
“Cada vez que te revejo,
Minha cidade perdida,
Ai de mim, só o que vejo
São amores que nunca tive!”.
Camilo Castelo Branco.
Os poetas portugueses nos legaram sentidos versos sobre as cidades em que nasceram – e as que foram perdidas. Na língua inglesa, tanto William Shakespeare e mais modernamente, o norte-americano T.S.Elliot, moldaram poemas sobre cidades às quais pertencemos e que permanecem como parte viva da memória sentimental. Elliot escreveu esta pequena jóia:
“Continuaremos explorando e ao final da exploração vamos chegar ao lugar de onde partimos e conhecer o lugar pela primeira vez”.
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Como pernambucano, Manuel Bandeira lembrava do Recife de sua infância como um ferimento não-cicatrizado. Já nosso Mário Quintana declarava nostalgia pela Alegrete natal. Quanto à mim, quando longe de Porto Alegre, sinto a falta de sons e cores das raruas e praças. Mas sei que na bagagem emocional, eu guardo comigo as flores azuis dos jacarandás, o olhar de mormaço da guria da casa azul e os ganidos noturnos do pastor das viúvas Meireles. Então, com o passar do tempo, pessoas mudaram e não reconheço mais minha cidade. Quando volto a ela, evito o bairro onde morei por tanto tempo. Como rezam os poetas, cidades e bairros são amores perdidos, é impossível trazê-los de volta.
Deve ser verdadeiro o que dizem – ao voltar atrás no calendário reabrimos antigas e esquecidas dores e até ancestralidades indesejadas. Não tenho certeza se foi o que aconteceu comigo semanas atrás. Estou em Porto Alegre, em um taxi que roda pela Avenida Oswaldo Aranha. Para fugir do transito, o motorista entra na José Bonifácio, mas não foi longe, pois continua tudo parado. Olho ao redor – eu estou exatamente diante de onde ficava o casarão dos meus tios Armando e Ida, no meio do quarteirão entre a capela do Espírito Santo e a Igreja de Santa Terezinha. É um lugar que evoca certas alegrias, mas carrega ausências. Aos domingos, passar por ali era um ritual a cumprir antes da missa das dez na Santa Terezinha. Ganhava a benção do meu padrinho – e saía feliz com a semanada no bolso da calça curta. Depois que o tio morreu, em uma véspera de Natal, as visitas continuaram, agora com a Tia Ida de luto e envolvida em seu grande chale preto, me esperando no portão de ferro fundido do jardim, que rangia ao abrir e fechar. Lembro do padrinho Armando coçar a cabeça, lembrando a si mesmo que precisava azeitar aquelas dobradiças. Mas logo esquecia e o portão continuava rangendo.
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Estranhamente, tanto tempo depois, aqui de volta à mesma avenida, agora deserta dos castanheiros em flor e de seus belos casarões. Mais estranho ainda, ouvindo o gemido de um portão enferrujado que sobrevive em minhas madrugadas.
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