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A economia da presença

De Márcia Budke, para o Coletiva.net

O valor da atenção, do tempo e das experiências em um mundo hiperconectado

Tem dias em que a gente acorda acompanhado de uma sensação estranha.

Não chega a ser tristeza. Também não é felicidade.

É alguma coisa no meio. Uma espécie de cansaço emocional, mas com pequenas faíscas de esperança. Como se o coração estivesse tentando acompanhar um mundo rápido demais.

Depois da pandemia, muita gente ficou assim.

Por fora, a vida voltou. Os compromissos voltaram. O trânsito voltou. As metas voltaram.

Mas por dentro, alguma coisa silenciosamente saiu do lugar.

As emoções parecem ter ficado mais difíceis de decifrar.

Talvez porque tenhamos passado tempo demais olhando para telas, notícias, números e medos invisíveis. Ou porque o excesso de informação tenha embaralhado aquilo que antes parecia simples de sentir.

E hoje, sentimos tudo ao mesmo tempo.

Medo e vontade de viver convivem no mesmo peito.

Queremos desacelerar, mas sentimos culpa quando paramos.

Queremos silêncio, mas pegamos o celular automaticamente a cada poucos minutos.

Queremos presença, mas vivemos distraídos.

Existe uma nova forma de solidão acontecendo. Uma solidão acompanhada de notificações, mensagens, vídeos curtos e conversas interrompidas pela metade.

Estamos o tempo inteiro em contato, mas nem sempre em conexão.

E talvez seja justamente por isso que começam a surgir movimentos de consumo menos ligados ao excesso e mais ligados ao desejo de presença.

Clubes de leitura com fila de espera.

Viagens de reconexão e silêncio digital.

Experiências screen-free.

Retorno de hobbies analógicos: cerâmica, tricô, tapeçaria, bordado e fotografia com filme.

Grupos de corrida comunitários.

Cafés onde as pessoas procuram menos wi-fi e mais permanência.

Minimalismo digital: redução de aplicativos, notificações e tempo de tela de forma intencional.

Talvez estejamos entrando em uma fase em que consumir também significa buscar formas de voltar para si mesmo.

Menos excesso.

Menos aceleração constante.

E mais experiências capazes de devolver a sensação de presença, vínculo e continuidade.

Porque estar permanentemente conectado não impede a solidão — às vezes até a aprofunda.

Talvez por isso estejamos todos um pouco cansados sem conseguir explicar exatamente do quê.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han escreve que vivemos na sociedade do desempenho, onde é preciso produzir, melhorar, performar felicidade, parecer interessante e dar conta de tudo.

O problema é que ninguém dá conta o tempo inteiro.

E enquanto tentamos acompanhar esse excesso de mundo, as emoções vão ficando híbridas, confusas e até ganhando novos nomes: FOMO, FOBO, JOYO e Brain Rot.

Termos que nasceram na internet, mas que revelam sentimentos muito reais de uma era hiperconectada, acelerada e emocionalmente exausta.

Talvez maturidade emocional seja justamente aceitar que nem tudo precisa caber em uma definição precisa.

As neoemoções refletem um tempo que nos empurra para a pressa, para a distração e para a superfície. Mais do que sentimentos individuais, elas revelam transformações profundas na forma como vivemos, nos relacionamos e consumimos.

Talvez por isso estejamos assistindo ao surgimento da economia da presença.

Uma realidade em que atenção, pertencimento, significado e tempo vivido se tornam ativos cada vez mais escassos — e, justamente por isso, mais valiosos.

Márcia Budke é cofundadora e diretora da BrazoMídia

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