Vivemos uma era em que conexões digitais substituíram encontros no café para ideias soltas ou troca de conhecimento sobre o que está rolando, brainstorms ao vivo e, claro, o olhar atento do veterano sobre a ideia do estagiário. Já ultrapassamos a marca de meia década de trabalho remoto e híbrido, o que gerou profissionais adaptáveis, eficientes e tecnicamente competentes, mas também formou um buraco crescente na construção prática dos novos talentos na publicidade. Estagiários e trainees chegam com portfólios e cursos, mas sem o convívio intenso que transforma teoria em sensibilidade profissional: o “macete” da entrega, o gesto que salva uma campanha, a crítica que lapida uma ideia, a vivência que gera experiência para o relacionamento que convence.
A publicidade não é só competência técnica. É cultura de estúdio, é ritmo de prazos compartilhados, é aprender a desconstruir e recompor ideias ouvindo o outro na mesma sala. Atendimento, planejamento, mídia, produção, criação e performance dependem muito de rotinas que não se ensinam apenas em videoaulas: aprendem-se em repetições ao lado de quem já fez. A tutoria virtual frequentemente vira “apoio remoto” genérico e a ausência de referências presenciais transforma processos em atalhos solitários, engessando a transmissão de saberes tácitos que definem profissionais excepcionais.
O resultado já é visível: decisões menos calibradas, improvisos que viram vícios, dificuldade em ler códigos não-ditos do cliente e do time, perda de repertório cultural e de práticas que só se assimilam com convivência. Além disso, a avalanche de autodidatas sem orientação torna o mercado um tanto imaturo: talento cru que poderia florescer esbarra na ausência de modelos, correções imediatas e exemplos práticos de como navegar a pressão criativa e comercial.
Ei. Presta atenção. Não é apologia ao presencial ou repulsa ao remoto. Pelo contrário, os ganhos reais com a flexibilidade e inclusão são inegáveis. Neste momento a reflexão busca encontrar formas para recuperar o que perdemos. Os ritos presenciais são essenciais nas relações humanas e os rodízios de estágio em áreas distintas e momentos deliberados de imersão criativa sempre geraram profissionais mais completos. A indústria criativa precisa resgatar espaços onde o erro vira aprendizado público, onde a crítica é ato pedagógico e o ofício é passado olho no olho.
Cada vez mais percebo o reencontro dos estagiários em dias fixos, criando pares de tutoria num acordo entre presencial e virtual com metas de aprendizagem. Também já é possível notar o valor na formação quando recuperamos o calendário de reuniões criativas presenciais, incentivando chefias a dedicar horas semanais de tutoria ativa. Isso sem falar em diversas outras medidas que parecem reativar a transmissão do ofício e devolver à publicidade seu principal capital: o repertório humano e coletivo.
Somos outra geração formada por várias gerações, mas não podemos perder processos valiosos sob o risco de reduzirmos talentos profissionais que fazem sem saber “como” e “por que”. Formar talentos na publicidade é, acima de tudo, formar olhos, ritmos e hábitos que só surgem no convívio. Recolocar a presença crítica, intencional e pedagógica não é nostalgia, mas uma boa estratégia de sobrevivência criativa.
Fernando Silveira é fundador e sócio da Integrada Comunicação Total e presidente da Associação Riograndense de Propaganda (ARP).

