Estar em condição de isolamento social é uma experiência única. É socialmente rica e mentalmente devastadora. Embora a gente não tenha convívio físico com outras pessoas, as redes sociais ajudam a ter algum tipo de contato social, ainda que com distanciamento presencial. Elas também servem para estimular o melhor e o pior. Se por um lado, correntes entre amigos, videochamadas no WhatsApp, joguinhos, dicas e manifestações de empatia fortalecem a nossa alma, por outro lado também temos acesso àquilo que o ser humano tem de pior. Em tempos de guerra ideológica e milícias virtuais, a exposição às barbáries dos mais terríveis pensamentos humanos chega à nossa cara da forma mais cruel possível.
Cuidar da mente numa hora dessas é de fato um desafio. Há um dilema: ou a gente acompanha essa avalanche de notícias ruins ou se aliena. Se a gente se aliena, o isolamento parece maior. Se a gente acompanha, dá a ideia de uma integração às coisas que acontecem, mas ao mesmo tempo, parece que aumenta o desespero. É uma situação que complica ainda mais quando estamos à mercê do desconhecido. Não sabemos a dimensão do vírus, não sabemos o que podemos fazer e, agora, não sabemos o que será das nossas vidas depois que tudo isso acabar. Também não sabemos como, quando e de que forma isso vai acabar.
Entrar numa onda de pessimismo absoluto é um caminho bem mais natural do que a gente imagina. Nossas forças estão baseadas em convívio social. Nossa família, nossos amigos e nosso ir e vir compõem uma base estrutural para que a gente consiga tocar a vida de uma forma civilizada, coerente e otimista. Entretanto, quando nos apartamos desses convívios, a tendência é que nossa mente colapse de uma maneira a ver tudo errado. Os amigos estão longe, a gente não pode abraçar a família e nossos empregos estão ameaçados. Sem contar a pior coisa de todas, que, de forma proposital, deixei por último: a gente não sabe da nossa saúde.
A orientação é clara: fique em casa. Mas o ser humano não está preparado para se divorciar socialmente das coisas. A vida é social. A mente é social. O próprio hábito de cuidar do corpo é social. O instinto de sobrevivência requer o cuidado mais terrível de todos: para o corpo ficar são, a mente precisa entender que essa vida social tem, ao menos, que ser uma vida que não é física. A gente não convive mais, não olha mais e não abraça mais. É necessário. Urgente. Obrigatório. E cruel.
Lave as mãos com álcool gel, fique em casa, isole-se, alimente-se bem, hidrate-se, mantenha a imunidade alta. E quanto à nossa mente, que ela esteja preparada para lidar com os absurdos que a gente lê, com os despreparos que a gente enxerga, com as atrocidades que o cotidiano apresenta e com o fato de que, não bastasse tudo isso, os nossos desabafos, apoios emocionais e refúgios precisam ser feitos todos à distância. Também é a hora de cuidar da mente. Somente uma cabeça boa vai nos ajudar a sair dessa.
