Eu ia começar esse texto com uma frase melhor. Uma dessas que já nascem prontas para circular, com vocação para ser retirada do corpo do texto e sobreviver sozinha. Uma frase que não depende de nada porque já foi escrita para chamar a atenção. Mas, parei.
Parei porque essa frase, antes mesmo de existir, já estava negociando. Já estava tentando caber. Pensando em quem iria ler, em quanto tempo ficaria lendo, em onde poderia ser mais bem estruturada para durar aos olhos dos outros. Eu não estou sozinho nessa.
A gente já não escreve mais para dizer alguma coisa. A gente escreve para engajar. Vender, Performar. Embrulhar uma personagem. Antes de qualquer ideia, vem o cálculo. Antes de qualquer risco, vem o ajuste. A frase já nasce domesticada, treinada para não incomodar demais, não exigir demais e não perder ninguém no caminho. No meio disso, o texto até acontece, mas alguma coisa fica para trás.
Eu sempre tive uma mente caótica e escrever sempre foi meu modo de desacelerar isso, de dar alguma forma ao excesso. Mas, parece que objetivamente o motivo mudou. Precisamos escrever como quem presta contas. Cada frase parece precisar justificar a própria existência, provar que é útil, clara e relevante. A escrita foi sendo tomada por uma lógica que não é exatamente a da linguagem, mas a da performance. Quem trabalha com comunicação aprende isso cedo: é preciso prender atenção, é preciso ser eficiente. É preciso entregar.
Só que, aos poucos, tudo vira entrega. A linguagem fica limpa, direta, estratégica e começa a se parecer demais com qualquer outra coisa que não seja você. Soa mais como uma repetição bem executada. Quando tudo precisa ser imediatamente compreendido, não sobra espaço para o que demora, para o que escapa, para o que não fecha. E é justamente aí, nesse intervalo meio desconfortável, que alguma coisa verdadeira costuma acontecer tanto para quem escreve quanto para quem lê. Mas isso não performa tão bem.
O mais inquietante é perceber que não é mais preciso alguém cobrar. A gente mesmo se antecipa. corta antes de ser cortado, simplifica antes de ser rejeitado, organiza antes mesmo de entender. O pensamento vai ficando cada vez mais parecido com um texto pronto. A gente performa profundidade, performa autenticidade, performa até vulnerabilidade desde que ela venha organizada, compreensível, compartilhável. Mas, vulnerabilidade de verdade não cabe direito nisso.
Ela falha, hesita, se contradiz, não fecha. No entanto, é dela que alguma coisa ainda pulsa.
A gente tem aceitado demais e me incluo nisso. Aceitado formatos, ritmos, expectativas, métricas. Aceitado que a escrita precise provar alguma coisa o tempo inteiro. Enquanto isso, vamos desaprendendo a sustentar o que não funciona de imediato. Mesmo aqui, agora, escrevendo isso, sei esse texto já nasce atravessado por essa consciência, por esse cálculo que nunca desaparece completamente. Mas ainda assim, tem uma escolha de não deixar que tudo passe por esse filtro. De escrever mesmo quando não encaixa, mesmo quando não performa, mesmo quando não há garantia de retorno.
No fim, talvez a pergunta não seja sobre escrita. Talvez seja sobre o que a gente está disposto a perder para continuar sendo visto. Se ninguém estivesse olhando, você ainda escreveria que você escreve?


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