Quando tudo isto acabar – e embora não tenha tanta confiança nas medidas para reduzir a transmissão da Covid-19 adotadas pelo Governo Federal, acredito que um dia o isolamento será interrompido – os meus braços não vão ser suficientes para saldar a demanda reprimida de abraços. Será preciso fazer uma escala, um rodízio, distribuir senhas ou limitar em 20 abraços por dia. Quero abraçar muito minha família, até que ela fique totalmente cansada de me ver sempre ao redor. Quero abraçar muito os (as) amigos (as), até que implorem por uma folga. Quero abraçar a vida, o presente e a promessa de um futuro.
Nada substitui o poder de um abraço que envolve, acolhe, abriga e aninha. Um abraço é capaz de fazer renascer a paz que perdemos em alguma encrenca qualquer da rotina. Um abraço tem a capacidade de acalmar os sentimentos que surgem após as tempestades dos relacionamentos. Um abraço é habilidoso para reacender uma amizade que se acomodou no tempo e exercitou a ausência. Não existe melhor remédio do que um abraço. Seja em doses homeopáticas ou em quantidades generosas e exageradas.
Os abraços são gestos especiais, são carinhos necessários, são afetos que nos dão força para levantar, arriscar, confortar e enlaçar quem amamos de tanto afago. Um abraço de mãe acalma as dores do filho e reduz a temperatura média corporal do rebento. É melhor do que qualquer antitérmico. Um abraço de amiga revigora a coragem necessária para se retomar a luta e estimula passos mais ousados. É melhor do que qualquer atividade de militância. Um abraço do irmão equivale a longas sessões de cafuné no sofá da sala vendo a Sessão da Tarde. É melhor do que qualquer minissérie de serviço de streaming por assinatura.
Nos meus 332 dias de isolamento total e sem esta novela de distanciamento controlado, completados nesta quarta-feira, 10 de fevereiro, confesso que senti uma falta absurda de muitas emoções, pessoas, agendas, compromissos e encontros. Algumas vezes, devo admitir, imaginei não ser forte o suficiente para ficar afastada presencialmente de filha, nora, cusco, mano, cunhada, afilhados e amigues. Mas nada como passar um dia inteiro, das 8h até 22h, consumindo as notícias sobre o Coronavírus de todos os telejornais possíveis para desistir da ideia maluca de romper o confinamento.
No entanto, a vontade de abraçar, neste período, foi complicada de administrar. Sonhava que abraçava minha filha, cunhada, o canino Quincas Fernando, as amigas de todas as horas. Acordava no meio da noite desassossegada com a realidade sem os abraços. Imaginava que seria agarrada pelos braços pequenos do afilhado menor que é sempre muito carinhoso. Em seguida, meu pensamento era despertado com a solidão que me separa da casa dele lá em Butiá. Todos os dias e noites, os abraços dominando minhas horas no isolamento. Todos os segundos, o desejo de abraçar e ser abraçada invadindo e tentando desviar o meu foco.
Talvez como naquelas festas juninas das escolas, onde as barracas do beijo sempre recebiam muitos alunos e alunas, eu inaugure, no final da pandemia ou no encerramento do meu período de isolamento, a minha barraca dos abraços. Para recuperar o tempo. Para distribuir afetos. Para zerar a demanda acumulada em quase 365 dias de confinamento. Eu quero abraçar pelo menos 12 meses seguidos. Sem interrupção. Abraços e carinhos sem ter fim. Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços apertados assim…


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