O estrangeirismo, ou melhor ainda, o anglicismo, é uma praga que nos atropela há décadas. E nestes tempos de império das redes sociais, invade ainda mais o idioma pátrio. Outro dia li uma notícia em que um cidadão é apresentado como “founder e sócio” da empresa. Me caíram os butiá do bolso, e logo pensei: se vão usar anglicismo, o certo seria “founder e partner”, pois não? O diabo é tentar entender porque o autor da frase não escreveu simplesmente “fundador e sócio”.
Os Alemers, um pequeno e divertido grupo formado por jornalistas, foi objeto de um comentário brincalhão assinado por um deles, o Márcio Pinheiro. O texto ironiza com precisão o uso excessivo de palavras que tentam conferir importância a algo que, sob uma mínima análise, revela-se apenas um vazio amontoado de bobagens. Lançou o Alemers Summit, com estas pérolas:
“Alemers fazem um meeting com o mercado e partners no Parador Alemão para mostrar seu posicionamento traduzido na renovação do portfólio de produtos e no rebranding de nossos speakers. Nossa escala é construída a partir de diferenciais, identificados em pesquisas que nortearam o planejamento da nossa plataforma: credibilidade, conexão, múltiplas soluções, resiliência, marcas e a maior rede de influenciadores. Com foco em valorizar a sustentabilidade e as pessoas, o Alemers Summit descobre e desenvolve novos talentos num ambiente que passa a ser cada vez mais horizontal. O resultado dessa combinação é um time mais simples, ágil e flexível, com a capacidade de entregar, criar e aperfeiçoar produtos inovadores.”
A brincadeira vale muito para reflexão por parte de jornalistas, publicitários e, em especial, assessores de comunicação. Formas pomposas, com o uso excessivo de palavras buscadas no juridiquês, no corporativês ou nos estrangeirismos vão soar muitas vezes como vazias. Longe de atingir o objetivo proposto pelo autor, são simplesmente frases que acabam se tornando ridículas ao abrigar termos como “disrupção”, “sinergia” ou “fomentar” aplicados a situações convencionais.
Já a Rede Globo faz as adequações que lhe interessam, mesmo que atropelando o idioma. É o caso da palavra “recorde”, que é paroxítona, ou seja, a sílaba tônica é a penúltima, certo? Mas, para não remeter diretamente ao nome da principal concorrente, a Rede Record, a Globo determina que a palavra seja pronunciada como se proparoxítona fosse, com acentuação na primeira sílaba. O resultado é que muitas pessoas, você talvez também, a pronunciam como se fosse “récorde”. Fique atento para não cair na armadilha.
Esta Globo, mesmo vivendo um lento e gradual processo de decadência, não perde a soberba nem a arrogância. Quando a rede, aí incluído o jornal O Globo, leva um furo da concorrência, e este é tão importante que se torna inevitável tratar do assunto, adota uma alternativa desleal. Registra a fonte, mas faz a ressalva imediata, tipo assim: “A informação foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pela Rede Globo”. Quer dizer, nas entrelinhas está dizendo que a informação só é verdadeira porque seus jornalistas confirmaram. Feio isso.
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As redes abrigam mensagens desaforadas, mentirosas, invasivas, desrespeitosas, ofensivas, mas tem também seus incontáveis momentos positivos. Com generosas pitadas de inteligência, como esta, muitíssimo oportuna:
“Quer acabar com alagamentos e enchentes no Brasil? Não jogue lixo nas urnas.”


3 Comments
Oi, Vieira. Oportuna a reflexão. O que dizer, então, do South Summit Brazil?
Pois é… Neste caso, temos a legítima porteira aberta para atropelar o bom senso.
Ouvi de um ex secretário da saúde de POA: ” existe um intervalo, um Gap”!
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