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O mundo perfeito dos espelhos

Por Carlos Guimarães

   As redes sociais às vezes funcionam como um grande tutorial de maus modos para crianças mimadas. É um espelho de uma autoimagem pré-fabricada, forçada, idealizada. Para entender isto melhor, é preciso saber de que forma opera a arquitetura de uma rede social. Vamos ao Twitter.

   No Twitter, a gente é uma @rroba que segue outras @rrobas por motivos diversos. Como nosso grau de masoquismo tem um limite, é geralmente por afinidade que moldamos a nossa timeline. Em outros casos, é para consumir informação, na medida em que também seguimos os canais da imprensa. Mas, para efeito de generalizações, fiquemos com a tal da afinidade.

   Como se constrói uma afinidade ou uma simpatia? Em geral, por pensamentos, gostos ou intenções similares. A gente procura por aqueles que são parecidos conosco. A coexistência entre quem concorda é menos penosa do que entre os divergentes. Divergir pacificamente é uma arte. Requer paciência, respeito e uma dose considerável de abstração para não transformar a discordância em conflito. No passo seguinte, o conflito deixa de existir e passa a ser ódio.

  Mas o pulo do gato desses maravilhosos homens e suas máquinas arrobísticas é justamente esse: o ódio é um sentimento vital para que a rede social se perpetue. É no conflito que ela cresce. Perpassa o debate e o confronto de ideias e, de uma hora para a outra, baixa um ringue virtual onde o objetivo é derrotar o oponente e assassinar reputações em troca de um mundo mais “parecido comigo”.

   No último domingo (10 de maio de 2020), a Rede Globo transmitiu a vitória de Ayrton Senna no GP Brasil de Fórmula 1 em 1991. À tarde, Roberto Carlos fez uma live com suas músicas, direto de casa (ou de um estúdio). Em tempos de isolamento, show vira live. Duas das figuras mais conhecidas de todos os tempos no Brasil, Senna e Roberto viraram alvo de uma militância ávida em destruir reputações com o dignificante (sic) objetivo de reparar injustiças históricas (sic) sobre estas duas personalidades.

   Senna, que morreu em 1994, foi chamado de “bolsominion em potencial” sem que sequer, possivelmente, ele tivesse o conhecimento de quem era Jair Bolsonaro quando vivo. Essa é diferente: sua imagem foi destroçada por alguns militantes super ocupados em defender uma reserva moral dos benfeitores nacionais baseada numa hipótese que nunca se comprovará. O mais cruel é que Senna não está aqui para se defender. É o inusitado do inusitado: um ataque a Ayrton Senna porque, se ele estivesse vivo, na cabeça de algumas pessoas, ele apoiaria Bolsonaro. É um ataque póstumo baseado em… nada. O único dado concreto levantado foi que Senna, em determinada situação, fez um elogio a Paulo Maluf. A conclusão brilhante de pessoas que devem estar perdendo dinheiro, porque possivelmente sejam maiores, mais perfeitas e acima de qualquer imoralidade, foi que a idolatria a Ayrton Senna precisa ser revista porque, hipoteticamente, ele seria uma pessoa que, digamos, “não pensaria o que eu penso”.

  Já Roberto Carlos, que seria um apoiador da ditadura, embora ele tenha escrito “Debaixo dos caracóis de seus cabelos” e “Todos estão surdos”, a primeira um pedido para Caetano voltar do exílio e a segunda um hino pacifista, desarmamentista e antimilitarista, teve sua obra diminuída por eventos que as pessoas aprenderam em filmes e nas super leituras que fazem de timelines espertíssimas cheias de fotos milimetricamente tiradas para dar um ar cool e descrições engraçadinhas nas “bios” do Twitter. O mais engraçado é que Roberto Carlos passou a ser um “produto de mídia” sem que as pessoas ouvissem, por exemplo, a fantástica obra do cantor entre 1969 e 1974, onde expressa existencialismo, flerta com a black music, assume um lado compositor de muita qualidade e se transforma radicalmente em autor maduro, longe do bom moço da Jovem Guarda. O Roberto Carlos que as pessoas conhecem é o do iê-iê-iê e o cantor popular, chamado de brega.

  A intelligentsia brasileira detesta o popular, diga-se de passagem. Adora o povo como caridade e odeia como cultura. Fosse o contrário, Cartola, mais genial que 90% da MPB dita erudita (sic) não morreria pobre. Os intelectuais da música brasileira sempre abraçaram uma estética mais limpa e cruelmente antropofágica. Aceita a releitura da carnavalização (tropicalismo) e criticava as marchinhas do início do século. Aceita o minimalismo estético (bossa nova) e rejeita a grandiloquência dos grandes cantores dos anos 1940 e 1950. Aceita o falso cool, o vazio acadêmico que nada diz e defenestra o Brasil real. É uma turma que prefere Gonzaguinha a Gonzagão, que prefere o samba zona sul que o samba zona norte, que odeia tudo aquilo que o povo produziu como cultura real e genuinamente brasileira. Evidentemente, detesta Roberto Carlos.

 Em geral, quando coloquei essa questão da vida versus obra para falar do Rei, considerando aqui que também não sou um grande fã do RC como pessoa física  – acho que ele “sentou na obra” e não produz nada novo há muito tempo, considero que a fase anos 1980/90 foi medíocre, fora as pataquadas de cantar aberrações como Verde e Amarelo e Amazônia (insônia do mundo, a pior canção cantada por ele) -, mas que tenho uma profunda admiração pela obra dele.

 Se formos pegar de forma literal a ideia de “desconstruir” grandes obras artísticas ou do pensamento humano, ficaremos reduzidos a meia dúzia de autores que possam, quem sabe, parecer-se conosco. Boa parte da filosofia, da sociologia e das artes foi feita por pessoas que tinham muito mais defeitos que virtudes como seres humanos. Quando morreu Rubem Fonseca, um dos meus autores prediletos, a turma da problematização logo entrou em ação para lembrar que ele apoiou o golpe de 1964 e que, portanto, sua obra podia, quem sabe, não ser tão boa assim. Sem qualquer vocação para o macartismo, sugiro que cada um consulte (pode ser no Google, o amansa burro de vocês) um por um os autores que vocês leram (para quem lê além da própria timeline), os artistas que vocês escutam e os diretores dos filmes que vocês assistem. Vocês vão se surpreender.

 Por fim, é preciso ter muita coragem e muita cara de pau para tentar assassinar reputações de grandes ídolos do nosso país. Mais ainda, é preciso ter uma dose de megalomania, pretensão e falta de autocrítica para diminuir obras de pessoas que, para vocês, não eram tão boas assim. Mas estamos na era da pós-verdade ou, novidade, da hiper-verdade: só existe aquilo que se incorpora integralmente ou aquilo que se assume para si como legítimo. Então, não adianta nada toda construção do pensamento humano que, por milhões de anos, bem ou mal, norteia toda a nossa civilização. Deem-lhe espelhos e verão um mundo perfeito!

Autor

Carlos Guimarães

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