Perfil

Mary Silva: Reinvenção e representatividade

Da palavra escrita à reportagem que entra nas casas, a jornalista da RBS TV vem construindo uma trajetória marcante

A imagem da mulher preta ocupando espaços de visibilidade ainda provoca comentários que misturam surpresa e admiração exagerada. Mary Silva aprendeu cedo a reconhecer esse olhar e a questioná-lo. Na infância e adolescência, assistia televisão como tantas outras meninas brasileiras, mas guardava uma referência que atravessaria o tempo. “Até hoje, infelizmente, ouço de pessoas mais velhas falando coisas do tipo ‘A Glória Maria conseguiu estar lá’, como se a mulher negra precisasse de uma gincana, um merecimento exacerbado”, observa, refletindo sobre a forma como a presença feminina negra em posições de destaque ainda é tratada como exceção.

Hoje, aos 42 anos, a repórter da RBS TV entende que cada matéria exibida carrega mais do que informação. Carrega também representatividade. O cabelo crespo, as tranças e as tatuagens, elementos que antes seriam vistos como obstáculos, fazem parte de uma mudança que acompanha com atenção e orgulho. A adoção de políticas de diversidade nas empresas de Comunicação vem abrindo possibilidades que antes pareciam inalcançáveis. Ao ocupar esse espaço, sabe que não está ali apenas por si mesma. Cada vez que seu rosto aparece na tela, traz consigo o peso simbólico de representar outras milhares de meninas negras, que também estão quebrando barreiras em busca de seus espaços no mercado de trabalho. 

Antes mesmo de imaginar que um dia pisaria em uma redação de televisão, já demonstrava sinais claros de que sua relação com as palavras seria duradoura. Alfabetizada aos quatro anos de idade, cresceu cercada por livros e narrativas. Gostava de escrever, imaginar e registrar acontecimentos. “Na adolescência, descobri que gostaria de escrever pra sempre, de me comunicar com as pessoas.” 

A escolha pelo Jornalismo acabou surgindo de forma natural, mas não sem resistência. Em uma família ligada ao setor metal mecânico, o pai, Carlos (falecido), acreditava que a filha deveria seguir pela Engenharia. “Ele fez até uma campanha pra tentar me convencer a escolher o outro curso”, relembra, sorrindo. A mãe, Lena, no entanto, foi quem sustentou a decisão da jovem que insistia em trilhar aquilo que fazia sentido para si. Em 2006, formou-se pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). 

Responsabilidade com as palavras

Ainda estudante, encontrou no interior do Estado sua primeira experiência prática. O estágio no Jornal Ibiá, em Montenegro, foi mais do que um aprendizado técnico, representou uma imersão em um tipo de trabalho que exige criatividade e rapidez. Em redações menores, aprendeu que o repórter precisava ser múltiplo, capaz de apurar, escrever, fotografar e improvisar. Mal sabia que, anos depois, perto ou longe dos grandes veículos, a habilidade de ser múltipla seria requisito indispensável.

As pautas eram tão diversas quanto imprevisíveis. Entre situações curiosas, uma ficou marcada na memória: a investigação sobre cachorros que estavam sendo envenenados com pedaços de linguiça. O caso, ao mesmo tempo estranho e perturbador, exigia atenção e responsabilidade. Ali, compreendeu que o Jornalismo lida diretamente com a vida das pessoas e que cada linha escrita pode ter consequências reais.

A vivência no Interior também revelou a intensidade da política local e a proximidade entre imprensa e comunidade. Era impossível passar despercebida. Cada texto exigia cuidado redobrado, senso crítico e, sobretudo, empatia. “Tirando a parte da faculdade, os desafios da reportagem seguem os mesmos, de correr atrás da informação, fazer uma apuração criteriosa. E, às vezes, é um 7 a 1, temos que nos virar”, comenta.

Outro momento marcante dessa fase foi a passagem pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), onde teve contato com a assessoria de imprensa e conviveu com profissionais que se tornaram referências. Recorda com gratidão as lideranças que encontrou ao longo do percurso, pessoas que ensinaram não apenas técnicas, mas formas de observar o mundo com atenção e respeito.

Carreira diversa

Após a formatura, ingressou no Grupo Sinos e passou a atuar no Jornal NH. Era um período de transformação no Jornalismo brasileiro. A internet começava a se consolidar como plataforma informativa, mas ainda havia desconfiança. O público confiava no papel e muitos profissionais resistiam ao digital. Produzir conteúdo para a web nesse contexto foi, muitas vezes, um exercício de tentativa e erro. O aprendizado foi intenso e moldou sua capacidade de adaptação, característica que se tornaria essencial ao longo da carreira.

