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Onde estão os homens? Um festival de fronteiras e sentires

De Márcia Dihl, para Coletiva.net

Fronteiras são regiões de transição, zonas de contato entre diferentes territórios. Foi exatamente isso que a Praça da Matriz se tornou no último final de semana: um lugar onde a literatura encontrou a filosofia, a arte encontrou a cidade, e o sentir encontrou quem estava disposto a atravessá-lo.

Pela primeira vez, tive a oportunidade de vivenciar o Festival Fronteiras, que pela segunda vez ocupou o centro de Porto Alegre. Todos os porto-alegrenses puderam assistir a palestras gratuitas, debates e apresentações musicais, como o show de Zeca Baleiro e Vitor Ramil. Uma experiência incrível para quem deseja viver e desfrutar a cidade de forma única, segura e livre.

Fã de literatura, assisti ao painel mediado pela brilhante jornalista Bianca Ramoneda, com a escritora e psicanalista Ana Suy e a espetacular atriz Beth Goulart, que dá vida à Clarice Lispector no teatro. Foi de arrepiar. “Quando lemos Clarice paramos de racionalizar, passamos a sentir”, comentou Beth ao final do encontro. Ao ouvir aquelas três mulheres inteligentes e sensíveis, e mais tantas outras que me inspiram, como Andréa Pachá, Carla Madeira, a ministra Carmen Lúcia, Eliana Alves Cruz, Kátia Suman Tânia Carvalho, e a juíza Madgéli Machado, referência nacional no enfrentamento à violência contra a mulher, algo começou a se formar dentro de mim.

O festival reuniu mais de 50 palestrantes em 10 palcos simultâneos, com painéis sobre literatura, filosofia e arte. Um evento cultural que ocupa a cidade, expande territórios e, também, nosso sentir.

É claro que na maioria dos painéis, o feminicídio esteve em pauta. Porque a arte nos convoca ao sentir e nos leva à reflexão, que, com sorte, promove a transformação. Como a violência contra a mulher é um tema que me sensibiliza e me mobiliza muito, eu comecei a pensar: onde estão os homens? Eu só via salas repletas de mulheres, de todas as idades, e pouquíssimos homens.

Como repórter, participo seguidamente de coberturas sobre inovação e tecnologia. Lá o cenário é o oposto e minha pergunta é sempre: “onde estão as mulheres?” Se tantas vezes apostamos que o que nos diferencia da inteligência artificial é o que nos torna humanos, por que os homens não estão em um evento que propõe o que de mais humano um ser humano pode consumir: a arte? 

Enquanto escrevo e lembro de tudo que ouvi lá, sinto uma raiva. E a raiva é porque a mudança não depende de mim – eu só posso fazer isso: sentir. Quem não pode mais são as 1.470 mulheres vítimas de feminicídio em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Quatro mulheres assassinadas diariamente por motivação de gênero, evidenciando o crescimento contínuo da violência ano após ano. Um dado inacreditável que a ministra Carmen Lúcia trouxe foi que somente em 2023 a Suprema Corte desautorizou o uso da expressão “defesa da honra”.

“O futuro é o devaneio da esperança”, disse a brilhante Carla Madeira no painel “Personagens no Tribunal”. Faço uso das palavras dela para escrever aqui que a minha esperança é que os homens possam se conectar com suas emoções, com seu sentir, e possam se inspirar na sensibilidade de homens como o escritor e psicólogo Alexandre Coimbra Amaral (Xande) e os jornalistas Caco Barcellos e Fabrício Carpinejar, que fizeram meu sentir mais feliz no sábado, no encontro sobre “Ecos da paz e da guerra”.

E para finalizar, deixo aqui uma anotação que fiz de uma fala do querido Xande: “Homens morrem muito mais que as mulheres do coração. Nós que reprimimos tudo que sentimos terminamos a vida com o coração explodindo. Ele não aguenta tanto represamento. Ele chega uma hora e diz: pra mim deu, uma vida sem sentir.” Ao ler o que anotei, aproveito para corrigir o que escrevi poucas linhas acima: homens, não reprimam o seu sentir. Deixem ventar! O vento que chega para vocês é o mesmo que chega para nós, mulheres. Ele pode ser uma brisa leve ou tempestade forte, pode balançar estruturas – e ele acontece bem no meio do peito.

Márcia Dihl é jornalista e coordenadora de Produção do Coletiva.tv.

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