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O “eu” ao vivo: vamos fazer uma live?

Por Carlos Guimarães

Vocês já fizeram ou assistiram a uma live nesse período de quarentena, certo? Se não sabem sobre isso, sugiro abrirem a conta do Instagram de vocês e darem uma olhada. Elas tomaram conta e os assuntos são variados. Da mesma forma, artistas brasileiros têm utilizado seus canais nas redes sociais para realizar apresentações ao vivo direto do conforto de seus lares. Prudente. Mas negócio.

 O que parece uma afortunada decisão de contemplar os fãs em tempos de quarentena e presenteá-los com um show gratuito na verdade se tornou um grande negócio. Não seria diferente. Os artistas também precisam pagar suas contas. Em torno deles, gira uma equipe com iluminadores, promotores de evento, empresários, motoristas, seguranças, técnicos de som, secretários, telefonistas, assistentes e estagiários que também precisam pagar suas contas. A indústria não pode parar. Portanto, é uma saída, talvez a única possível, para que o show continue. Algumas marcas, de forma inteligente, associaram-se aos artistas visando capitalizar a audiência. Tem dado certo. As apresentações em home office de Bruno e Marrone, Jorge e Mateus e Marília Mendonça, por exemplo, ultrapassaram, com folga, a casa do milhão de views. Não existe praça de espetáculos no mundo que tenha tanta capacidade. Um sucesso absoluto.

 Ao contrário do que possam imaginar, sou favorável às lives. De verdade. Não gosto dos artistas que mencionei, mas isso diz muito mais ao gosto médio do público brasileiro que a eles, que estão aí, fazendo sua parte. Gosto é gosto, certo? Sigo discordando dessa máxima e entendendo que é possível hierarquizar o valor artístico. Sempre foi. Imagine se a arte de Shakespeare, Da Vinci ou Bach fosse valorizada apenas pelo gosto popular. Quem ouve música erudita hoje em dia? Suas obras permanecem com o tempo. A arte é um recorte do espírito de cada tempo. Mas também é uma criação. É um fragmento social. Uma obra que vem da imaginação, da originalidade, da concepção e da relevância que a época traduz. A indústria cultural se apropriou da arte para o consumo das pessoas, o que não é propriamente um erro. Mas delegar ao “eu” a indispensável função de classificar a arte parece subjetivar de forma exagerada o que ela representa culturalmente e socialmente. Gosto é gosto. Mas bom gosto e mau gosto existem.

 O “eu”, esse ente que representa sobremaneira os tempos atuais, especialmente em época de isolamento social, em que estamos reunidos frente a frente conosco e mais ninguém – pra quem obedece, evidentemente -, é quem dita a regra do que é consumido e de como é consumido. É a ponte necessária para abordarmos as outras lives. Não as lives dos outros, mas as nossas, aquelas com celular parado no nosso quarto, no nosso escritório ou na sala de estar. A gente liga, chama os seguidores e começa a brincadeira. De políticos a influencers, de atrizes a jornalistas, de celebridades a anônimos, o sinalzinho de que começou a live desperta – ou não – o interesse de outros “eus”, interessados ou não naquilo que “eu” tenho a dizer.

 O “eu” permeia a cultura moderna e é a característica mais marcante do nosso espírito de tempo. Tornamo-nos narcisistas por indução. Vaidosos por pertencimento. Egocêntricos por cultura. O espírito punk do do it yourself saiu pela culatra. Não era bem isso que eles pregavam, mas as pessoas também nem sabem disso. Viramos autodidatas e autossuficientes por osmose, por sentimento pegajoso que nos obriga a exercitar o nosso diário egoísmo e, não bastasse isso, compartilhá-lo com os outros. A gente liga a câmera do celular para que os outros nos vejam e isso parece ser a coisa mais interessante a se fazer.

 Tempos de tédio são tempos extremos. A questão é que essa cultura perpassa o isolamento e tem tudo para virar tendência. Os sertanejos voltarão a fazer shows fora de casa, mas é caro, inseguro, tem que estacionar, eles estão pequenos no palco. O bis não é mais ao vivo. É pelo YouTube, pelo Instagram, tomando uma cerveja e depois caminhando oito passos até encontrar uma cama e simplesmente dormir. Quanto a nós, bem, a gente quer ser part of the issue, certo? A gente arma uma live para falar das lives ou do BBB ou de música ou de futebol. Antes fosse só tédio. Narciso segue achando muito feio o que não é espelho.

Autor

Carlos Guimarães

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