Aconteceu uma chacina em Porto Alegre por causa de uma briga de trânsito. Não existe outro nome para classificar o episódio em que um sujeito, por causa de uma batida de raspão em seu carro, matou três pessoas na zona sul da capital. Eu, como sou um tolo, resolvi ler os comentários nas redes sociais sobre o acontecimento. E, tentando deixar de ser tolo, percebi que ninguém estava interessado em debater o cerne da questão. Como em qualquer discussão, do consumo de carne ao formato da Terra, as crenças ideológicas ficaram à frente do que realmente precisa ser discutido: a incapacidade da convivência humana civilizada nos tempos atuais.
Os fóruns de debate sobre o assunto ficaram polarizados entre os que apoiam e os que condenam o porte de arma. Embora seja um tema relevante, existe algo mais assustador, que perpassa qualquer pensamento ideológico. Independente de ter ou não uma arma, o que tivemos em Porto Alegre foi uma família ceifada por uma banalidade. Por algo trivial, cotidiano, irrelevante.
O trânsito de Porto Alegre é uma batalha campal em que todos saem de casa desejando que essa rua, ah se essa rua fosse minha. Mas a rua não é sua. Nem minha. Ela é nossa e exige regras de convivência. O problema é que atualmente não há tolerância, empatia, enxergar-se no próximo, permitir e compreender. O trânsito é uma ilustração perfeita do que são os tempos atuais. O roncar dos motores expressam raiva, frustração e angústia.
Outra questão importante é a valorização da propriedade acima dos valores morais e éticos. Uma vida humana vale menos que um arranhão no carro. Uma vida humana vale menos do que essa moral às avessas, como se fosse uma desonra ser ultrapassado, batido, acidentado. Cria-se uma nova ordem moral e ética, onde o sujeito defende suas coisas sem se importar com as coisas dos outros. A cadeia gera as piores relações possíveis nesse ambiente que é o pior possível. Sair de carro às ruas virou risco de morte.
A chacina do Lami me perturbou profundamente. No texto passado, na praia, admitindo meu distanciamento e deixando longe meu lado niilista, escrevi sobre as coisas bonitas que as contradições, o tédio e o marasmo nos trazem. Uma coisa mais contemplativa que analítica. Mas, novamente o tolo aqui, decide ler notícias, porque, afinal de contas, eu não consigo não ler notícias. Na tarde de domingo, a morte de Kobe Bryant, o melhor jogador de basquete do planeta entre as eras Michael Jordan e Lebron James, já tinha me abalado. Aí vieram os assassinatos na Estrada do Varejão e eu voltei a sentir toda a negatividade que insistia em apartar no meu período de férias. Quando existe um crime como esse e a discussão é sobre “ter ou não ter armas”, é sinal que perdemos. Não é o “portar ou não portar”. É a motivação, o cerne, o centro de tudo, aquilo que é origem e essência.
Se você acredita que tudo isso é uma questão somente de segurança pública ou de impunidade, parabéns pela praticidade e pelo pragmatismo. A questão, para mim, é muito maior. É normalizar a barbárie, banalizar a chacina, fechar os olhos para aquilo que nos tornamos e que parece irreversível. A gente perdeu completamente a civilidade de conviver com qualquer outra coisa que não seja somente aquilo que a gente quer que aconteça. E, se alguma coisa der errado, elimina-se quem cometeu o erro. Não há futuro promissor quando o presente assusta mais do que deveria.