Durante cerca de sete anos lá, também teve experiências nos núcleos de Moda e Negócios. Foi nesse período que descobriu um ramo com o qual se identificaria profundamente. Desde criança, demonstrava interesse por estética e estilo. As brincadeiras com bonecas, roupas e combinações revelavam um olhar atento para detalhes e composições.

Mas o interesse pela Moda nunca foi apenas por beleza externa. Era também uma forma de comunicação. Desde cedo percebeu que a imagem também conta narrativas, seja na escolha de uma roupa, em um enquadramento ou na maneira como alguém se apresenta ao mundo. “A Moda é onde me encontro com mais segurança no Jornalismo”, afirma. Esse olhar cuidadoso para aspectos visuais, desenvolvido ao longo da vida, acabou se tornando um aliado importante quando passou a lidar com câmeras e narrativas visuais, primeiro em vídeos para redes sociais e, desde 2023, nos telejornais da RBS TV. 

Essa afinidade abriu portas para experiências em diferentes frentes. Atuou com Marketing, integrou equipes em empresas do setor calçadista e participou de projetos editoriais voltados à Moda e Comportamento. Trabalhou também no Canal Rural, acompanhando temas ligados ao agro e à cadeia produtiva do tabaco. No Correio do Povo, participou da criação do primeiro site do jornal, assumindo o papel de editora em um período de mudanças tecnológicas profundas.

Vieram ainda passagens por agências e empresas privadas, incluindo uma experiência marcante como head de comunicação interna durante a pandemia. O período exigiu reinvenção constante e, em meio às incertezas globais, encontrou novas formas de comunicar, dialogar e construir vínculos.

Em fevereiro de 2022, uma nova oportunidade surgiu quase por acaso. Uma amiga que ocupava um cargo editorial em Donna, também do Grupo RBS, decidiu mudar de cidade e sugeriu seu nome para a vaga. O convite foi recebido com cautela e curiosidade. Não havia garantia de que daria certo, mas existia vontade de tentar. A entrevista confirmou a impressão de que aquele poderia ser um novo começo. O retorno ao jornalismo diário reacendeu um entusiasmo antigo. 

Trabalho em equipe

A transição para a televisão reanimou um gosto antigo dentro de Mary. A rotina intensa, as pautas e entrevistas foram se tornando tanto familiares quanto renovadoras. O território era desconhecido, mas decidiu arriscar e garante que está muito realizada. “Um mundo completamente novo, o contato com as pessoas na rua é surreal. Todos os dias eu penso sobre isso, estar na casa dos gaúchos, falando sobre algo em que eles vão acreditar. É uma responsabilidade imensa”, pontua. 

Em um processo contínuo de aprendizado, pondera que o maior deles é estar sempre em equipe. Mesmo com mais de 20 anos de profissão, não tem arrogância de pensar que sabe tudo. Explorando um universo diferente, permite-se diariamente observar, ouvir os colegas mais experientes em televisão e praticar muito para sempre melhorar. 

Essa consciência muda a forma como nota cada ambiente. Antes de falar, escuta. Antes de gravar, repara atentamente. Cada detalhe importa: o tom de voz, o olhar de quem concede entrevista, o silêncio entre uma frase e outra. São nesses intervalos e nuances que as histórias ganham vida e a informação se transforma em agente de transformação. 

Desafio

Entre as coberturas mais desafiadoras, as enchentes de 2024 ocupam um lugar definitivo na memória. Com apenas um ano de experiência na televisão, viu-se diante de uma situação extrema. “Foi difícil, mas aprendi muito como jornalista.”

Durante semanas, ficou ilhada em Novo Hamburgo, onde mora, enquanto produzia matérias em meio a um cenário de destruição. O trabalho exigia resistência física e emocional. Eram jornadas longas, muitas vezes sem estrutura básica, pois tudo havia sido levado pela chuva. A lama, os destroços e a incerteza tornavam cada deslocamento um desafio. A RBS enviou uma equipe para ficar hospedada na cidade e, durante cinco semanas, essa foi a rotina diária da repórter. 

No ano seguinte, o reconhecimento veio em forma de prêmio. Uma matéria sobre moradia digna rendeu o Prêmio ARI de Jornalismo em 2025, conquista que simboliza não apenas mérito individual, mas também o valor de pautas que revelam desigualdades sociais muitas vezes invisíveis e abrem espaço para debates sobre elas. “Ser jornalista nos escancara muitas realidades”, afirma, refletindo sobre o impacto que o trabalho provoca em quem o exerce.

