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O que eu precisei esconder

Eu aprendi cedo a performar. Aprendi que ser quem eu era podia custar caro demais. Então eu ajustei, diminui, arredondei. Apaguei um pouco aqui, escondi outro pedaço ali. E quando percebi já não sabia mais o que era adaptação e o que era abandono.

Eu lembrei de quando era criança. E, ao mesmo tempo, demorei muito pra lembrar. Porque lembrar dói. Eu era diferente. E todo mundo sabia. Principalmente os meninos. Eles sabiam antes de mim. Sabiam e apontavam e riam e faziam questão de me lembrar. E os adultos não faziam nada. Nenhum professor me defendeu. Nenhum adulto disse “isso não está certo”. O silêncio deles era uma autorização.

Então, eu entendi, do jeito mais duro possível: eu era o problema. E se eu era o problema, eu precisava me consertar. Comecei a estudar futebol. Sim, estudar. Ler sobre times, jogadores, campeonatos. Não porque eu gostava, mas porque eu precisava sobreviver. Eu queria entrar na conversa. Queria não ser o estranho. Queria que, por alguns minutos, ninguém olhasse pra mim como alguém fora do lugar.

Fui aprendendo. Aprendi a falar o suficiente, a rir na hora certa, a não exagerar, a não chamar atenção demais. Aprendi a ler as pessoas. A perceber o clima antes da palavra, a entender o que podia ou não ser dito, a antecipar reações. Eu aprendi a me controlar. E isso ficou. Ficou no meu corpo, ficou no meu jeito de existir.

Mesmo depois de adulto. Mesmo rodeado de amigos. Mesmo sendo, hoje, alguém que se comunica, que escreve, que fala. Eu ainda lembro de um colega no Ensino Médio que implicou comigo por um ano inteiro. Eu tremia só de entrar na sala. Eu tinha amigos, tinha gente que gostava de mim. Mas, ninguém falava nada. Porque também tinham medo. E o medo, quando se espalha, vira regra.

Então eu segui fazendo o que eu sabia fazer melhor: me adaptando. E, de algum jeito torto, isso também me construiu. Me fez alguém que olha pra dentro, que analisa o que sente, que entende o outro, às vezes até antes dele falar. Me fez alguém que escreve, que tenta organizar o caos em palavras.

Mas também me deixou um buraco. Um daqueles que ninguém vê. E que nenhuma validação externa preenche.

Porque não era pra ter acontecido. Não era pra uma criança precisar se esconder pra existir. Não era pra eu achar que tinha algo errado comigo. Não tinha. Nunca teve. E entender isso demora. Perdoar a mim mesmo por ter me moldado demora mais ainda. Porque chega um momento em que eu preciso me olhar no espelho e dizer: eu não sou errado. Errado foi o que fizeram comigo.

E isso não apaga, mas muda o peso.

Então, se você tem um filho, cuida. Porque aquilo que parece “diferente” hoje é exatamente o que pode fazer ele brilhar amanhã.

E se você foi essa criança, saiba: você não está sozinho. Tem muita gente por aí sorrindo… e lutando por dentro.

Eu sigo tentando fazer justiça por mim mesmo. Nem como herói, nem como vítima. Só como alguém que foi machucado… e que ainda está aprendendo, devagar, a não se machucar mais.

Autor

Luan Pires

Luan Nascimento Pires é jornalista e pós-graduado em Comunicação Digital. Tem especialização em diversidade e inclusão, escrita criativa e antropologia digital, bem como em estratégia, estudos geracionais e comportamentos do consumidor. Trabalha com planejamento estratégico e pesquisa em Publicidade e Endomarketing, atuando com marcas como Unimed, Sicredi, Corsan, Coca-Cola, Auxiliadora Predial, Deezer, Feira do Livro, Museu do Festival de Cinema em Gramado, entre outras. Articulista e responsável pelo espaço de diversidade e inclusão na Coletiva.net, com projetos de grupos inclusivos em agências e ações afirmativas no mercado de Comunicação. E-mail para contato: [email protected]
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