Hoje eu quero falar de política. É um tema que aparece pouco por aqui. Alguns podem estranhar e dizer: mas volta e meia tu estás criticando bolsonaristas. É verdade. Só que, quando faço isso, estou falando de algo maior do que política partidária. Falo de uma ideologia que carrego como principal bandeira: a liberdade.
A liberdade de viver. A liberdade de escolher. A liberdade de comprar sem precisar implorar. A liberdade de comer sem ter que se submeter a condições humilhantes.
Essa é a minha ideologia. Sempre foi.
Mas hoje quero falar, sim, de política partidária. E esse desejo nasce de um fato recente: a não escolha do Eduardo Leite pelo Gilberto Kassab como um dos candidatos à presidência da República.
Quando essa decisão foi anunciada, muita gente dos dois extremos da política brasileira comemorou. Torcedores fanáticos da esquerda e torcedores fanáticos da direita trataram o episódio como vitória. Ridicularizaram a figura do Eduardo Leite. Celebraram a exclusão dele do debate.
Eu fiquei triste. Não apenas porque gosto das ideias do Eduardo Leite, não apenas porque acredito que ele poderia ser um bom presidente, mas principalmente pelo que isso representa para a construção política do Brasil nos próximos anos.
Voltando um pouco no tempo, quando o Lula assumiu a presidência, muitos esperavam um choque direto entre políticas sociais agressivas e o neoliberalismo. Isso não aconteceu. O que houve foi outra coisa. Lula construiu uma espécie de freio. O neoliberalismo não parou de crescer, mas foi contido dentro de certos limites.
Nesse período, vimos expansão de programas sociais, fortalecimento de políticas públicas e iniciativas que permitiram que pessoas que viviam esmagadas pela sobrevivência tivessem um mínimo de escolha. Um mínimo de dignidade. Um mínimo de liberdade real.
Quando a Dilma assume, ela avança um pouco mais, especialmente com políticas de ganho real do salário mínimo e fortalecimento social. A reação foi dura. O Circo foi armado. Setores tradicionais do capitalismo brasileiro, como o agronegócio, os banqueiros e a já combalida indústria ligada a FIESP, entenderam que estavam perdendo margem. E a partir dali começa um movimento de reação. Esse processo ajuda a abrir espaço para a ascensão do bolsonarismo. Um fenômeno que cresce de forma descontrolada, até para seus próprios criadores, e acaba empurrando a política nacional para uma polarização extrema. De um lado, um radicalismo que flerta com o autoritarismo. Do outro, uma esquerda que se radicaliza como reação.
O centro desaparece. O centro-direita é absorvido pelo extremismo. O centro-esquerda é puxado para a radicalização. E o debate vira uma guerra de torcida.
É por isso que figuras de centro, com capacidade de diálogo, se tornam importantes. O surgimento de nomes como Eduardo Leite poderia trazer de volta discussões essenciais. Poderia recolocar na mesa o equilíbrio entre crescimento econômico e justiça social. Poderia reduzir o ranço político que tomou conta do país. Independente de tu concordares ou não com as ideias por ele propostas.
Quando tu tens um centro inteligente, quando tu tens um centro disposto a discutir ideias e propósitos e não somente bandeiras vazias, tu consegues fazer com que a própria esquerda melhore o seu discurso. A esquerda também é puxada para o centro, para discutir ideias, para construir, e não simplesmente para tentar sobreviver ou se defender. A direita abandona ideias fascistas e se obriga a discutir crescimento sustentável.
Mas existe outro ponto que me preocupa. Uma parte da própria esquerda que não consegue entender a importância de um nome como Eduardo Leite dentro do debate presidencial e também não percebe como o bolsonarismo se alimenta dessa ausência de diálogo. Quando a esquerda trata figuras de centro como inimigos a serem menosprezados, e não combatidos com ideias e diálogo, ela enfraquece o debate e abre espaço para que o radicalismo continue absorvendo parcelas cada vez maiores da população.
Sem debate de ideias, não existe crescimento. Principalmente num país com tantas desigualdades. O Brasil não é um país pobre, mas é um país com uma grande fatia da população vivendo na miséria. E é justamente por isso que precisamos discutir ideias, concordando ou discordando delas. Quando a política vira apenas uma disputa para ver quem grita mais alto, quem perde é quem mais precisa. Quem perde é a população carente que depende de soluções concretas e não de slogans.
A escolha pelo nome de Caiado e não de Leite faz exatamente o contrário. Ela empurra a esquerda para uma nova radicalização e mantém a direita no lugar em que ela se transformou nos últimos anos: um grupo cada vez mais extremado, preocupado muito mais em agradar interesses externos do que em discutir seriamente o Brasil.
Eu sigo triste, porque imaginava outra possibilidade. Lamento que, nos próximos meses, provavelmente estaremos discutindo conspirações em vez de ideias. Os debates com Eduardo Leite, tenho certeza, seriam mais ricos, mais propositivos, mais úteis para o país.
Lamento também pelas próximas gerações. Tenho a sensação de que perdemos uma grande chance. A chance de pular o muro do obscurantismo e voltar a enxergar uma estrada. Uma estrada que nos levasse novamente a algum lugar.
Quando o centro desaparece, a política deixa de ser construção e passa a ser confronto.
Quando o centro desaparece, o debate vira grito. Quando o centro desaparece, quem perde é o Brasil.
E talvez a maior tristeza não seja a escolha em si.
Talvez seja perceber que, mais uma vez, o país preferiu a torcida ao diálogo.


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