Colunas

Areias antigas

Certa vez, vi meu pai folhando um album de fotografias antigas de seu tempo de juventude. Me intrigou que ele, enquanto olhava  as fotos, parecia distraído, distante, com a cabeça em outro lugar.

Quando perguntei no que ele estava pensando,

sorriu meio sem graça, despenteou meu cabelo e falou – mais para si do que para mim:

“- Nosso tempo é areia entre os dedos, 

se vai e não volta mais…”.

***

Não sei que fim levou aquele velho álbum de fotografias, mas a cena se fixou na minha memória afetiva. E quando lembro do que ouvi sobre a passagem do tempo, penso nos filófosos, escritores e poetas que tentam descrever os mistérios do tempo. O que os seus escritos e poemas fazem é reacender minhas alegrias e desventuras passadas, como os velhos álbuns de fotos de família, que nossos pais guardavam como um tesouro da memória. 

***

Mesmo assim, é preciso reconhecer que não há relíquias que causam tanta nostalgia do que descobrir e manusear fotografias que algiuém esqueceu no fundo de uma gaveta. Agora mesmo

em uma delas, meio amarelecida, reencontro um menino de calças curtas, que passeia pelo cais do porto de mãos dadas com o pai. Ele caminha longe da borda de pedra, deve ter medo das àguas escuras que correm para o mar. 

Em uma outra foto, menos desbotada, o mesmo menino e sua irmã descem a rua junto ao pai. Ao lado, aparece a mureta de pedra da casa de dona Anita Meneghetti; era onde, nos dias 30 do mês, eu batia palmas no portão, levando o dinheiro do aluguel da nossa casa no nº 315. Não era uma das tarefas das que eu mais gostava, pois Dona Anita não era de muita conversa e nem me dava Bom Dia ou um Muito Obrigada. Acredito que era por  ter um filho como governador do Estado.                                                 

Bem mais divertido era quitar o caderno do mês no Armazem Vasco, do português Joaquim. Ele andava de tamancos e usava um toco de lápis na orelha, mas sempre agradecia o pagamento  e ainda me alcançava uma ou duas balas quebra-queixo.  E no final do ano ou quando a conta era mais gorda, ganhava uma caixinha de goiabada cascão. 

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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