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O obituário

Por Flávio Dutra

 Confesso que  sempre dou uma  olhada nos obituários  dos nossos jornais e, às vezes, sou surpreendido com um conhecido que se foi sem que eu tivesse a informação.  Confesso também que me preocupa muito a frequência com que constato a perda de gente próxima e aí vale aquela lógica, segundo a qual quanto mais velho a gente fica, vai a mais velórios e enterros do que a casamentos. É a lei da vida. 

 Já fui também fonte para necrológicos de amigos e familiares e, em todos os casos, me esmerei nos elogios aos que nos deixaram, embora em relação a uma ou outra figura, parentes à parte, haveria histórias pra lá de escabrosas para contar. 

 A troco do quê trato deste assunto funéreo, ainda mais nestes pandêmicos tempos de baixo astral.  É que sou altamente sugestionável, vale dizer movido pelas enticadas dos outros e foi o que ocorreu a partir de uma postagem no Facebook  do meu bom e talentoso amigo Márcio Pinheiro. O Marcito, como gosta de ser chamado, conseguiu  publicar um texto leve, atraente e informativo sobre obituários, tendo como foco a seção do New York Tiimes/NYT, na verdade, uma crônica de celebração à vida sobre os falecidos.  Esse processo editorial  foi tema de livros nos EUA e também aqui, no caso a  antologia organizada por Matinas Suzuki Jr., intitulada O Livro da Vida, reunindo obituários publicados pelo jornalão americano. Segundo Suzuki, o obituário é a “pauta de Deus”, uma ótima definição sobre o que não temos controle e para quem acredita em divindades. 

 O que me ocorreu ou  a pilhada que me moveu, foi imaginar um exercício, por insidioso e cruel que possa resultar, de como seria nosso necrológico. O que diriam a nosso respeito as fontes  consultadas? Que  tratamento seria dado a nossa existência? Mereceríamos, como no NYT, “textos curtos, mas não superficiais, curiosos, mas não bobos, emotivos, mas sem escorregar para  a pieguice, enfim, relatos escritos na medida certa, respeitando o rigor jornalístico, mas sem perder a ternura”, como destacou o Marcito, num parágrafo irretocável, que eu gostaria  ter escrito. 

 Lembro de como fui acarinhado em uma das minhas tantas despedidas profissionais, que até pensei tratar-se de um obituário antecipado. Deixei de ter defeitos, passei a ser uma pessoa maravilhosa e um chefe exemplar. Meu bom humor  destacado, minha competência profissional enaltecida, a generosidade reconhecida. Era doce e meigo; inspirador e motivador; irônico e debochado, aqui incluídos também como elogios. Bobagens que um dia pronunciei viraram mantras. Concedi benefícios, fiz favores e estendi a mão para mais pessoas do que imaginava. Fui atento nas atividades profissionais e sensível nas questões pessoais. Um exemplo de cidadão. O cara! Ok, tem uma boa dose de cinismo nisso daí.

 Hoje, já haveria acréscimos, algo exagerados também em certas lembranças, tipo “escritor de sucesso e blogueiro criativo”, e não faltariam menções, não contestadas porque verdadeiras,  ao marido e pai amoroso e ao avô sem igual. 

 Enfim, acho que este texto cumpre um papel relevante para o seu autor, indicando como, enquanto defunto, ele gostaria de ser retratado. Quem for escrever meu obituário, procure fontes confiáveis, aquelas que possam ser generosas nos elogios e comedidas nas revelações menos nobres. Um pouco de solenidade e um tom épico nas realizações serão bem-vindos. Caso contrário, virei pegar o pé dos detratores e povoar os sonhos deles com os piores pesadelos, onde graves defeitos e aquelas sacanagens recônditas surgirão como um tormento em forma de necrológicos em jornais de grande circulação.

 Brincadeiras à parte, agora, se me permitem, vou lá fora aproveitar para me encharcar de vida.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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