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Hemisférios (divisões) ainda fazem sentido?

Por Flávio Paiva

Com o exponencial avanço da tecnologia, facilitando demais a globalização que já existia, pergunto se divisões de um modo geral, como Meridiano de Greenwich, ainda fazem sentido. Porque do ponto de vista técnico, não existem mais fronteiras para o fluxo de informação. Portanto, se não existem fronteiras, teoricamente não haveria mais necessidade de divisões como essa.

Analisando sob um ângulo, realmente não faz mais o menor sentido. Os dados são o novo petróleo, etc, circulam numa rapidez e velocidade impressionantes, transpondo e ultrapassando toda e qualquer fronteira, seja ela qual for, de forma legal ou ilegal, com ou sem consentimento. Assim, fronteiras nesse sentido, existem em um vazio tão grande que dão pena.

Só que não é bem assim. Porque limites e fronteiras existem também por necessidade. Mesmo para as pessoas que acreditam que seus dados já estão circulando pelas nuvens, a serviço de organizações, ainda precisam (para a sua saúde mental) colocar um limite. Para organização da cabeça delas mesmas, senão a construção freudiana do ego, por exemplo, desaparece. E ela foi construída e pensada para ajudar as pessoas a se entenderem, se olharem, se reconhecerem e se distinguirem das demais.

Quando somos bebês, existe aquele sentimento de que mãe e filho/filha são um só. A criança não reconhece o limite, isso vai acontecendo com o passar dos tempos e é até mesmo motivo de receio (se vai sobreviver sem a presença física da mãe).

Digo isso para abordar um dos aspectos da necessidade de limite. De outra ordem é o limite entre o mundo interno e o externo. Apesar de existirem na forma uma, ou seja, mundo interno e externo interagem e se complementam, não necessariamente o fato de eu estar em um ambiente ruim faz com que eu seja também uma pessoa ruim. Preciso reconhecer, enxergar e quase tocar nessa distinção, para minha saúde mental.

Agora falando em culturas, é muito interessante que elas interajam, se fundam numa certa medida, mas que continuem existindo individualmente também. Nesse caso, vai ser criado um terceiro produto a partir da miscigenação das duas (ou mais) culturas em questão. 

E limites também são necessários (no caso de fronteiras, hemisférios, etc) para organizar as coisas. Não me refiro aqui somente à questão de propriedade, pois isso demandaria um enorme debate, mas de ordem mesmo. Caso contrário, voltaríamos a uma situação em que uma tribo requisitaria tal país ou território, outro também e então seria iniciada uma guerra. E outra. E outra.

A organização existente eliminou conflitos? Claro que não. Para mim é muito claro que o ser humano tem desejos, ambições (no mau sentido da palavra) além do necessário. Então, uma certa ordem é sempre necessária. Assim como no Direito e em outras situações.

Então devemos obedecer e não questionar? Não devemos nunca deixar de questionar as coisas, sejam elas quais forem. Somente o questionamento, a dúvida, o “e se?” nos levam adiante no desenvolvimento humano. Claro, a forma de fazer isso é o ponto. Precisamos encontrar formas inteligentes e não beligerantes de trazer as questões. Não significa ser, pra usar um termo que há muito não ouço, um concordino. Pelo contrário. Mas chegar às vias de fato só em realmente último caso. Mas questionemos, duvidemos, pensemos sempre. 

Autor

Flavio Paiva

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