Gabriel Milão Fuscaldo não se define como tímido, e talvez esteja justamente aí um traço central de sua personalidade: a pouca disposição para se limitar por rótulos. Ainda assim, há sinais dessa característica em sua trajetória. Durante uma visita familiar, enquanto morava em Buenos Aires, ouviu do tio uma observação tão espontânea quanto reveladora: “Sou tímido, assim como tu.” A frase provocou nele uma reflexão quase imediata: “Mas eu sou tímido?”
Pode não se enxergar plenamente dessa forma, mas Gabriel tampouco é expansivo por performance. Seu jeito está mais próximo da observação e da ação. Menos interessado em parecer algo, mais comprometido em simplesmente ser.
Essa recusa em nomear excessivamente as coisas parece acompanhá-lo também na vida profissional. Gabriel faz, antes de rotular. Constrói, antes de definir. Seja na personalidade ou na carreira, há nele uma tendência clara: menos preocupação com categorias, mais foco no movimento.
O homem que organiza
Porque, se há algo que define Gabriel, é menos a contemplação e mais a organização. Ele não é o homem que permanece longamente preso às abstrações; é quem pega a complexidade e a coloca em ordem. Essa característica ganhou até uma cena simbólica em sua trajetória, quando José Antonio Vieira da Cunha, um dos fundadores do Coletiva.net, mentor e referência profissional de Gabriel, riu ao vê-lo sair de uma reunião anunciando que iria “organizar a informação”. A frase virou quase um retrato involuntário.
Gabriel é esse sujeito que organiza arquivos, planilhas, metas, estruturas e processos. Gosta de pastas catalogadas, inbox zerado e controles claros. É também quem confere cuidadosamente as cartas antes de uma partida de canastra, “vai que esteja faltando alguma?”, ele explica ao exemplificar o gosto pela organização. Mas esse gesto não deve ser confundido com rigidez estética. Seu armário, afinal, não necessariamente segue o mesmo padrão impecável de suas planilhas. Sua ordem é funcional, não cenográfica.
Sinceridade sem protocolo
Ao longo da entrevista, sua sinceridade apareceu repetidamente, mas foi no encerramento que ela se confirmou de forma mais humana: espontaneamente, confessou estar cansado de responder perguntas. E isso é facilmente explicado, além de ser próximo da hora do almoço, Gabriel ainda abriu espaço na agenda em meio a um compromisso. A observação veio sem filtro, sem cálculo, apenas verdadeira. Além disso, revisitar memórias pessoais e profissionais exige mais do que narrativa; exige confronto com o passado, reflexão sobre o presente e algum exercício de imaginação sobre o futuro. Gabriel, ao que tudo indica, prefere a honestidade ao protocolo.
Construtor do próprio caminho
A trajetória profissional carrega fortemente o DNA da Comunicação. Filho de José Luiz Monteiro Fuscaldo, e neto de Carlos Attila Fuscaldo, jornalista que trabalhou por anos no Jornal do Comércio, Gabriel cresceu cercado por referências que naturalmente apontavam para esse universo. Também encontrou na mãe, Denise Milão, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) por mais de duas décadas, uma base sólida de formação e estímulo intelectual.
“Meu pai é minha grande referência. Admiro a história de vida dele, a forma como construiu relações e a rede que criou ao longo da trajetória. E dei muita sorte de ter minha mãe — ela me deu três broncas na vida, então, guri segue o que a mãe fala. Os dois foram meus grandes guias.” Mas o privilégio, em sua história, parece ter vindo sempre acompanhado de estrutura e incentivo, não de acomodação.
Ainda adolescente, ao sonhar em estudar fora do Brasil, foi levado pela mãe a uma biblioteca para entender como transformar aquele desejo em possibilidade concreta. Acabou cursando Publicidade e Propaganda na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e realizou o projeto internacional com um ano de intercâmbio em Lisboa, sustentando-se entre rotinas intensas de estudo, trabalho em agência e turnos atendendo em um café. A experiência consolidou não apenas repertório, mas também pragmatismo.
