
“Quando a carreta atolou
Na estrada de soledade
Fui ver o que vinha dentro
Vinha cheia de saudade”.
Trova popular, Rio Grande do Sul.
Nos campos daqueles tempos, o trabalho era muito e a diversão, pouca. Os livros eram raridades, pois ninguém encontrava tempo para leituras. Mas Fermino das Dores sempre achava um tempo -em madrugadas insones lia e relia almanaques do “Eu Sei Tudo” e um ou outro livro que descobrira em um velho baú. Um dos preferidos era “Anecdotario de La Pampa”, livrinho em espanhol que contava dos enfrentamentos de castelhanos, imperiais e índios charruas.
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Como toda a gurizada da fazenda, Fermino estava proibido de ficar acordado até tarde da noite. Mas sempre achava um jeito de se aventurar até o galpão das carretas, procurando ouvir os homens conversarem sobre casos de assombração e estórias proibidas. Não havia como separar o verdadeiro do inventado. Muitas vezes não passavam de lendas, das que andam de boca em boca, com cada narrador aumentando um tanto por conta própria. Mesmo assim,mais do que suficientes para inflamar os sonhos do jovem Fermino.
Que se imaginava como um herói campeiro, cruzando campos, derrubando cercas a pata de cavalo e botando renegados para correr. Mas como todos que se encantavam com lendas e fantasias, Fermino das Dores esperava com ansiedade o Dia dos Reis Magos. Aquilo sim, era uma festa de verdade, igual ao Natal, com barracas de doces, corridas em cancha reta e, o melhor de tudo, os trovadores do Terno de Reses. Que chegavam em uma carroça enfeitada com fitas coloridas, saudando como manda a tradição:
“Meu senhor, ó da casa
Venha nos abrir a porta
O tempo está de chuva
Nós teremos que dar volta
O Terno aqui chegou
Cantando de viva voz
Acordai se estás dormindo
Pelas tradições do pago
Pro Terno entrar cantando
Entre risos e afagos (…)”.
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Então chegava o momento que Fermino mais apreciava. Ele se acomodava a um canto, olhos, boca e ouvidos bem abertos, acompanhando verso a verso. As trovas variavam de acordo com o payador, mas os personagens eram sempre os mesmos, contando as façanhas do tapejara Blau Nunes ou de um ladrão de cavalos, o Paco Cabrera. Ouvindo um pouco hoje e outro tanto amanhã, Fermino das Dores imaginou como seria contar aquelas estórias sem versos, onde os malvados fossem sempre castigados. Naquela noite, enquanto ouvia ao longe a despedida do último trovador, Fermino abriu um velho caderno, apontou uns tocos de lapis e começou a rabiscar. No alto da primeira página, escreveu palavras que guardara na memória desde sempre:
” Neste lugar onde eu canto,
Todos tiram-me o chapéu.
Cada repente que eu faço,
Corre uma estrela no céu”.
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