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Assombrações

Acontecia quando menos se esperava – entre um devaneio e um sonho vadio, chegavam os pesadelos, que nos acordando suando frio. Para os analistas eram apenas traumas esquecidos, ou uns medos não-exorcizados. Um velho amigo, bom companheiro de faculdade, contava que tinha pesadelos com feiticeiros e bruxas. E se queixava que ninguém levava a sério seus pavores noturnos.

***

Eu ficava pensando como lidar se feiticeiros e bruxas malvadas aparecessem em minhas madrugadas. O que por muito tempo não conseguia entender eram algumas assombrações recentes. Sempre as mesmas – o piar noturno de um corujão-do-mato, o silvo de uma faca sendo afiada na pedra. Ou o som de uma gaita-de-boca que se ouvida em um casarão vazio na rua João Telles. Com o tempo, passei a invocar sortilégios para afastar os sonhos ruins – lembrava do perfume do doce-de-goiaba que a avó Ana Augusta cozinhava em seus panelões de ferro. Ou do sabor das balas-de-mel que o pai trazia no bolso do paletó azul.

***

Um dia, fui saber da mãe se ela também sonhava com tristezas. Ela sorriu de leve, dando a entender que nem tudo na minha vida iria ser belo e bonito. Falou que havia nascido e criada no campo, como uma caçula cercada de cuidados, mas eram tempos difíceis, que não poupavam a ningúem. Se acordava muito cedo, ainda noite escura, os homens saiam para o campo e as mulheres tinham sua faina na casa, falavam pouco, sem achar graça em nada. E que naquele tempo, as mulheres estavam sempre de luto, pois a cada mês morria alguém. Ou de picada de cobra cascavel ou com a temida doença do pulmão ou pior, com nó-nas–tripas, que nem o médico de Tapes sabia bem o que era.

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Mais tarde, em um domingo preguiçoso, eu lá estava brincando no quintal de casa, ela me voltou a lembrar daquelas tristezas. Devia estar cutucando lembranças da fazenda do Passo Grande, quando os tios contavam e recontavam casos de assombração, nos quais não acreditavam. Até que um certo caixeiro-viajante, chamado Valor do Nascimento, que passava por ali de tempos em tempos, nos contou a estória da Tapera do Velho Martins, uma casa abandonada nos areais da Lagoa dos Patos, há muito entregue a corvos e raposas. A estória era assustadora e nenhuma criança dormiu bem naquela noite. Com o passar do tempo, o caso da Tapera dos Martins virou lenda, mas a ameaça ficou – quando um de nós era pego em travessura, ouvia:

“- Vais passar a noite na tapera…!”.

Até hoje, me arrepio quando lembro do Velho Martins.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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