Raízes

Se a vida profissional é marcada por mudanças e frios na barriga, a esfera pessoal revela vínculos que sustentam sua caminhada. Cresceu em um ambiente onde o trabalho era visto como valor essencial. Além dos pais, tem o padrasto, Erni, que ocupa um lugar afetivo importante. Tem uma irmã mais nova, Michele, pedagoga, com quem compartilha boas histórias. Como toda criança e adolescente, tiveram suas brigas. “Eu pedi muito uma irmã e depois me irritou um pouco porque a mãe queria que eu levasse ela junto pra todo canto”, conta, brincando. Quem as vê juntas, hoje, nem diz que isso aconteceu. São grandes amigas e Mary é madrinha dos sobrinhos Maya e Theo.

A maternidade surgiu como uma surpresa transformadora. Mãe de Leo, que completou 18 anos no último dia 3 de abril, encontrou no filho a realização de algo que nem sabia que queria tanto. “Ele é a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, elogia. Parceiro, tranquilo e maduro para a idade, nas palavras da mãe-coruja, o jovem sempre a ajudou muito e nunca foi empecilho para que ela seguisse desenvolvendo seu lado profissional. 

Longe do microfone e das câmeras, encontra refúgio em atividades simples. O cuidado com plantas se tornou um hábito quase terapêutico. Entre vasos e mudas, construiu um pequeno jardim dentro do apartamento. Cuidar delas é também um exercício de paciência. Regar, observar o crescimento lento e esperar pelo florescer são gestos que contrastam com a urgência do cotidiano jornalístico. Uma curiosidade é que também já trabalhou com eventos e, até hoje, adora montar arranjos florais. Na família, já ficou conhecida como a “louca das plantas”.

Além disso, também prioriza o cuidado consigo mesma. Adora treinar, faz musculação e, até a pandemia, também se arriscava em outra paixão, o ballet. Fora os telejornais, que fazem parte da rotina desde a infância, também curte assistir séries de true crime e reality shows, como Big Brother Brasil e Ilhados com a Sogra. No fone, eclética, prefere o samba, mas também explora as novidades do pop, especialmente com as indicações de Leo. 

E por falar em telejornais, depois de pensar que já tinha vivido de tudo no Jornalismo, também pôde ter momentos de realização como conhecer pessoalmente o apresentador do RBS Notícias, Elói Zorzetto. “Assistia em casa com meus pais e nunca passou pela minha cabeça que um dia eu estaria ali. Quando falei com o Elói pela primeira vez fiquei chocada, era realmente a voz que, até então, eu só conhecia como telespectadora. Despertou boas memórias”, enfatiza. 

Essência

Ao olhar para a própria caminhada, reconhece que identidade não se resume a títulos ou cargos. Ser mulher preta, mãe solo e jornalista no Brasil significa atravessar desafios cotidianos que nem sempre são visíveis. Ainda assim, mantém a convicção de que cada experiência contribui para formar uma pessoa mais consciente e resiliente.

Define-se como determinada e persistente, características que considera fundamentais para seguir em frente. Ao mesmo tempo, admite que a timidez em uma profissão que exige exposição pública às vezes é um problema. No entanto, não se deixa abater e assegura que falar na televisão tem mais a ver com técnica do que com tipo de personalidade. 

A fé ocupa um lugar silencioso, mas constante. Mais do que discurso, é presença diária. Antes de sair de casa, organiza mentalmente o dia, respira fundo e se prepara para o que vier, sejam pautas leves ou relatos difíceis de registrar. “Levanto de manhã todo dia tentando acertar, fazer o melhor que eu posso.”

A inspiração para correr atrás de seus sonhos e se entregar por inteira no que faz é a avó, Tereza (falecida), que foi uma mulher forte, firme e decidida. “Sempre quis ser como ela”, assegura Mary. Quando fala de futuro, ainda quer fortalecer sua presença no telejornalismo. Mas se reconhece algum lugar e momento da vida como os melhores do mundo, é no passado que encontra abrigo. “Minha avó era uma mulher simples, não tinha profissão, cuidava dos filhos, da família. Ela fazia as melhores comidas, feijão com arroz, cuscuz de milho, pão. O melhor lugar do mundo era a casa da minha avó.”

Autor

Shállon Teobaldo

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2 Comments

Janice Silva

Mary, querida! Parabéns por ser essa mulher maravilhosa e dedicada. Orgulho de ver você brilhando. Shalom teu texto está impecável e registrou essa história com perfeição ❤️

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