana. E, há dois anos, resgatou um sonho de infância e resolveu aprender a tocar piano. Entre um acorde e outro, recebeu da amiga Fabíola Pesa, que é baterista, um convite para integrar a banda “Ozotimistas”. Toda semana tem ensaio e o grupo, composto por seis pessoas de profissões bem distintas, até já performou alguns shows.

É um frio na barriga diferente, mas originado de um talento de família. E se tiver que apontar um estilo musical como preferido, não hesita em responder que é o rock. Aliás, é uma das fãs do AC/DC que fez as malas rumo a São Paulo para assistir a um dos três shows que a banda está fazendo no Brasil. “O Péricles toca baixo, violão. Meu avô tocava, meu irmão toca muito bem, já até gravou CD de rock gaúcho, uma das minhas sobrinhas também tem talento com os instrumentos. A música é uma paixão comum entre nós”, enfatiza.

Estudiosa

Antes da RBS, Mariana ainda estagiou em outras empresas durante a faculdade. Atuou no Grupo Ipiranga, Fundação de Ciência e Tecnologia (CIENTEC), Caixa Econômica Federal e Siderúrgica Riograndense, da Gerdau. 

E o currículo também acumula diversos conhecimentos. “Sempre gostei de estudar”, declara. Pós-graduada em Gestão Financeira pela Ufrgs, também teve a oportunidade de estudar fora do país. Fez uma especialização em Finanças pela Universidade da Califórnia, outra em Investimentos Alternativos e Gerenciamento de Serviços Financeiros na instituição também norte-americana The Wharton School e Educação Executiva pela Northwestern University – Kellogg School of Management.

Lá atrás, quando decidiu pela Administração, acreditava que seguiria para a área do Marketing. Coincidência ou não, mesmo dedicada a Finanças, acabou fazendo sua carreira em uma empresa de Comunicação. Assim como no Grupo Ipiranga, onde percebia o propósito do que fazia por ser também cliente da marca, sempre sentiu uma conexão com o Grupo RBS. Folhear a Zero Hora era hábito na casa onde cresceu com os pais João Flaubiano (em memória), economista que foi empresário no ramo de estacionamentos, e Maria Helena, que se dedicou ao trabalho doméstico, além dos irmãos Felipe e Juliana, que hoje são Engenheiro Elétrico e Veterinária, respectivamente. 

“Outra afinidade com a empresa era a televisão, que segue parte muito forte do meu cotidiano. Adoro assistir tv aberta e o 12 sempre esteve conectado”, admite. Nos bastidores de tudo isso, para manter os negócios sustentáveis e girando, encantou-se por meio dos números, processos e estratégias financeiras. Mesmo em um setor considerado mais formal, identificou desde o início a RBS como uma empresa do futuro e inovadora.

Essência

Na nova estrutura de gestão do Grupo RBS, assumiu em setembro de 2025 a nova função. Sob sua responsabilidade estão áreas operacionais, como saúde e transportes, e também financeiro, suprimentos, recursos humanos, jurídico, contabilidade e a central de serviços compartilhados. É uma engrenagem importante para a sustentação dos produtos e conteúdos que chegam ao público.

Para ela, a marca mantém uma essência rara. “É uma empresa feita de pessoas que faz produtos para as pessoas.” Define o grupo como autocrítico, sempre buscando fazer melhor e diferente. Ao longo das décadas, acompanhou modernizações, mudanças estruturais e inovações digitais. “São mais de 30 anos em diversas empresas porque o grupo é assim, não perde a essência, mas se moderniza.”

Defende que a área que lidera precisa estar sempre muito atenta ao mercado, aos novos modelos, aos avanços processuais e tecnológicos. Quando questionada sobre o futuro, garante que ainda tem muito a fazer por lá. “A RBS é um negócio inexplicável, a atração que eu sinto pela empresa.” Confessa que já pensou se deveria mudar de rumo, mas a renovação constante a mantém satisfeita e com desejo por mais. 

Maturidade

Admite seus limites e tem buscado ser menos braba, característica notável de sua personalidade. Em contrapartida, também reconhece suas qualidades e considera-se uma pessoa alegre e positiva. 

Já quis ter tudo, se jogar em todas as oportunidades, porém diz que a maturidade a fez mudar de visão. O que não tem preço agora é curtir o que já conquistou e aproveitar o tempo com as pessoas e coisas que mais gosta. Não abre mão dos almoços de domingo com a família, adora se reunir com os irmãos, as sobrinhas e a mãe. Deleita-se com um passeio de bicicleta pela Orla do Guaíba com Péricles. Aprecia leituras em inglês para praticar o idioma. E também curte assistir a um filme ou uma série divertida.

E nisto entra, além das viagens para visitar as filhas nos Estados Unidos, também curtir com Péricles as idas a Milão, onde a filha dele mora. Ama a praia e tem boas recordações da infância, quando veraneava em Torres. Tem nos planos fazer um cruzeiro, dar a volta ao mundo, conhecer os lugares onde os pés ainda não pisaram. “Mas, independentemente de qualquer coisa, sou muito realizada, pessoal e profissionalmente”, assegura.

Autor

Shállon Teobaldo

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