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Deus me proteja…

Existe uma frase de música que volta para mim em momentos específicos da vida, quase como um aviso que chega antes do cansaço completo:

“Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim.” (Chico César)

Sempre me impressionou como um verso tão curto consegue desmontar uma das ilusões mais confortáveis que carregamos: a de que o mundo se divide com clareza entre bons e maus, entre quem cuida e quem machuca. A vida real não respeita muito essas categorias.

Existe a maldade de gente boa. Aquela que não chega gritando, não vem com cara de violência ou crueldade. Ela aparece disfarçada de conselho, de preocupação, de cuidado excessivo. Às vezes vem de pessoas que acreditam sinceramente estar ajudando. Outras vezes vem de quem não percebe que, ao tentar organizar a vida do outro, invade um território que não é seu.

Mas também existe o outro lado do verso: a bondade da pessoa ruim. Porque até quem já nos feriu profundamente pode, em algum momento, oferecer um gesto verdadeiro. A vida é menos coerente do que gostaríamos. As pessoas também.

Talvez por isso a primeira parte da frase seja a mais importante: “Deus me proteja de mim”.

Porque, antes de tudo, existe algo em nós que também precisa ser cuidado. A nossa dificuldade de impor limites. A tendência de permanecer em lugares que já nos diminuem. A vontade de agradar mesmo quando o corpo inteiro pede distância.

Dizer não é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta. Não apenas porque temos medo de decepcionar alguém, mas porque fomos ensinados a confundir disponibilidade com generosidade. Como se estar sempre acessível fosse sinal de bondade. Como se colocar limites fosse falta de afeto.

Com o tempo, a gente aprende que energia também é um recurso finito. Que não dá para estar em todos os lugares, para todas as pessoas, em todos os momentos. E que proteger a própria energia não é egoísmo: é sobrevivência emocional.

Aprender a dizer não é, muitas vezes, aprender a escolher onde o nosso corpo pode descansar.

O tempo vai ensinando outra coisa: vale a pena guardar energia para quem também nos protegeria. Para quem nos escuta sem transformar nossa vulnerabilidade em espetáculo. Para quem sabe ficar sem invadir. Para quem entende que presença não é controle.

E talvez seja esse o verdadeiro sentido da frase: não se trata de temer as pessoas. Trata-se de aprender a cuidar do lugar onde a gente decide ficar.

Autor

Luan Pires

Luan Nascimento Pires é jornalista e pós-graduado em Comunicação Digital. Tem especialização em diversidade e inclusão, escrita criativa e antropologia digital, bem como em estratégia, estudos geracionais e comportamentos do consumidor. Trabalha com planejamento estratégico e pesquisa em Publicidade e Endomarketing, atuando com marcas como Unimed, Sicredi, Corsan, Coca-Cola, Auxiliadora Predial, Deezer, Feira do Livro, Museu do Festival de Cinema em Gramado, entre outras. Articulista e responsável pelo espaço de diversidade e inclusão na Coletiva.net, com projetos de grupos inclusivos em agências e ações afirmativas no mercado de Comunicação. E-mail para contato: [email protected]
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