A carreira começou cedo, passando pela Starter, com Nenê Zimmermann, e ganhou dimensão internacional quando viveu em Buenos Aires, de 2011 a 2014, onde integrou a Turner, atuando com programação para canais como TCM e truTV, além da extinta agência Latin3. A experiência ampliou repertório e visão de mercado, somando-se à herança familiar e à prática profissional, que mais tarde desembocariam na liderança da Moove.
Um campo em expansão
Hoje, Gabriel parece viver duas profissões. De um lado, permanece o publicitário, gestor e articulador da Moove. De outro, emerge alguém profundamente envolvido com inovação pública institucional por meio do Gov Tech Lab. Quando questionado sobre como definir exatamente esse papel, hesitou. Não por falta de visão, mas talvez porque sua trajetória esteja justamente nesse espaço ainda em construção. Talvez seja alguém que não tem urgência em nomear tudo, apenas em construir.
Seus planos para o futuro deixam isso evidente. Sua visão para o Gov Tech Lab passa pela transformação do ecossistema público brasileiro: menos foco exclusivo em menor preço, mais abertura para inovação, tecnologia e soluções institucionais inteligentes.
Para ele, o futuro das compras públicas e da gestão governamental precisa de novos modelos e maior dinamismo. Seu desejo é participar dessa mudança de forma ativa, como articulador institucional: “Quero ser referência em inovação pública, ajudando a construir estruturas melhores, mais acessíveis e mais inovadoras.”
Entre perdas e conquistas
Entre seus maiores momentos de satisfação profissional, dois se destacam de forma emblemática: ver o Gov Tech Summit lotado em suas duas edições e perceber que uma ideia construída se consolidou como negócio real, relevante e mobilizador. Outra realização profundamente marcante surgiu dentro da própria Moove durante a revisão do código de cultura da empresa.
Foi formalizado no documento que todos deveriam ser tratados de forma igual, como colegas. A escolha dessa palavra não foi casual: nasceu diretamente da postura cotidiana de Gabriel, que faz questão de chamar todos assim, independentemente de cargos ou hierarquias.
Ao perceber que sua forma de se relacionar ajudou a moldar oficialmente a cultura da organização, Gabriel se emocionou. Ver transformado em valor institucional aquilo que sempre praticou de maneira espontânea representou, para ele, mais do que uma conquista de gestão, foi a confirmação de um princípio.
Mas sua trajetória também é atravessada por perdas profundas. A morte de Laura de Azevedo, diretora de Criação e referência humana e profissional na Moove, vítima de câncer, e a perda de Marcelo Billes, colaborador igualmente marcante, deixaram cicatrizes importantes. Foram momentos que transcenderam desafios empresariais e impactaram diretamente a história emocional da organização.
Vida pessoal
Lealdade, simplicidade e equilíbrio parecem costurar sua identidade. Surfista disciplinado, leitor apaixonado, gremista menos presente à distância, fã de rock clássico e alguém que valoriza profundamente a família, relações duradouras e estabilidade, Gabriel não performa complexidade. Seu lema talvez esteja justamente nisso: buscar o caminho do meio.
Na vida pessoal, a estabilidade que Gabriel valoriza também encontra expressão em sua relação com Caroline, sua esposa e, como ele próprio define, um verdadeiro “amor de carnaval”. Os dois se conheceram nesta época, na Praia do Rosa, há 10 anos. Entre idas e vindas, retomaram a relação em 2022 e oficializaram a união no ano seguinte.
Caroline, descrita por Gabriel como elétrica e comunicativa, representa uma parceria que combina intensidade e complementaridade. Hoje, entre rotinas exigentes, deslocamentos frequentes e a escolha por viver em Florianópolis, a relação reforça um dos valores mais centrais em sua trajetória: construir estabilidade sem abrir mão de movimento, seja nas trilhas, nos restaurantes ou nas viagens que faz ao lado de Carol.
Gabriel se mostra como alguém que organiza muito mais do que informações. Organiza pessoas, visões, culturas e possibilidades. Um profissional que constrói enquanto muitos ainda buscam definições. Um líder que prefere coerência a espetáculo. E talvez sua maior marca esteja exatamente aí: na combinação entre sinceridade, estrutura e a paciência de quem entende que coisas boas, inclusive carreiras, culturas e legados, também dependem de saber esperar.

