“A melhor vingança são as relembranças”.
Jorge Luis Borges.
Os desassossegos sempre estiveram comigo. Quando volto a ser o menino que tinha medo dos velhos casarões que existiam no bairro. Ali moravam pessoas sombrias, que não saíam à rua nem nos davam bom-dia. As janelas sem vidrosse parecem com o olhar dos tios mortos nos retratos nas paredes da fazenda do Passo Grande.
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Para mandar os pesadelos embora, eu escapulia para os meus esconderijos. Para campos verdes pontilhados de ovelhas brancas ou para o cais-do-porto, onde atracavam grandes navios oceânicos. Admirava as bandeiras que ondulavam nos altos mastros, tentando advinhar seus portos de origem.
O cais-do-porto era um território estranho, habitado por velhos marinheiros cansados que contavam estórias de proezas e aventuras nos sete mares. O meu pai achava graça naquilo, dizendo que eram apenas estórias para se contar aos peixes. E que na verdade, a vida daqueles homens era sacrificada e nem um pouco venturosa.
No bonde de volta para casa, o pai dizia que quando atracava um grande cargueiros, os estivadores faziam fila até os armazéns, passando os sacos de 60 quilos de mão em mão, enquanto entoavam marchinhas de carnaval fora de moda. E ao mesmo tempo, do alto de suas cabinas, os guindasteiros, manobravam os longos braços dos guindastes vermelhos recolhendo as cargas mais pesadas. E que não raro, despencavam das garras de aço, causando estragos e quase matando um ou outro estivador distraído.
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Em um tempo recente, mesmo sabedor que não se deve mexer com coisas passadas, voltei ao cais dos tempos de criança. Mas não existe mais aquele lugar agitado e cheio de vida. Ficou triste – as pedras de granito estão cobertas de limo, não se vê navios atracado e os armazéns foram abandonados e habitados por pombas e morcegos. Andei até o fim do cais e fiquei ouvindo o marulhar do rio que corre para o mar. Era naquele lugar que nós embarcávamos no Tritão, o rebocador que navegava pela Lagoa, a caminho das férias de verão.
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Foi então, quase indo embora, que acontece algo meio estranho e difícil de descrever. Sem mais aquela, sinto presenças – não de pessoas de carne-e-osso, mas como sombras indefinidas, como acontece nos sonhos ruins. Intrigado, sigo até o outro lado do cais, onde guindastes vermelhos descançam, se enferrujando lentamente. E me pergunto:
“O que vim fazer aqui?”.
Sem resposta, procuro a saída, mais dessassosegado do que nunca, enquanto me volta a frase que uma vez escrevi:
“Quero resgatar algo que perdi, mas não sei o que foi”.
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