Panorama

Gaúcha estreia thriller sobre poder e conservadorismo na ‘República de Curitiba’

Em ‘Boas meninas se afogam em silêncio’, de Andressa Tabaczinski, o feminicídio de uma herdeira da alta sociedade mobiliza a polícia e sociedade

A autora defende que histórias como a protagonista precisam existir na ficção para que deixem de se repetir na vida real. Crédito: Divulgação.

A médica e escritora gaúcha Andressa Tabaczinski, 35 anos, inaugura o thriller investigativo, finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento, ‘Boas meninas se afogam em silêncio’. O livro, publicado anteriormente com o título Crisálida, ganha nova edição e amplia o alcance de um thriller que articula investigação policial, drama familiar e crítica às estruturas conservadoras e aos privilégios sociais. A obra está disponível nas livrarias e no site.

Ambientado na alta sociedade curitibana, o romance parte de um feminicídio brutal para tensionar valores conservadores, privilégios e dinâmicas de poder. A história começa após uma tempestade, quando o corpo da jovem Amélia Moura é encontrado com marcas de estrangulamento em uma região afastada de Curitiba, em meio às araucárias. O desaparecimento, antes arquivado por falta de evidências, é reaberto sob pressão da mídia e da opinião pública. A delegada Ana Cervinski e o policial Júlio Bragatti assumem a investigação.

A revelação de que Amélia mantinha encontros secretos com uma mulher, registrada por câmeras de segurança, desmonta a narrativa da ‘boa menina’,  revela fissuras na imagem pública e indica que a vítima guardava segredos. Ao articular feminicídio e repressão à sexualidade feminina, o romance evidencia como estruturas conservadoras podem operar também como dispositivos de silenciamento.

A gênese do romance remonta ao período em que Andressa vivia em Curitiba e trabalhava como médica em uma UPA em São José dos Pinhais. Era o auge da Operação Lava Jato, quando a cidade passou a ser chamada de ‘República de Curitiba’. 

“Havia um certo orgulho coletivo em torno de uma suposta superioridade moral”, afirma. Casos reais de violência e impunidade ocorridos na cidade a impactaram profundamente e serviram de ponto de partida para a escrita. Entre idas e vindas, a primeira versão do livro levou dois anos para ser concluída.

A narrativa alterna o passo a passo da dupla de investigadores com a perspectiva da protagonista nos meses que antecedem o crime até o dia do assassinato. Com ritmo atordoante e estrutura que remete às melhores séries de investigação, o romance combina suspense e drama. A abordagem simultaneamente brutal e terna de temas como violência contra a mulher e descoberta da própria sexualidade é um dos elementos que singularizam a obra.

Para Andressa, os temas centrais — autodescoberta, relacionamento LGBT, violência de gênero, tensões sociais, privilégios e relações familiares — nascem do interesse em investigar o conflito entre vida íntima e estruturas sociais. “A jornada de autodescoberta da protagonista esbarra diretamente em valores conservadores, expectativas de gênero e dinâmicas de poder que limitam o que pode ser vivido ou desejado”, afirma. Segundo ela, a tentativa de “bancar o próprio desejo” pode ser percebida como ameaça em determinados contextos, e a violência pode irromper a partir disso. 

A autora defende que histórias como a de Amélia precisam existir na ficção para que deixem de se repetir na vida real. “Escrever sobre isso é também uma forma de nomear essas violências e tensionar as estruturas que ainda as tornam possíveis”, pontua.

Da medicina à literatura

Nascida em 1990, em Passo Fundo (RS), criada em Balneário Camboriú (SC) e atualmente residente em Brasília (DF), Andressa Tabaczinski formou-se em Medicina pela Univali e atuou como clínica geral antes de iniciar residência em Psiquiatria, em Porto Alegre. Em 2018, após um episódio de burnout, interrompeu a formação para se dedicar integralmente à literatura.

Viveu no Rio de Janeiro, onde se tornou sócia da Editora Oito e Meio e da escola Carreira Literária, ao lado da esposa, Flávia Iriarte. Atua como publisher, curadora e mentora em Escrita Criativa.

Atualmente finaliza seu segundo romance, um thriller psicológico ambientado no litoral do Rio Grande do Sul. A trama acompanha um psiquiatra que, após um apagão, passa a acreditar que pode ter cometido um assassinato e foge pela costa gaúcha com o sobrinho de sete anos, em uma narrativa de estrada que investiga culpa, paranoia e responsabilidade afetiva.

 

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