Poucos profissionais de rádio podem dizer que ajudaram a contar a história de um dos maiores clássicos do futebol brasileiro lance a lance. Menos ainda conseguem fazê-lo durante tantas décadas, com a mesma paixão e voz marcante que atravessou gerações de torcedores. No último fim de semana, quando a bola rolou para o 450º GreNal da história, primeiro jogo da final do Campeonato Gaúcho de 2026, o clássico também reservou um capítulo especial para um de seus narradores mais emblemáticos: Haroldo de Souza.
A partida marcou o 200º GreNal narrado pelo comunicador da rádio Grenal. Ao longo dessa trajetória, Haroldo esteve presente em 75 vitórias do Internacional, 63 triunfos do Grêmio e 62 empates, acumulando memórias, gols históricos e emoções que ajudaram a moldar a narrativa do clássico no rádio gaúcho. Em entrevista exclusiva ao Coletiva.net, o narrador relembrou momentos da carreira e falou sobre o significado de alcançar essa marca em um dos confrontos mais emblemáticos do futebol brasileiro.
Para ele, alcançar essa marca representa tudo na carreira de um narrador em uma cidade que respira o clássico entre os dois clubes. “É uma marca difícil de ser batida. GreNal é um jogo de 90 minutos de uma vida”, comentou. O primeiro clássico foi narrado no Estádio Olímpico Monumental. Ele relembra que estava nervoso e com medo que não desse conta, suava frio. “Sendo observado pelo Nelson Sirotsky, diretor da Rádio Gaúcha. Foi uma tremedeira só até firmar a voz e a velocidade”, disse.
O GreNal de número 214, em 29 de setembro de 1974, lhe deixou recordações e o que mais lhe marcou foi ver a celebração que viu no estádio e nas ruas da cidade. “Tricolores e Colorados em uma festa magnífica para os meus olhos e sentimentos”, contou o comunicador. Segundo ele, com o passar do tempo, foi perdendo a velocidade natural da narração, e os pulmões acabaram castigados pela asma e o cigarro. “Se não fumasse e vivesse 100 anos, narraria até lá”, relembrou.
Todos os clássicos foram inesquecíveis, e o narrador guarda cada um deles com emoção. Ele revela que os dias que antecedem o GreNal sempre foram reservados para cuidados com a voz. “No entanto, agora nem com os cuidados que tenho, não consigo resgatar as emoções já vividas. O fim se aproxima”, antecipou.
Trajetória de Haroldo
Natural de Jacarezinho, no Paraná, Haroldo iniciou a carreira como radialista em 1960. Em 1974, deixou Belo Horizonte e chegou à capital gaúcha. Seu primeiro jogo narrado envolvendo a dupla GreNal foi o 214º clássico, em 29 de setembro daquele ano. Até então, o narrador ainda não conhecia o GreNal.
Acostumado a cobrir clássicos desde os tempos na capital mineira, Haroldo percebeu a dimensão da rivalidade gaúcha. De acordo com matéria da TV Pampa, foi no segundo jogo da dupla, em 1975, que ele lançou a frase que se tornaria marcante: “Estou realizando, em Porto Alegre, o maior clássico do futebol brasileiro”.
Ainda em vídeo publicado pela rádio Grenal, Haroldo recordou que, no segundo jogo narrado da dupla, ele fez uma previsão sobre a trajetória: “Eu vou atingir a marca de 200 na minha carreira aqui no Rio Grande do Sul”. Conforme ele, na época muitas pessoas questionaram a projeção, lembrando que ele havia narrado apenas duas partidas e já planejava um número tão distante, questionando até quando será que ele viveria e trabalharia.
Desde o último domingo, o narrador celebra a marca alcançada e que a previsão feita anteriormente se realizou. Hoje, com uma caminhada que totaliza mais de cinco décadas, Haroldo é uma voz reconhecida no rádio esportivo brasileiro.
Homenagem
A tarde do jogo foi ainda mais especial com as homenagens que Haroldo recebeu ao longo do dia. Na chegada à cabine, o narrador foi surpreendido pelos colegas da Rede Pampa, que lhe presentearam com um troféu especial, registrando a marca de 200 clássicos narrados. Ao longo da tarde, ele recebeu também uma placa comemorativa pelas mãos do presidente da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg), Rogério Amaral, representando a entidade.
Na zona mista da Arena, o presidente do Sport Club Internacional, Alessandro Barcellos, prestou tributo ao comunicador ao entregar uma camisa personalizada com o número 200 nas costas, além de uma placa alusiva à trajetória de Haroldo. De volta à cabine das transmissões, o presidente gremista, Odorico Roman, o esperava para lhe presentear com uma camisa oficial do clube, celebrando a marca de 200 clássicos narrados.


One Comment
Muito craque.