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Refúgios para agora

Por Flavio Paiva

Diante da verdadeira avalanche de notícias ásperas, é fundamental encontrar novas visões ou refúgios. Que façam a vida acontecer com seriedade sim, mas com leveza. Porque são coisas distintas. Levar a vida a sério pode ser exatamente se importar com o autocuidado e aproveitar muito momentos de lazer, uma boa conversa, um bom filme, até mesmo (meu caso) um café, seja feito em prensa francesa, passado, espresso. Café, nas suas diversas formas. 

Mas ampliando, todos temos refúgios. O que acontece na vida é que muitas vezes acabamos por nos esquecer quais são ou ainda se enfiar tanto em coisas da vida, atribulações, compromissos, que acabamos por nos afastar deles. 

E aqui refúgios podem ser também pessoas, momentos com pessoas, como minha experiência com meu filho (ou podem ser momentos em que se fica só e aproveita também, seja para meditar ou admirar um pôr do sol, seja para ouvir uma música), confraternizações, às vezes mesmo uma conversa muito rápida, mas importante e que apesar de rápida, é cheia de significado. 

A comunicação permite isso. Que possamos incluir muito significado. Muita representação, bem como muita alegria. Ou, numa outra ponta, a tristeza também, claro. Mas focando aqui na alegria, nos significados positivos, estou lendo um livro “O Mundo da Escrita”, de Martin Puchner (Companhia das Letras), que dentre muitas outras coisas, trata de como se iniciou e expandiu pelo mundo todo o processo da escrita. A tradição oral foi aos poucos sendo substituída pelos símbolos, pois estes encontraram uma forma universal de expressão, codificada e organizada, o que possibilitou a multiplicação e a perenização do conhecimento. Se antes dependia fundamentalmente da memória e da passagem de um para outro indivíduo, a partir do momento em que houve a adoção da escrita e com a criação de papiros e pergaminhos, sua perenização.

Como não é novidade, a comunicação de forma oral se dá de uma maneira, com determinadas características e propriedades. Já a comunicação de forma oral se dá – óbvio – de maneira diferente, possibilitando que várias pessoas tenham acesso à mesma narrativa, à mesma história, mesmo que cada um a compreenda de uma certa forma. Mas as variações de interpretação e suas possibilidades de entendimentos diferentes são menores do que na tradição oral, que tem como sua maior fragilidade o fato de que um orador contava para outro, que contava para outro… E naturalmente nesse telefone sem fio, a história original chegavam diferente lá na ponta.

Falei em café, encontros com pessoas, momentos sozinhos, leitura, todas essas são algumas formas de refúgio. Existe uma outra que igualmente dou espaço especial na minha vida, que é o cinema. Os filmes, claro. Os filmes sempre são histórias, contadas do ponto de vista e com as sensações do diretor, interpretações dos atores, luz, fotografia, trilha sonora. Isso já é incrível, fantástico e mágico. E a experiência de ir a uma sala de cinema, para mim, é inesquecível. Mesmo que se esteja em um momento em que isso é impossível ou muito mais restrito(existem cidades que já liberaram a volta às salas, mas com vários cuidados), na maioria das cidades ainda não foi liberado. 

Mas para mim, o cinema numa sala é uma experiência única. Como vai ser daqui pra frente? Não sei responder. Mas a sensação de ir ao cinema, ficar isolado do mundo por 2 horas, unicamente dedicado àquela experiência, com uma tela gigante, som, luz, imagem, um mergulho num universo à parte incrível, uma parada que o tempo dá.  Assim como estar com alguém que se gosta muito. O tempo para.

Cada um tem seus refúgios. Mesmo que agora estejam esquecidos ou quase impossibilitados de serem experienciados. É fundamental para que a vida continue sorrindo que as pessoas encontrem umas nas outras seus refúgios. Ou tenha o seu refúgio a forma que tiver, falei de alguns meus, mas cada pessoa tem os seus. Encontre hoje ainda o seu, os seus. Visite, viva, aproveite. Mas antes de tudo, não esqueça.

Autor

Flavio Paiva

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