Perfil

Camila Morales: A professora da criatividade

Docente há mais de 20 anos, Camila Morales demonstra que seu carisma se confunde com sua criatividade

Docência na veia, pedagogia que acolhe. Ensinar é comunicar e Camila Morales entendeu que o mundo é de quem se renova e corre atrás de novos percursos — às vezes, colocando a cabeça com medo mesmo, mas sem faltar força de vontade. A gaúcha de Santana do Livramento é publicitária de formação, mas foi na sala de aula que encontrou sua âncora profissional e que aliou duas paixões: o gosto por ensinar e a Comunicação.

Mas a profissional também percebeu que, com o passar do tempo, defender os próprios sonhos e colocar vontade nos sentimentos poderia alterar os rumos. Sem freios, buscou o protagonismo da história, mesmo que isso representasse sair do interior do Estado para ir à Europa, mais com incertezas do que com caminhos alumiados. E deu certo. Sem deixar o bom humor de lado, vale ressaltar.

A jovem que sonhava com a Inglaterra

Aos 17 anos, saía de casa a jovem da campanha gaúcha para viver em um centro regional maior. Os destinos eram Santa Maria e a universidade federal. O curso? Publicidade e Propaganda. Nesse ínterim, uma figura decisiva para a vida da então acadêmica e recém-egressa do sistema escolar fazia valer um eco reflexivo: o pai da jovem, Seu Edílio (in memoriam). “Essa ideia de [ter]  pensamento crítico eu trouxe muito de casa”, conta ela, que constantemente era desafiada por ele sobre a diferença que poderia, ou deveria, deixar com sua existência. 

“O meu pai dizia assim: ‘o que tu vais fazer do teu diploma?’. Nunca era uma questão ‘como tu vais ganhar dinheiro com o diploma?’, mas ‘como tu vais impactar o mundo?’”. Ela afirma: ele sempre deu força para a publicidade e foi um dos grandes incentivadores de seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Mais um de seus questionamentos corroborou para a motivação de Camila em entender a importância da Publicidade: “Ele dizia: ‘Todos os discursos do mundo, todas as causas, precisam de persuasão’”. E essa voz de Seu Edílio que ecoava fez com que ela levasse adiante esse entendimento como a persuasão sendo a grande especialidade do mundo publicitário e o plot twist das transformações. 

Ela faz questão de dizer que isso a encorajou a explanar a área com essa opinião e a explorá-la como uma arte do convencimento. “A gente tem esse poder de encantar aspectos que, talvez, as pessoas não estejam olhando”, reforça.

A graduação durou até os 22 anos, quando, formada, mudou-se para Porto Alegre. As primeiras experiências de trabalho na capital do estado contaram com passagens por agências como Paim e Parla. Morando em outra cidade e já com curso superior concluído, algo ainda não bastava, pois um sonho antigo e florescido na época da adolescência martelava em seus objetivos. Com 15 anos, ela entendia que gostava de publicidade, especialmente dos aspectos visuais e de arte, e que gostaria de trabalhar com algo que viria a saber que se chamava “direção de arte”. 

Já pendendo para a área comunicacional e artística, assim, soube que, em Londres, havia uma instituição chamada Central Saint Martins College of Art, faculdade que integra a University of the Arts London, em que era possível desenvolver a criatividade e os talentos pertinentes a ela. A partir disso, ir à Europa tornou-se uma meta, pois seria não só uma ampliação de carreira e um aprofundamento de estudos, mas a concretização do sonho que tinha enquanto ainda estava na escola seria uma realização pessoal. E ela conseguiu.

No entremeio dos 23 e 24 anos, desembarcava em Londres para viver uma de suas aventuras mais intensas até hoje. Metade do caminho já estava traçado, pois conseguira chegar à Europa, mas ainda havia outro obstáculo a ser ultrapassado: o custo elevado do curso. Assim, seu primeiro ano morando na capital inglesa foi de muito trabalho. 

O primeiro emprego no exterior foi como entregadora de panfletos de porta em porta. Seja como garçonete ou, ainda, fazendo sanduíches para vender, ofício que também desempenhou, o mantra era nítido: se trabalhasse durante um ano inteiro, teria o dinheiro para pagar a Central Saint Martins. E assim foi.

No segundo ano em Londres, Camila conseguiu ingressar na instituição que era o sonho de juventude. A proposta curricular compunha um período desenvolvendo a criatividade, que cumpriu. A esta altura, ela incorporava ainda mais algo que já não lhe era estranho aos ouvidos enquanto jovem guria do interior, o aspecto de ser uma pessoa criativa. O desejo era de permanecer na Europa para cumprir o total de dois anos de estudos, sendo o segundo período focado na vertente que quisesse seguir utilizando o aprimoramento em criatividade. No entanto, o Brasil a chamou de volta, e agora, para um upgrade considerável.

A migração para a docência

De Londres a Santa Maria, novamente. O retorno. E, desta vez, para um cargo de gestão. De volta ao bairro do Camobi, Camila assumiu o cargo de coordenadora de Comunicação da Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência (Fatec). “Eu me sentia muito madura naquele papel de engendrar tantos profissionais diferentes”, comenta, em se tratando de um assessoramento em Comunicação que abarcava distintas áreas que a Fatec encampa. Londres, nem remotamente, teria sido em vão.

Os padrinhos, ambos professores universitários, foram decisivos nessa etapa de vida. Indecisa se deveria participar de um concurso que surgira para docente substituta na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) — afinal, segundo ela, ser professora era o último item da lista do que gostaria de fazer na vida  —, os dois foram os grandes incentivadores. 

