Esse questionamento teve início quando teve início a quarentena. E foi tomando mais corpo quanto mais tempo passamos nela, independente de concordar ou não com a sua duração. Foi crescendo aos poucos, trazendo algumas reflexões, algumas conclusões e muitas perguntas, solucionadas por respostas nem sempre satisfatórias.
Existe claro aquela questão que é o que fazer com tanta coisa que não precisamos/usamos? Mantê-las? Doa-las? O fato é que ao nos depararmos com uma situação de restrição de oportunidades para usar tantas coisas, veio aquela pergunta: para que mesmo eu tenho tudo isso? Numa certa medida esse questionamento é válido, apesar de poder ter a sua intensidade e resultados exagerados demais.
Houve a comunidade que achou que era o retorno dos tempos hippies, em que precisamos muito pouco, mais de paz e amor. O que não está totalmente errado, obvio. Precisamos sim, de pouco(tanto do ponto de vista material quanto muitas vezes afetivo) para atingir um estado de felicidade, mas talvez não tão pouco assim. Materialmente falando, o mundo precisa girar e é preciso que tenhamos algumas coisas que antes pareciam quase supérfluos e que hoje já não parecem assim.
Do ponto de vista afetivo, vimos que aconteceu o inverso: acabamos por precisar mais uns dos outros nessa restrição. Entraram em campo então lives, videochamadas, envio de presentes fora de datas de aniversário, receber e dar atenção aos que estão na nossa vida, tudo como tentativa de resgatar um aspecto bem importante: a nossa face mais humana, a própria humanidade. Resgatar não é palavra certa, talvez. Acredito que seja intensificar. Porque fomos lembrados à força da necessidade urgente desse resgate.
Mais um ponto aqui, na sequência desse acima, é a saúde mental. Acredito que todas as 7 bilhões de pessoas na Terra estão sendo afetadas em sua saúde mental, algumas mais, outras menos, mas todas. Com preocupações, carências, ansiedades e medos dos mais variados. Não houve e não há quem não esteja incluída. E falo isso não porque seja novidade, mas como nos foi escancarada a necessidade de manter uma vida mental e afetiva razoavelmente equilibrada, em dia. Nesse momento, talvez mais do que nunca(ao menos dos 53 que já vivi), está sendo muito, muito necessário.
Uma pergunta, acredito que para um número um pouco menor de pessoas(entre as quais me incluo) é: para que mesmo tantos profetas do Apocalipse, senão do Apocalipse pessoas que se alçam a uma condição impossível, a de prever com mais precisão o futuro em um momento como esses? Claro, muita gente adere, gosta, se sente orientada e amparada. Mas sinceramente, não estou acreditando em previsões por ora. Acredito isto sim, em reflexões. Colocar as coisas sob alguma perspectiva, aí tô junto.
Acredito que sim, está sendo feita uma avaliação geral(por aqueles que podem e não precisam enfrentar a luta direta e quase insana pelo sustento da família), um balanço denso e profundo, que ocorre em situações muito especiais. Uma pálida amostra disto pode ser o final do ano, com as reflexões e definições para o ano seguinte. Mas como eu disse, essa é uma pálida amostra. Nunca foi nesta intensidade, com quase um universo de variáveis a nos fazer pensar mais e muito. E às vezes a chegar a poucas conclusões. Porém, o esforço do pensamento, nesse caso, é totalmente indispensável, esta volta às origens. Com cuidado para não terminar a reflexão só se angustiando, se perguntando: o que fazer com tanta coisa?

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