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Pedidos de ano novo aos repórteres e editores

Por Flávio Dutra

Sou obsessivo pela didatismo nas informações jornalísticas. É o mínimo que se espera de quem vai informar o distinto público, para que ele não precise recorrer ao Google ou à Wikipedia. Assim, rogo para que em 2020 haja mais interpretação, esclarecimento e  explicação sobre os dados despejados aos leitores, ouvintes e telespectadores.

Peço encarecidamente, por exemplo, que expliquem com riqueza de detalhes o sobe e desce da bolsa de valores e o que significa aquela pontuação que parece ter grande impacto nas nossas vidas. Ah, não esqueçam o tal Índice Nasdaq.

Solicito a gentileza de, junto com a cotação do dólar e do euro, seja cotado também o dólar turismo para quem vai viajar e não é muito afeito a essas questões. Isso evitará que o viajante xingue a moça do câmbio, acusando-a de vender as moedas estrangeiras acima da tabela anunciada.

Aos repórteres de política peço para decuparem, com a profundidade necessária para os menos entendidos, aquela parafernália de processos legislativos, as medidas provisórias da vida, os projetos de lei complementares ou não, as emendas daqui e dali, e outros entes menos votados. E mais: expliquem porque as pautas dos parlamentos trancam, como se estivessem constipadas, e porque os legisladores se revezam com aquela discurseira toda, que ninguém presta atenção, quando o resultado do que vai ser votado já é conhecido?

Que me respondam, com presteza, como ocorrem tantos e tão sucessivos casos de  corrupção no País, apesar da existência de uma penca de órgãos e estruturas de controle como tribunais de contas, Ministério Público, Receita Federal, Coaf, PF, controladorias, corregedorias, ouvidorias e outros ias?

Expliquem, por deferência, o que é o tal de “vínculo”, termo que sempre acompanha as informações sobre o pagamento dos salários, atrasados ou não, dos servidores públicos. Aproveitem para investigar e dar retorno à audiência se algum sindicato pagou de fato as multas por não cumprimento das decisões judiciais  sobre as greves.

Às editorias esportivas sugiro especularem menos sobre contratações e responderem a duas questões que angustiam nossos torcedores: por que, atualmente, os jogadores, com preparação cada vez mais científica, se lesionam tanto? E por que demoraram tanto para se recuperar?

Ao pessoal do internetês lembro que nem todos somos nativos digitais, da geração de pessoas que cresceu na era digital. Quando forem usar a terminologia do meio, partam do princípio que estão falando para analfabetos na temática, entre os quais me incluo junto com a maioria.

Aos repórteres que informam sobre o movimento de passageiros nos feriadões, vale explicar que as empresas abrem “horários extras” para atender a demanda, que não é o mesmo que colocar “ônibus  extras”, como se tivessem um estoque de coletivos só para essas situações. Ah, mas é só um detalhe, direis. Que nada, deus e o diabo moram nos detalhes. Aliás, quando os especialistas em transporte público vão  esclarecer que o peso maior das tarifas recai sobre os patrões e não sobre os trabalhadores, que contribuem com apenas 6% do vale transporte? Diante dos aumentos, podem se compadecer dos trabalhadores mas revelem quem paga realmente a conta.

Um pedido especial aos repórteres da Globo em Londres: expliquem, por favor, o que significam aqueles ritos na Câmara dos Comuns, aquele senta-levanta de parlamentares, uns gritos de apoio e vaias discordantes, ferindo gravemente o que imaginamos como fleuma britânica. Aproveitem para explicar porque é chamada de Câmara dos Comuns e o que representa aquele baixinho, de gravatas espalhafatosas, gritando “order, order” e que parece ser o chefe da turba.

Por aqui, poderiam me esclarecer quem é e o que faz aquela moça que senta ao lado do presidente do STF nas sessões plenárias. Gostaria de ter acesso a um perfil dela. Será  que dá um caldo? Falando sério, se não for pedir demais, verifiquem por que as obras de prédios dos órgãos de Justiça nunca param por falta de recursos e cada vez se multiplicam mais, enquanto as obras públicas dos governos em todos os níveis se arrastam muito além dos prazos previstos.

Desculpem pela encheção de saco, mas como dizia aquele personagem de um  antigo programa humorístico: Eu só queria entender. Enfim, pela clareza das informações, roguemos com fervor.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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