Assim, sem muita perspectiva ou foco, realizou a inscrição. Uma das etapas da seletiva consistia em ministrar uma aula experimental para a banca avaliadora, e o tema sorteado foi “O futuro da publicidade”. Frustrada com um possível fracasso, ela já nem cogitava mais cumprir a tarefa. Porém, em uma visita a uma livraria da região central de Santa Maria, algo chamou atenção em uma pequeníssima seção dedicada à Publicidade: uma obra intitulada ‘O Futuro da Propaganda’, de Joe Cappo. Se o sucesso se deveu a Cappo, o emprego já era dela. E o talento, que ela nem sabia que tinha, também.

A partir disso, assumir as salas de aula tornou-se cotidiano e o pilar de sua carreira. Enquanto ainda exercia o período de docência em Santa Maria, passou a se dividir na conexão com a região central do Estado — Serra Gaúcha. Foi professora no atual Unicnec, em Bento Gonçalves, onde, na época, morava o marido, o colombiano Fernando, que conhecera na Europa enquanto ele era gerente de um restaurante.

Os planos do casal os levariam a fixar residência em Porto Alegre, onde Camila consolidou sua vertente acadêmica. Especialista em Expressão Gráfica e mestre em Comunicação Social, ela soma 20 anos de experiência em sala de aula. Somente na UniRitter, já são 14, definindo-se como professora de Publicidade, mas transitando por outros cursos também, como Marketing e Jornalismo. E comenta que a criatividade, um fator tão caro a si há tanto tempo, exerce um saber singular em matéria de dar aulas.

Às vésperas dos 50 anos de idade, ela relembra que começou a docência aos 28 e que a capacidade de reinventar-se precisa ser uma constante no fazer profissional. Adepta da metodologia do Design Thinking, acredita que uma boa relação em sala de aula depende do quão o professor está disposto a compreender de forma empática os alunos e a receber os diferentes saberes que a colaboração mútua entre docentes e educandos pode render. Ela não se ilude: reconhece que existe uma passagem que demanda novos tempos e métodos. 

Segundo Camila, de quatro em quatro anos, aproximadamente, existe uma mudança geracional dos alunos que exige que o docente repense suas formas de atuar no contexto de sala de aula e para uma reconfiguração de relações, e, com isso, invoca a inovação. “Esses ciclos também servem para nos reciclar. Tudo o que eu faço na vida tem um valor que transpassa tudo, que é a criatividade. O criativo é o que não tem medo da sala escura. O processo criativo traz uma certa angústia”, diz.

Ela considera que acabou de sair de um desses momentos de angústia e de uma reciclagem quadrienal, e comemora o recebimento, ao final de 2025, do prêmio Professora do Ano no Salão da Propaganda da Associação Riograndense de Propaganda (ARP), como uma simbologia singular ao atravessar uma turbulência do tipo. A crise, de acordo com Camila, é acompanhada de questionamentos como deveria ter sido mais concreta, mais objetiva, ao encarar as novas gerações de alunos. Aparentemente, ela cumpriu bem a função.

A mãe professora e empreendedora

Se ser professor no Brasil tem uma demanda diferenciada, é na criatividade e na vida pessoal que a docente encontra refúgios e novos respiros para o lado da inovação. A filha, Cecília, de 14 anos, é um exemplo disso, e Camila preenche a voz ao afirmar que a maternidade, com o tempo, foi se tornando cada vez mais prazerosa. Se a professora, por um lado, é uma explosão dialógica e uma diva dos diálogos, debates e conversas, por outro, comenta que a filha nasceu com um lado estrategista, racional e objetivo aguçado. E a diferença entre ambas a fascina e a impulsiona, como uma complementaridade e uma simbiose que fecham o ciclo.

A criatividade vai das relações pessoais ao formato como, hoje, permite conduzir a própria carreira. Descobrindo uma afinidade com a área de formação de lideranças, decidiu empreender e criou dois cursos para a Ânima Educação: ‘Atitude Criativa’ e ‘Primeira Liderança’, em que discorre sobre fundamentos de liderar adentrando caminhos comunicacionais, criativos e inovadores. Ambos já tiveram duas edições, mas a expectativa para 2026 é diferente: trabalhar menos e dedicar mais tempo a si e a projetos especiais de que participará. “Estou assim: vou fazer o que tenho vontade”, diz, sem rodeios.

Ela, inclusive, titubeia pouco. E, quando perguntada se teria dito algo diferente para a Camila de 20 anos atrás, afirma que pensa que não deveria ter ficado tão acanhada ao debater transformações sociais. Isso porque um dos prazeres que se pode ter na vida é alargar o tempo, algo inelástico e implacável. Além disso, a intuição dela estava correta em muitos momentos. 

E, para a mulher de hoje que se projeta, afirma o empoderamento e a vontade de mudar o mundo ao seu redor — com as sempre presentes mudanças e inovações. Se não houvesse nada mais a afirmar, algo improvável a ela, cuja conversa de mais de uma hora e meia faz parecer que são meros cinco minutos, dada a qualidade do tempo, decretaria: “Eu sou uma entusiasta da criatividade, alguém que procura transformar o mundo a partir das suas habilidades, e uma delas é a docência. Eu nunca consigo deixá-la”.

Autor

Eduardo Rius

Compartilhar:

One Comment

Vera Rius

Excelente entrevista, adorei saber a trajetória de vida dela, faz a gente voltar no tempo e se perguntar muito, excelente texto Dudu,maravilhoso trabalho! Parabéns! Cada vez mais vc aprimora teu talento de jornalista!

Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.