
Certa vez, vi meu pai folhando um album de fotografias antigas de seu tempo de juventude. Me intrigou que ele, enquanto olhava as fotos, parecia distraído, distante, com a cabeça em outro lugar.
Quando perguntei no que ele estava pensando,
sorriu meio sem graça, despenteou meu cabelo e falou – mais para si do que para mim:
“- Nosso tempo é areia entre os dedos,
se vai e não volta mais…”.
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Não sei que fim levou aquele velho álbum de fotografias, mas a cena se fixou na minha memória afetiva. E quando lembro do que ouvi sobre a passagem do tempo, penso nos filófosos, escritores e poetas que tentam descrever os mistérios do tempo. O que os seus escritos e poemas fazem é reacender minhas alegrias e desventuras passadas, como os velhos álbuns de fotos de família, que nossos pais guardavam como um tesouro da memória.
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Mesmo assim, é preciso reconhecer que não há relíquias que causam tanta nostalgia do que descobrir e manusear fotografias que algiuém esqueceu no fundo de uma gaveta. Agora mesmo
em uma delas, meio amarelecida, reencontro um menino de calças curtas, que passeia pelo cais do porto de mãos dadas com o pai. Ele caminha longe da borda de pedra, deve ter medo das àguas escuras que correm para o mar.
Em uma outra foto, menos desbotada, o mesmo menino e sua irmã descem a rua junto ao pai. Ao lado, aparece a mureta de pedra da casa de dona Anita Meneghetti; era onde, nos dias 30 do mês, eu batia palmas no portão, levando o dinheiro do aluguel da nossa casa no nº 315. Não era uma das tarefas das que eu mais gostava, pois Dona Anita não era de muita conversa e nem me dava Bom Dia ou um Muito Obrigada. Acredito que era por ter um filho como governador do Estado.
Bem mais divertido era quitar o caderno do mês no Armazem Vasco, do português Joaquim. Ele andava de tamancos e usava um toco de lápis na orelha, mas sempre agradecia o pagamento e ainda me alcançava uma ou duas balas quebra-queixo. E no final do ano ou quando a conta era mais gorda, ganhava uma caixinha de goiabada cascão.
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2 Comments
Sempre uma leitura gostosa.
Sou fã.
Leila
Sempre leitura facinantes, adoro ler
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