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A máquina do ódio

“Vender discórdia é o negócio mais fácil da internet.”

Há mais de um ano, eu venho dedicando o meu tempo a estudar um fenômeno que cresce silenciosamente na internet: os movimentos conhecidos como Redpill e Incel. E quanto mais eu observo esse universo, mais temeroso eu fico.

Redpill e Incel são conceitos que surgiram em comunidades da internet e que, embora diferentes, frequentemente se misturam. O termo Redpill vem da ideia de “tomar a pílula vermelha”, expressão popularizada pelo filme The Matrix, que significaria enxergar uma suposta “verdade oculta” sobre as relações entre homens e mulheres. Nessa narrativa, os homens seriam manipulados por um sistema social que favorece as mulheres. Já Incel é a abreviação de involuntary celibate (celibatário involuntário) e descreve homens que afirmam não conseguir ter relacionamentos ou vida sexual, atribuindo essa frustração às mulheres e à sociedade. Em muitos espaços online, essas ideias acabam se radicalizando e se transformando em comunidades marcadas por ressentimento, misoginia e discursos de ódio.

O que existe ali não é apenas um grupo de homens frustrados discutindo relacionamentos. Existe um ecossistema organizado de conteúdo, comunidades e influenciadores que trabalham, quase sempre de forma gradual, para capturar jovens, principalmente adolescentes e lucrar em cima da dor alheia.

Funciona como um gotejamento.

Primeiro aparece um vídeo falando de frustração amorosa. Depois outro sobre rejeição. Em seguida surge a ideia de que “as mulheres manipulam”, que “os homens são vítimas”, que existe um jogo social no qual eles sempre sairão perdendo. Aos poucos, uma frustração pessoal vira teoria de mundo. E quando se percebe, aquela dor individual já foi transformada em ressentimento coletivo.

Nesse processo, tudo vira prova contra as mulheres. A roupa que ela veste. A foto que publica. A tatuagem que tem. O comportamento em uma festa. Pequenos elementos passam a ser tratados como evidências de traição, manipulação ou caráter duvidoso. A lógica é simples e perigosa: se algo deu errado na vida emocional daquele jovem, a culpa precisa ser de alguém. E esse alguém passa a ser o gênero feminino.

Esse tipo de construção mental cria um combustível poderoso: o ódio. E isso não é apenas teoria.

Desde 2014, ao menos uma dúzia de ataques violentos ao redor do mundo foram ligados diretamente à ideologia Incel, deixando dezenas de mortos e mais de uma centena de feridos. A maioria das vítimas são mulheres e os autores, quase sempre, homens muito jovens, geralmente com menos de 20 anos.

Um dos casos mais emblemáticos aconteceu em 2014, na Califórnia, quando um jovem matou seis pessoas após publicar um manifesto de ódio contra mulheres, episódio que se tornou uma espécie de símbolo para comunidades Incel na internet.

Depois vieram outros episódios semelhantes. Em 2020, no Canadá, um adolescente atacou pessoas em um salão de massagens motivado explicitamente por essa ideologia misógina, caso que a Justiça classificou como terrorismo.

Pesquisadores e centros de estudo sobre radicalização já tratam o fenômeno como uma nova forma de extremismo violento, alimentado por comunidades online que incentivam ressentimento, desumanização e glorificação de assassinos.

O problema é que isso está crescendo.

Estudos recentes mostram que esses grupos vêm se adaptando às regras das plataformas digitais, disfarçando discursos misóginos com linguagem de “autoaperfeiçoamento” para escapar da moderação e alcançar públicos cada vez mais jovens. Ou seja, não estamos falando de fóruns obscuros perdidos na internet. Estamos falando de um processo de recrutamento que acontece dentro das próprias redes sociais que milhões de adolescentes usam todos os dias.

Existe hoje uma verdadeira horda silenciosa capturando meninos. Meninos que ainda estão formando sua visão de mundo, sua identidade e sua forma de lidar com frustrações E quando essa formação acontece dentro de ambientes baseados em paranoia, ressentimento e desumanização das mulheres, o resultado pode ser devastador. Quem nunca passou por uma desilusão amorosa na juventude e achou que não ia suportar? É nessa dor do teu filho, que esses canalhas agem.

O mais assustador é o silêncio.

Pouco se fala sobre isso nas políticas públicas. Quase nada se discute nas escolas. E raramente vemos governos tratando o tema como um problema real de segurança social. Enquanto isso, o conteúdo continua circulando. Os grupos continuam crescendo. E novos jovens continuam sendo radicalizados.

A verdade é dura, mas precisa ser dita.

Existe hoje, operando nas redes, uma máquina digital de produção de ódio. Uma máquina que transforma frustração em ressentimento, ressentimento em misoginia e misoginia em violência. E os donos dessas máquinas transformam isso tudo em dinheiro para o bolso deles. Vendem cursos, eventos e o que puderem. Usam o ódio como combustível para matar e lucrar ao mesmo tempo.

Essa máquina já começou a produzir assassinos. E se nada for feito, ela vai continuar funcionando. Cada vez mais rápido, cada vez mais eficiente e cada vez mais devastadora.

O mais alarmante é que esse não é um fenômeno brasileiro. É um fenômeno mundial. Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e países europeus já registraram ataques e investigações ligadas a essa ideologia. Mesmo assim, pouquíssimos governos parecem compreender a dimensão do problema. Ignorar isso hoje é permitir que essa máquina continue operando. E quanto mais tempo ela funcionar sem enfrentamento, mais vidas ela terá capacidade de destruir.

Por isso, é urgente que a sociedade encare esse fenômeno de frente.

É urgente que o debate público comece.

E é urgente que políticas sérias sejam criadas para desmontar, enfraquecer, desabilitar e destruir essa máquina antes que ela produza a próxima tragédia. E ela pode ser dentro da tua casa, com o teu filho sendo o assassino ou a tua filha sendo a vítima.

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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