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O algoritmo não sabe de tudo

Por Flavio Paiva

Por andar por redes sociais e outros softwares e apps, que teoricamente se propõem a saber tudo sobre você, vi que não é bem assim. Ou ao menos não é ainda, talvez um dia venha a ser. Mas aí vamos entrar no mundo das especulações e hipóteses.

Por ora, o fato é que se pegarmos um app de música, por exemplo, a minha experiência é diferente de ter todo o meu gosto previsto ali. Ele tenta, mas não consegue. Ou “não tenta”. Vamos pensar em Spotify: a lógica dele ainda é (como a da maior parte dos algoritmos) encontrar mais do mesmo. Vai aproximando seu gosto, aproximando, até mirar em um Estado da Arte, como se fosse uma espécie de Revelação, em que ele diria: “Já sei o gosto dele!”

Não sabe não. Porque o meu gosto (e tenho certeza de que um grande número de pessoas) é feito de aleatoriedades, de curiosidade, de acaso. Assim sendo, entra numa área da imprevisibilidade por aproximação. Essa química cerebral que a neurociência se esforça em desvendar, para os algoritmos ainda é incipiente. 

Como eu já falei aqui, tenho estilos de gosto musical que são aproximados, como rock, blues, folk. Mas daí eu salto para música clássica. Ou mesmo samba. Pela minha experiência até hoje(estou hoje falando da experiência com Spotify, mas ela pode ser estendida a sites de filmes, de indicações de produtos, etc), o objetivo do algoritmo é ir afunilando, afunilando, até chegar no núcleo. Sqn. Porque esse núcleo é feito, como eu disse, de uma parte de imprevisibilidade.

E por que estou usando uma coluna inteira para falar sobre isso? Porque esse fato, essa imprevisibilidade, me faz feliz. Não quero ser previsível, nem para uma empresa nem para ninguém. Isso não me faz ficar nessa teórica zona de conforto em que o algoritmo vai me indicando mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo e minha criatividade e possibilidades de associações diferentes vai minguando. Faz com que eu me sinta mais vivo!

Assim, caso o próprio algoritmo leia essa coluna e associe com a pessoa que eu sou entenda que não quero mais do mesmo, quem sabe vem coisa nova por aí? A coisa nova pode trazer desconforto no início: tem que parar e prestar atenção, se colocar dentro de uma experiência (mesmo que estejamos falando a experiência de ouvir uma música) com o mínimo de preconceito possível. Deixar a faixa tocar. E aí sim, ver como se sentiu. Até porque, no caso específico de música, ela varia conforme o estado de espírito da pessoa e até a hora do dia. 

Então, amigo algoritmo, agradeço a gentileza de tentar me oferecer o que eu gosto e pode continuar fazendo isso. Mas não só. Se puxe mais, leia outras coisas, passe por experiências diferentes, veja outros filmes, leia outros livros, conheça outras pessoas. Para daí quem sabe, podermos conversar melhor. 

Autor

Flavio Paiva

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